Há cerca de 10 dias, conheci o Seu Amilton. Um sujeito baixinho, de 1 metro e… ah! Um tantinho de gente assim, ó. Deve bater no meu ombro. Magro que só! Chegou na unidade acompanhado por duas senhoras que o apanharam na rua e o levaram do jeito que dava pra levar. O último banho deve ter sido há 1 mês. Tinha cheiro de xixi, de cocô, de pinga, de chulé, de cecê, de sujeira da rua. E, principalmente, tinha cheiro de miséria. Miséria misturada com perda da dignidade, com saudade da família, com lembranças do passado. Cheirava tão mal que a enfermeira da nossa equipe, antes de atendê-lo, precisou lhe dar um belo banho.

Usando máscara pra tolerar o odor, ela foi tirando, com a competência e o carinho que sempre leva na bolsa, as camadas de dor, sofrimento, abandono, tristeza, desamor. Foram saindo em forma de caldo escuro, rodeando o pé ferido e descendo pelo ralo. Aos poucos, Seu Amilton mostrava sua dor física. Feridas horrendas espalhadas pelos braços e pernas. Uma dermatite causada pela baixa de uma vitamina específica. Situação, de certa forma, frequente em pacientes com histórico de uso crônico e intenso de bebidas alcoólicas.

As senhoras que o acompanhavam eram moradoras de um prédio na rua onde ele costuma ficar. Elas se importaram com a situação dele e, ainda bem, o trouxeram para ser cuidado. Naquele mesmo dia, pedimos exames, orientamos sobre a reposição da vitamina, prescrevemos os medicamentos, limpamos as feridas e fizemos os curativos. Desde então, Seu Amilton vem melhorando a olhos vistos. É outra pessoa. As feridas praticamente sumiram. Ele está mais falante, sorridente, se alimentando melhor e não falta às consultas para reavaliação das feridas.

Por vezes, incentivamos Seu Amilton a procurar novamente a familia, que não via havia mais de dez anos, e ele sempre me respondia: “Quero melhorar, primeiro, doutora.” Pedimos ao Assistente Social da nossa unidade que nos ajudasse nessa busca, mas o Seu Amilton  não dava muitas informações.

Hoje, nos trombamos no corredor:

“Oi, Seu Amilton, bom dia! Veio trocar o curativo?”

Ele sorriu e me apontou. “Minha irmã.”

Foi um momento tão intenso e tão maluco que eu nem entendi direito o que ele havia dito.

“Você mora lá no prédio, também? Veio acompanhando ele hoje?”

“Não. Ele é meu irmão de sangue”, respondeu orgulhosa. “Já vai pra mais de cinco anos que eu procuro ele  em tudo que é lugar e nunca acho.”

Ela sorriu, olhando no fundo dos meus olhos, como quem quer dividir felicidade.

“Tô levando ele pra casa. Amilton é um homem bom. Não merece passar por nada disso não.”

Amilton sorriu e chorou. Chorou não. Brilhou os olhos.

“Vou alí contar pra uma pessoa que vai ficar feliz demais quando souber dessa novidade.”

Corri e contei pra minha enfermeira que ficou assim, feito eu, meio sem palavras. Por que, afinal de contas, foi ela que ajudou Seu Amilton a se encontrar. Depois do banho ele nunca mais chegou sujo em uma consulta. Vivia bêbado, enfurnado em um casarão imundo cheio de gatos e pombos. Literalmente, conseguiu sair da toca. Deu  a cara à luz do dia. Renasceu. Deixou que o vissem e, só assim, pôde ser encontrado.

Hoje tem festa na Baixada!