“O racismo não existe mais.”

“A escravidão acabou em 1888.”

“Jamais existiu, existe ou existirá eugenia no Brasil.”

“É tudo mimimi…”

Poucas afirmações podem causar tanta angústia em alguém que se ocupa de estudar o passado.

Assim como poucas afirmações podem causar tanta angústia em qualquer pessoa que se ocupe de viver o presente e esbarra, a cada esquina, com permanências perversas destas coisas que “já foram”.

Tal como testemunhas de um crime que foram obrigadas a se calar, por vezes a indignação perante certas fontes históricas vence a conformidade.

Então, é preciso gritar.

Grita-se e denuncia-se com textos, livros, teses, aulas, palestras, vídeos ou preciosas conversas de botequim.

A forma pouca importa, desde que nunca se deixe de combater a reação mais terrível perante a barbárie: o silêncio.

Por isso, convido: já assistiram ao documentário Menino 23?

Lançado em julho deste fatídico ano, o documentário baseia-se no estudo do historiador Sidney Aguilar e teve direção de Belisário Franca. Sidney percorreu um longo e competente caminho investigativo ao saber da existência de tijolos que portavam o símbolo da suástica nazista em uma fazenda do interior de São Paulo, precisamente na cidade de Campina do Monte Alegre, na Fazenda Santa Albertina, de propriedade de Osvaldo Rocha Miranda.

Sidney logo desvendou um projeto de escravização de 50 crianças negras, retiradas de um orfanato do Rio de Janeiro e confinadas nesta fazenda cujos tijolos persistentes anunciam a tecnociência utilizada para justificar sua barbárie: a eugenia.

Partindo daqueles incômodos tijolos a pesquisa chegou aos sobreviventes Aloísio Silva e Argemiro Santos, tornando suas histórias de vida preciosos documentos sobre a mentalidade daquele – e também do nosso- tempo.

Dentre a revolta e a conformidade; dentre a necessidade de superar o passado, seguir a vida e os traumas que não calam, Aloísio e Argemiro, sobretudo, nos conscientizam sobre uma realidade que nada inocentemente negamos.

Caso não tenham visto, fica o convite. Menino 23 proporciona um daqueles momentos reflexivos que rompe a inércia. Cabe decidir se nos manteremos em movimento ou não.