Os jogos olímpicos do Rio de Janeiro já correm sem pedir licença, mas só agora consigo refletir um pouco sobre a cerimônia de abertura.

E ainda que abusando de estereótipos, esteticamente achei o espetáculo lindo. A pira olímpica carioca é a mais bela que já vi. Os participantes escolhidos, ainda que eu tenha muitas restrições com vários deles, não comprometeram o show.

Todavia senti falta de uma homenagem a Lula, o articulador e mentor por trás da copa e das olimpíadas brasileiras; mas era evidente que com um governo golpista isso seria impossível.

Já que mencionei governo golpista, vale destacar que Temer agiu como o rato que é: tentou coibir protestos, escondeu-se, não foi anunciado como autoridade máxima do país sede do evento e falou tão rapidamente na vã tentativa de evitar a inexorável e sonora vaia que acabou por escancarar a fragilidade de sua posição; e assim passou uma vergonha intergalática que levará para o túmulo.

Mirando os olhos para além do estádio do Maracanã lamento muito o uso da estética do espetáculo de abertura, da natureza das olimpíadas e da dedicação dos atletas brasileiros para camuflar – e de certa forma validar – o cenário terrível que nos aguarda no futuro próximo; após o encerramento dos jogos e da camuflagem de país democrático e sem problemas conjunturais voltaremos a ser o Brasil de Temer: o país do golpe, o país dos direitos trabalhistas e das conquistas populares jogadas no ralo da história, o país dos evangélicos e ruralistas a (des)mandar no congresso, o país de Cunha soltinho da silva, o país da lama impune da Samarco, o país do leilão de seus patrimônios como o pré-sal, o país da mídia bandida, o país dos abismos sociais e o país que perdeu a chance de diminuir drasticamente suas injustiças.

Seguramente nos próximos dias me dividirei dicotomicamente entre a alegria de assistir eventos esportivos de altíssimo nível e a tristeza de perceber a artificialidade de um evento usado para esconder tanta infelicidade vindoura – ciente de quem pagará a conta histórica, como sempre: os pobres e desvalidos, que não têm direito nem a duas semanas de fortuita alegria.

E com esse espírito dividido entre o olímpico e o crítico observei que as duas primeiras medalhas conquistadas pelo Brasil não podiam ser mais emblemáticas.

A primeira, de prata, representa a pontaria apurada de um milico terceiro sargento; uma medalha aplaudida de pé e com continência prestada por uma direita que quer a volta da ditadura militar, uma direita que não vê a hora dessa boa mira ser usada em alvos móveis – de preferência negros e pobres -, uma direita que quer um revólver na cintura de cada brasileiro para resolver o problema da violência, uma direita que adora apagar fogo com gasolina.

A segunda, de ouro, representa a valentia de uma mulher negra e pobre; uma medalha usada covardemente pela grande imprensa dos bilionários para validar a falaciosa meritocracia neoliberal que classifica todos os desvalidos do mundo em duas categorias: medalhistas olímpicos que entendem o que é “superação” ou vagabundos que não conseguem “chegar lá” por falta de esforço pessoal.

A bem da verdade, nem ouro, nem prata: a desfaçatez oportunista da direita nacional é de vidro.

É fica a cada dia mais contraditório conjugar o binômio merda de mundo-maravilha olímpica…