Filho único. Seu pai era dono de quase todos os bares e mercearias das quebradas. Sua mãe vivia pra ele. Ela perdera dois filhos. Fazia todos os seus gostos. Ele crescera cercado por todos, da família aos amigos. Era uma espécie de jóia rara das quebradas. A mãe natureza foi bondosa com ele. Simpático, conquistava tudo e todos. Na sua comunidade, ajudava os que mais precisavam. Ele era literalmente o cara. Ali não tinha pra ninguém. Sua mãe planejava seu futuro com o maior carinho. Seu pai trabalhava duro para não lhe faltar nada. Ele era criado como um playboy. Mas nunca isso subiu à cabeça. Ele era preocupado com todo mundo.

O tempo foi passando. Ele pouco saiu das quebradas. Seu mundo era ali. Estudou, brincou e cresceu, praticamente ali. Tudo ao seu alcance. Nem viajar pra algum lugar. A escola era do lado de casa. Foi do jardim ao terceiro numa boa. Vivia na maior tranquilidade.

Era bom de bola. Seu time foi campeão várias vezes. Não tinha pra ninguém. O cara era o terror no futebol. Principalmente futebol de salão. Ágil como o Falcão. Ele gostava tanto de futebol de salão que construiu uma quadra em um dos terrenos do seu pai na comunidade. Ali ele viveu os melhores dias da sua vida.

Sua mãe sonhava com o filho doutor. Ela tinha um sonho de vê-lo estudando numa faculdade. Dessas que ela não teve oportunidade de estudar. Mas, ele nem pensava nisso. Ele, de certo modo, era um cara simples, apesar da boa vida. Pensava em tocar os negócios do pai. E já bastava. Sua mãe insistia. “Quero ver você doutor”, dizia. Ele, pra não contrariar a mãe, aceitou. E na semana seguinte foi fazer matrícula num desses concursinhos caros da cidade.

O primeiro grande choque foi perceber que ali ele não era ninguém. Que ele era apenas mais um. Que ninguém o tratava como na sua quebrada. As pessoas eram completamente diferentes daquelas de onde ele fora criado. Lá na quebrada todo mundo era praticamente igual. Aqui, ele sentira que não.

Os meses foram passando e a tristeza foi se abatendo sobre ele. Ele não entendia como a vida funcionava. Nem por que as pessoas o discriminavam. Ele não entendia a questão de classe e de cor. Quase ninguém trocava ideias com ele. Muitos riam das suas gírias e do seu modo de falar. E ele se apaixonou pela menina mais bonita do concursinho. O que foi outra grande decepção. Numa das conversas, ela disse pra ele se enxergar no espelho. No mesmo dia, ele ficou horas se olhando no espelho. E não encontrara nada de errado.

Aquela vida boa de outrora já não parecia tão boa assim. Ele começou a entender como as pessoas são duras fora da sua comunidade. Descobrira que era filho adotivo na mesma época em que descobrira a discriminação. Seu mundo caiu. Para não ver a mãe triste, não desistiu do concursinho. Naquela semana, fez a inscrição para direito na federal. Sua mãe era só alegria, enquanto ele era só disfarce.

No final do ano, tinha festa e comemoração no concursinho. Ele se animou. Comprou uma bermuda da moda, cortou o cabelo, colocou correntinha de prata e um pisante da hora. Fazia tempos que não se animava desse jeito.

Como tinha poucos amigos no concursinho, comprou quatro entradas para levar a moçada da sua comunidade. Teria show ao vivo de uma banda de rock famosa e uma cantora de axé. Ele estava todo animado. Como o show seria num lugar distante, precisaria ir de carro. E foi o que ele fez. Colocou os amigos no carro e partiu pra festa. Próximo ao local do show, aconteceu um assalto. E o carro dos assaltantes era muito parecido com o carro dele. Que azar. A polícia “confundiu” os carros e os meninos. Já chegou atirando sem fazer sequer uma averiguação. O saldo foi um terror. Todos mortos. A polícia alegou que o carro era parecido e que os meninos estavam de bonés. E eram todos negros.

Nosso herói morreu. Era um menino boa gente. Morreu sem entender a selva de pedra onde foi jogado. Na cabeça dele, todo mundo era igual. Todo mundo era gente boa, solidário. Nos jornais, que quase sempre falam mentiras, a manchete era que tinham passagem pela policia. Que eram suspeitos do roubo do carro. Ele, ao contrário, não fazia mal a ninguém. Sua mãe caiu numa depressão profunda. Seu pai vendeu todos os bens e mudaram para a cidade onde nasceram.

Ele morreu sem saber que o racismo é a pior doença da sociedade. Ele nem sabia que sofrera racismo. Morreu sem saber do ódio que assola as pessoas. Morreu como um bandido. Na cabeça dele, só queria ser feliz e fazer sua mãe feliz. Só não contava com essa guerra diária que mata, faz sofrer e acaba com os sonhos de muita gente.