Final de tarde, todos os colegas na sala de reunião com aquelas caras de esbodegados, oleosos, amarrotados, descabelados, rindo, assim, meio sem forças, de qualquer coisa que não vem ao caso.

Entra uma médica residente e puxa assunto:”Pelo menos aqui a gente pode ter cara de cansado, né.”

“E como faz pra não parecer um atropelado depois de 10 horas trabalhando sem parar?”

“Não sei, mas onde eu trabalhava, não podíamos ficar assim, não. Tínhamos que estar sempre com cara de “como é bom estar aqui, como eu amo esse hospital. Se algum paciente achasse que a nossa cara não estava animada o suficiente, ele fazia uma reclamação dizendo que estávamos com cara de sono, de cansados, de desarrumados.”

Ela passou alguns meses dando plantão noturno em uma rede de hospitais particulares. É claro que não aguentou muito tempo e saiu. Lá, durante a madrugada, os médicos eram acordados quase que de 30 em 30 minutos para atender às queixas mais “inusitadas” possíveis. Desde “uma dorzinha no dedinho do pé esquerdo depois de tirar um bife ao fazer a unha” a “uma coceirinha nos olhos”.

Os pacientes não podiam se sentir desassistidos sequer por 1 minuto. E, para atendê-los, os médicos não podiam levar um resquício de sono no rosto. Era acordar, pentear o cabelo, escovar os dentes, dar uns tapinhas na cara, abrir um sorriso e caminhar feito um bocó até o final do corredor para ver o que aconteceu com o dedo mindinho vitimado pela manicure. Se estivesse maquiada (de madrugada!), melhor ainda!

Outro motivo comum de reclamações por parte dos pacientes era que o médico teve dúvidas sobre seu diagnóstico, que discutiu o caso com um colega, que pesquisou na internet, abriu um livro para consultar a dose de um medicamento. Mas, gente!! Afinal de contas, o que essas pessoas querem de seus médicos?

Eu respondo. Elas querem certezas, precisão, perfeição! Querem ter novamente o controle de suas vidas nas mãos. Querem ser plenamente atendidas em seus anseios. Elas querem tudo. Nada menos que tudo. Querem máquinas. Ou melhor, querem seres humanos indefectíveis para que elas possam sentir o conforto de estarem novamente segurando as rédeas de suas vidas. Assim como vão ao shopping, elas vão ao médico. Querem garantia do “produto” que estão comprando. Querem satisfação. E, como “clientes”, reclamam ao Serviço de Atenção ao “Consumidor” que o seu “produto” veio estragado, com cara de ontem, fora da validade.

Sim, mercantilizamos nossa humanidade. Antes de sermos médicos, somos seres humanos. Seres humanos estão amarrotados às 3 da manhã.

Eu sinto muito. Não me agrada ser portadora desta triste notícia, mas, o seu médico, aquele super-herói, ele não é de nada! Ele está cansado, muitas vezes insatisfeito, mentalmente adoecido pelo volume de trabalho, esgotado física e emocionalmente. É tolice exigir que ele seja sobre-humano. Que bobagem! Nossos pacientes não fazem ideia do quanto nós NÃO SABEMOS! A gente mais NÃO SABE do que sabe. E a gente anda mais tempo acabado, com a sensação de ter sido atropelado por uma carreta do que bem disposto e super animado para a nossa lida. Sim! Somos exatamente como o restante da população do planeta. A única diferença é que ninguém acredita nisso.

Eu, a princípio, só consigo sentir medo dessas pessoas que fazem reclamação de médico que chegou às 3 da manhã no consultório com cara de ser humano. Mais medo ainda eu tenho dos que acham ruim que o cara cheque a dose do medicamento em um livro de consulta rápida ou busque um periódico na internet para se certificar sobre a melhor conduta diante de um caso. Vocês estão longe de serem atendidas por um legítimo exemplar da espécie humana. Para humanizar a medicina, é preciso humanizar seus deuses, digo, seus operários.

E que atirem as primeiras pedras os meus colegas que sabem tudo. De tudo! Ah, e os que não dormem no plantão, também. Mas péra! Um de cada vez.