Há  algum tempo, uma amiga querida, Victoria (nome fictício), me procurou e pediu que eu escrevesse sobre  uma história que ela precisava contar. Em princípio fiquei surpreso, mas na medida que me contava sua história fui sendo tomado por uma profunda angústia.

Falou-me sobre a dor lancinante e silenciosa de ter sido estuprada pelo pai. Disse-me que chegara a hora de externar essa história para ajudar a purgar o pus da ferida da alma.

O estupro – e compreendamos como estupro qualquer tipo de violação sexual, que vai da penetração a um simples toque – é um dos crimes mais cruéis e hediondos que pode existir. Cria feridas graves e profundas, algumas das quais nunca cicatrizam.

Quando a vítima é uma criança, as consequências podem ser ainda mais sérias e duradouras, pois afeta a psique em formação. “As consequências, em termos psicológicos, para esses garotos e garotas são devastadoras, uma vez que o processo de formação da autoestima – que se dá exatamente nessa fase – estará comprometido, ocasionando inúmeras vicissitudes nos relacionamentos sociais desses indivíduos”, segundo pesquisa do IPEA.

Ao conhecer a história de Victoria, compreendi algumas nuances comportamentais que ela apresentou numa fase de sua vida: a depressão e a síndrome do pânico. Leiam o relato abaixo desta introdução e conhecerão.

No transcorrer de nossa conversa, minha angustia foi se transformando em indignação. Entendi que seu pai é um monstro, um homem egoísta, egocêntrico e cruel, que não se importa com as consequências de seus atos, assim como são todos os estupradores e pedófilos. Não se preocupou em destruir a vida de seus filhos e esposas.

Num determinado momento de nossa conversa, Victoria disse que seu pai é um homem doente. É completamente compreensível que ela, como filha, busque argumentos para justificar tamanha sordidez, mas não podemos patologizar o estupro, a pedofilia, o crime cruel. Quando se patologiza, abranda-se o mau  caratismo e a culpa do criminoso. Tira-se o peso de seus crimes.

Uma matéria da BBC sobre o tema mostra que, segundo levantamento do Ipea, feito com base nos dados de 2011 do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan), mostrou que 70% das vítimas de estupro no Brasil são crianças e adolescentes. De acordo com os dados mais recentes, em 2014 o Brasil tinha um caso de estupro notificado a cada 11 minutos. Os números são do 9º Anuário Brasileiro da Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Apesar da pequena queda ante 2013, 47,6 mil pessoas foram estupradas naquele ano. Como apenas de 30% a 35% dos casos são registrados, é possível que a relação seja de um estupro a cada minuto.

Esses números mostram que 24,1% dos agressores das crianças são os próprios pais ou padrastos, e 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima. O indivíduo desconhecido passa a configurar paulatinamente como principal autor do estupro à medida que a idade da vítima aumenta. Na fase adulta, este responde por 60,5% dos casos.

Em geral, também segundo o Ipea, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa e que a violência nasce dentro dos lares. (http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36401054).

A pedofilia não tem classe social. Entretanto, quando ocorre nas classes mais altas, geralmente é silenciada. Pedófilos(as) têm de ser denunciados(as),  têm de ser expostos(as). A denúncia é o primeiro passo para se combater este crime hediondo.

Conheçam a história de Victoria, narrada por ela. Todos os nomes foram trocados para proteger os membros da família. Este texto que introduz o relato foi submetido e aprovado por Victoria.

Relato

“Quando eu ouvi “Til it happens to you”, da Lady Gaga, pela primeira vez, eu devo ter chorado por pelo menos umas três horas seguidas… Confesso que foi uma sensação muito estranha, porque ao mesmo tempo que a música me levou às minhas memórias mais dolorosas, eu também fiquei aliviada e grata, porque eu nunca tinha ouvido nada que me fizesse sentir tão representada, pois a letra dizia exatamente aquilo que eu gostaria de gritar quando alguém tenta me consolar. 

Não, minha história não é uma história de estupro na faculdade, mas acredite, é tão comum quanto… Porque as pessoas não gostam de pensar sobre isso mas, sim, o estupro é comum, o assédio é comum, e tudo é aceito e sempre vai ser, porque o machismo tá aí firme e forte pra legitimar tudo o que eu passei e tudo o que tantas outras passaram e passam todos os dias. 

Eu pedi pra contar minha história e confesso que meus motivos não foram totalmente altruístas. Sim, um lado meu entende e quer que essa história seja contada porque as pessoas precisam abrir os olhos, porque coisas ruins acontecem com crianças dentro de seus lares o tempo todo e nada é feito, porque a sociedade precisa falar disso, porque o mundo machista em que a gente vive não é um lugar seguro pra crianças, porque eu tenho um filho que é lindo e puro e precisa de um mundo melhor pra crescer. Mas também fiz isso por mim… tem muita coisa entalada aqui no meu peito que eu preciso botar pra fora… mesmo tomando 3 medicamentos diferentes, mesmo fazendo terapia uma vez por semana, mesmo tendo uma família que me ama, o melhor marido, o melhor filho… mesmo assim, é uma ferida que não fecha, é uma dor que não se acaba.

Pois bem, vamos lá… Acontece que lá na adolescência eu sempre fiz sucesso nas rodas de amigos contando as aventuras de meu pai. Era um assunto que sempre rendia bem e todos riam e se divertiam muito, pois meu pai sempre foi o quadro clássico de macho alpha: pegador, malandro, dando nó até em pingo d’água pra manter sua poligâmia… Sempre foi visto pelos meus amigos como um “mito”, como se usa hoje em dia. Muitos diziam querer ser como ele, meus irmãos mais novos sempre se espelharam nele, que a vida toda foi poligâmico, viciado em sexo, e sempre foi cultuado por isso. Suas relações sempre formaram um tripé: Ele, uma esposa e uma amante fixa… Quando se separava da esposa, adotava a fixa no lugar e repunha o quadro com uma nova amante fixa… E seguindo esse padrão está hoje no quarto casamento, tendo ao todo 10 filhos. Ele paquerava 90% das minhas amigas e elas pareciam se divertir com isso, e ele inspirava 90% dos meus amigos, que o cultuavam como um herói. 

O que eu nunca contei aos meus amigos é que meu pai não é apenas poligâmico. O que, mesmo agora é difícil pra mim verbalizar, é uma constatação tão clara quanto dura: Meu pai é um pedófilo.  E não, não foi desde sempre que eu soube disso, porque o cérebro da gente é uma máquina muito engenhosa, e quando um assunto é muito tenebroso ele enfia o negócio lá numa gaveta bem escondida, dessas de chave, que pra abrir leva um tempo, mas também, depois que abre, já era, não fecha nunca mais. 

A pedofilia do meu pai ficou esquecida na minha memória durante um bom tempo, por alguns motivos… O primeiro deles é que eu era muito pequena mesmo quando fui molestada… O segundo é que não tinha violência, então quando acontecia, eu nem sabia diferenciar carinho de pai, de pedofilia… O terceiro é que simplesmente apagou da minha memória. 

Até por volta dos meus 13 anos, eu, que já não morava  mais com ele desde os 7 (quando ele e minha mãe se separaram), não me lembrava de nenhuma dessas coisas nojentas, até um dia que eu nunca vou esquecer, quando ele operou do apêndice.

Meu pai sempre teve muitos pêlos, igual o Tony Ramos, e havia sido depilado por causa da cirurgia… era engraçado de ver. Lembro que eu tinha ido à casa dele depois da aula, acompanhada de uma amiga. Ela ficou no corredor e eu entrei no quarto, e ri da depilação. Lembro que ele ficava falando pra minha amiga entrar, e olhava ela de um jeito esquisito, que eu identifiquei como desejo, e mais esquisito ainda foi que ele pegou a minha mão que estava em seu peito e começou a desce-la… e percebi que ele estava com o pênis ereto… Tirei a mão, dei um tchau rápido e disse à minha amiga que era hora de ir… Saí de lá com a cabeça fritando, vomitei algumas vezes e tinha flashes de “carinhos” que ele fazia em mim quando eu era bem menor… Aquela história não saía da minha cabeça, mas eu não conseguia ter certeza do que era realidade e do que minha cabeça estava criando, afinal como eu podia pensar aquilo do meu pai? Podia ter sido só um mal entendido, a ereção podia ter sido involuntária, eu podia ter descido a mão demais sem querer… podia ser culpa minha… 

Comecei a ter pesadelos e crises de choro constantes, até que, vendo meu sofrimento, uma das minhas irmãs (éramos 4 do primeiro casamento dele, três mulheres e um homem) veio me questionar sobre o que estava acontecendo comigo. Eu não citei o meu pai, mas disse a ela que achava que havia sido abusada quando mais nova, mas não conseguia me lembrar direito, perguntei se fazia algum sentido pra ela. Ela então falou pra mim: “essa é a primeira e última vez que nós vamos falar sobre esse assunto, mas o pai abusou de mim e da Helena, então ele deve ter feito com você também”. Mesmo já tendo a verdade na memória, foi uma bomba caindo sobre mim, e foi muito, muito difícil assimilar aquilo. Mas ela não queria falar sobre o assunto e eu também só queria esquecer.  Foi mais fácil pra mim achar que a Helena também não queria desenterrar essa memória, eu simplesmente engoli em seco e coloquei aquela informação no lugar mais fundo que meu cérebro foi capaz. Além do que meu pai, apesar de ausente, sempre foi uma figura divertida e agradável, então foi mais fácil pra mim enterrar isso e acreditar que ele não fazia mais esse tipo de coisa. 

Mesmo enterrando, mesmo não falando mais sobre o assunto, as sequelas eram muitas… Porque lá atrás, onde aquelas lembranças ficaram enterradas, meu pai me tirou a capacidade de confiar. Eu não podia confiar em ninguém e, pior que isso, eu não podia confiar em mim mesma… Daí desenvolvemos algumas características como o chamado “dedo podre”: eu sempre me relacionava com os piores caras, porque pra mim era mais fácil iniciar um relacionamento já sabendo que a pessoa era ruim do que ter que confiar e errar no julgamento; além disso a convivência com a minha mãe também não era boa, mesmo ela sendo uma santa, porque eu simplesmente deixei de confiar nela, por não entender como tudo isso aconteceu debaixo do seu teto e ela nunca percebeu nada… ou pior, pensar que ela percebeu e não fez nada… Eram muitos nós na minha cabeça, muita coisa mal digerida, mal resolvida, meu cérebro começou a fritar por causa disso e eu comecei a ter crises de pânico e alucinações. 

Lembro bem que quando eu soube que a terceira esposa do meu pai ia ter uma menina eu chorei dias seguidos, e a família toda ria de mim por achar que eu estava com ciúmes. Mas não era ciúmes, era medo da história se repetir… Nessa época eu lembro que tentei conversar com meu pai, porque eu precisava ter certeza que ele havia mudado e que não aconteceria de novo, mas ele sequer me deixou terminar de falar e tudo o que ele me disse foi “não pensa mais nisso”. Eu tomei essa fala como um “nunca mais vou fazer isso”, porque era o caminho menos dolorido pra mim. Mexer nessa história envolveria não só minhas próprias dores mas as dores de muitos outros, e meus irmãos sempre foram o que eu tenho de mais sagrado no mundo (na época eu ainda não tinha meu filho). 

Eis que a Sheila nasceu, os anos foram passando e esse assunto lá enterrado. Mas se tem uma coisa que a vida me ensinou esbofeteando na minha cara, é que não há como fugir da verdade e não existem segredos que durem para sempre… Quando ela estava com mais ou menos sete pra oito anos minha então madrasta começou a se queixar pra minha irmã Helena de comportamentos que a gente conhecia bem… Ela dizia que, mesmo contra sua vontade, meu pai quem dava banho na Sheila e a colocava pra dormir. Além disso, ela relatou estar muito incomodada sobre boatos da vizinhança de que meu pai teria molestado uma amiga da família. 

Ora, era tudo tão óbvio… Era a verdade açoitando a nossa cara como um cipó cortante. Verdade dura de encarar, culpa por termos varrido tudo pra debaixo do tapete. Não dava mais pra esconder, foi a hora de cortar relações com ele, foi a hora de abrir pra toda família. 

Fomos eu e a Helena até a casa da Márcia (a mãe da Sheila, então esposa do meu pai) e contamos a ela tudo que tinha acontecido conosco, pra fazê-la enxergar que tudo indicava que estava acontecendo com a Sheila também. E confesso que achei que seria uma conversa mais fácil no sentido de convencê-la, já que os seus próprios instintos de mãe apontavam para a perversidade, dado o incômodo dela diante do que vinha acontecendo. Mas não, num primeiro momento a preocupação dela em se separar do meu pai se resumia em que a Flávia (a então amante) sairia vitoriosa. Lembro que eu queria esbofeteá-la, lembro que eu via a negligencia da minha mãe nela, lembro que eu queria morrer… 

Mas sobrevivi, e também a Márcia, passado o choque inicial, sobreviveu, e conseguiu se separar. Mas foi tudo muito duro, e não só para nós diretamente mergulhadas no assunto. Há nessa história cinco irmãos homens, aos quais foi muito difícil relatar o que acontecia conosco. O Marco Antonio, o mais velho, cresceu se sentindo rejeitado pelo meu pai sem entender o porque dele sempre ter dado atenção a nós, meninas… Ele jamais poderia imaginar que o tipo de atenção que meu pai nos dava era tão perversa. O Josias e o José foram frutos do segundo casamento, um casamento sem meninas, então eles só conheceram o melhor do meu pai, eles o tinham como herói, e mesmo sabendo a verdade, é muito difícil descontruir uma imagem que nós mesmas ajudamos a propagar… E por último temos o Moisés e o Pedrinho, irmãos da Sheila. O Moisés sempre foi introspectivo, intelectual, com uma inteligência acima da média que claramente destoa do ambiente em que foi criado. Esconde bem seus sentimentos por isso é difícil dizer como isso o afetou exatamente. Já o Pedrinho é emoção pura, e seu coração adolescente nunca conseguiu deixar de amar e idolatrar meu pai, por isso ele nunca nos perdoou por ter trazido este assunto à tona, e nós nunca nos perdoamos por te-los feito sofrer. 

Então, continuando seu ciclo, meu pai fez da Flávia sua esposa, e a mesma ficou grávida… E dessas ironias da vida, que nada têm de engraçadas, a filha é uma menina. Se contamos à Flávia toda nossa história? Sim, contamos, mas ela não acreditou. Se tentei confrontar meu pai depois disso? Sim, mas entre outras coisas ele me disse que nunca nos fez mal uma vez que “não tirou a virgindade” de nenhuma de nós. Se denunciamos? Não. O que ele fez contra mim, Rita e Helena já prescreveu e não temos como provar, e das vítimas recentes, nenhuma quis denunciar pra não se expor, e quem sou eu para julgá-las após anos do meu próprio silêncio? 

O que posso dizer é que como saldo pessoal de tudo isso eu me vejo presa a um tratamento psiquiátrico para o qual não há previsão de alta, uma culpa e um sentimento de omissão diante dessa minha irmã caçula que nem o nome eu guardei pra tentar sofrer menos, e uma paranoia constante de que algo errado possa acontecer com meu filho e eu não perceba.

Minha irmã Helena também faz tratamento psiquiátrico e por vezes busca refúgio na bebida pra esquecer as mazelas sofridas por nós.

Minha irmã Rita, embora não tome remédios, está sempre visivelmente abatida e sob estresse constante. 

Meu irmão Marco Antônio faz acompanhamento psiquiátrico e teve uma crise nervosa semana passada. 

Meu irmão Pedrinho me odeia. 

Eu sofro. Muito. Todos os dias.

Meu pai segue feliz e impune. E o pior de tudo: livre para continuar destruindo vidas.

Essa é minha história, e eu gostaria muito de dizer que esse é um caso raro, mas não posso. Tenho que dizer que meu pai não foi o único a me assediar, mas eu fui condicionada desde criança a aceitar calada esse tipo de coisa. Infelizmente tenho que dizer também que tive de abandonar a área social, que sempre me realizou muito, por ver minha história se repetindo corriqueiramente em diversas famílias (e meninos também sofrem). Tenho também que dizer que minhas duas melhores amigas também já foram estupradas, e uma delas também pelo próprio pai. Tenho que dizer que, quando contei para minha sogra minha história, ela com lágrimas nos olhos me confidenciou que sofreu o mesmo na infância com um padrasto. Tenho que dizer que a cada vez que você encoraja e aplaude um homem por sua virilidade, poligamia e outros atributos de cunho sexual, sem saber você pode estar encorajando um maníaco. 

Tudo o que eu disse pode parecer sem importância pra maioria. Mas pra qualquer um que leia e se identifique, saiba que você não está sozinha (o), e precisamos quebrar o silêncio. Porque só nós sabemos que, em nossas mentes, nunca mais haverá silêncio, haverá sempre um grito de socorro, abafado, mas está ali… E você nunca vai entender até acontecer com você (oremos pra que nunca aconteça).”