hoje, pela terceira vez, cumpri uma rotina que me sabe a remédio para o que me resta do gripão que peguei: acordei cedo, coei café, enchi a caneca e, tal como acordei [cabelos desgrenhados, camiseta mascada pelo boi Odilon, shorts puídos, cara de cu de hipopótamo] desci para me sentar num dos banquinhos em frente ao prédio.

fumei um cigarro ouvindo os passarinhos, e então me lancei a um de meus prazeres: cantar canções do tempo do onça, para as quais a voz de gripado – e recém-acordado – é uma bondade.

hoje, mandei ver uma do Noel, “Pra Esquecer”, que considero um lancinante biscuit: “E hoje em dia / Quando por mim você passa / Bebo mais uma cachaça / Com meu último tostão / Pra esquecer a desgraça / Tiro mais uma fumaça / Do cigarro que filei / De um ex-amigo que outrora sustentei”.

aqui, o colosso:

(Nelson Gonçalves – Pra Esquecer, de Noel Rosa)

delírio ou resquício de sono, assistia a um besouro tentando se matar após meu número, quando ouvi patinhas e passos de chinelinhos se aproximando.

olhei, quem vi?

o cãozinho mijão e sua octogenária dona, que, outro dia mesmo, ao me ver em situação semelhante, perguntou se estava tudo bem, e que hoje, com indisfarçável curiosidade, quis render prosa:

– rapaz, bom dia.
– bom dia, senhora.
– desculpe perguntar, mas você mora aqui?
– digamos que sim. moro por aqui, por aí – dramatizei, pra saciar sua redenção cristã de dar trela pra um molambo qualquer.
– você é muito jovem pra saber essas músicas.
– trilha sonora da minha vida – respondi, certo de ter alcançado o Olimpo de canastrões que o Cuoco – Emoticon heart- suou pra merecer frequentar.
– eu moro naquele bloco ali, espera um pouquinho aí.

e foi-se, com o cãozinho mijando todos os arbustos até o bloco.
na volta, sem o cãozinho, mas com algo nas mãos, que, primeiro, entregou parte ao porteiro, depois, chegando ao banquinho, me entregou a outra parte:

– toma. você precisa se alimentar direito – decretou, olhando para minha caneca, que entende como a razão de minha ruína.
– muito obrigado. que Deus a abençoe e guarde.
– amém. a você também – e se foi.

na matulinha, um naco de um delicioso bolo de milho da vizinha Biscoitos Mineiros.
esse, meu primeiro cachê.
ótimo começo.

em retribuição, amanhã, vou gorjear a suicida “Ciúme de Tudo”, do incrível Orlando Dias.
mas sem copiar-lhe os tiques e performances – dentre as quais, aquela de, ao final da canção, sacar um pente do bolso e simular o esfaqueamento de seu coração.

minha primeira fã merece que eu lhe provoque suspiros, não um infarto – e perder a bocada da merendinha, fora de meus planos.