1 tostão – porque não sei escrever 1 conto – de amor [primário]

meu primeiro casamento para a vida toda foi em 1974, aos 8 anos, em minha Sampa natal, com a Professora primária Denise – que não sabia que éramos casados, e para toda a eternidade, mas isso era um detalhe.

a Professora Denise era um clone da Dina Sfat, donde a família não entendia o meu interesse em acompanhar os capítulos de “Fogo sobre Terra”, da Janete Clair, estrelada por Dina, no papel de Chica Martins, eu morrendo de ciúmes do Pedro Azulão [Juca de Oliveira] e do Diogo [Jardel Filho], que disputavam seu coração, enquanto eu, alternando com o pirulito Zorro, chupava o dedo…

mas, tudo bem.
Dina era a Professora Denise de mentirinha, e, de 2ª a 6ª, das 13 às 17hs, eu me empenhava em ser um ótimo esposo para a Professora Denise de verdade, o que, de alguma maneira, explicava o carmim em meu boletim – não de bitocas dadas com batom por Professora Denise, registre-se, mas em Matemática e Ciências…

um dia, entendi que não era mais justo, ou suficiente, só eu saber – e me fartar – daquele romance de folhetim russo, e decidi me declarar para a amada, o que envolveu uma produção.

um dia antes, com os cobrinhos da mesada, comprei joias caríssimas: caramelos, jujubas, Mentex, drops Dulcora e, pra derretê-la, uma caixinha de Língua de Gato.
no dia, tomei um banho de Cleópatro, depois banhei-me com um Sena de perfume, conferi o cabelo no brilho dos sapatos e fui à escola, tomando o cuidado de não amarrotar o uniforme, para o que fui em pé na Veraneio escolar durante todo o trajeto.

chegando à sala de aula, Professora Denise já estava lá, organizando os cadernos de chamada.
de tão gelada, minha barriga dava a impressão de que eu roubara um carrinho da Yopa e outro da Kibon e chupara todos os picolés de ambos.
mas tomei coragem e entreguei à amada, além das joias, um cartãozinho com a declaração de amor, plagiando não me lembro se alguma fala do Ênio, da Vila Sésamo, ou – mãe de deus… – do Topo Gigio.

ela abriu um sorriso de 418 mil voltz e, com toda delicadeza, me explicou que já era casada – e, mesmo, não seria justo com a Monique, uma japonesinha que, segundo ela, era “caidinha” por mim, para o que ajudaria pra gente, quem sabe, tomar um Chicabon no recreio.

prazer, Mayso – ou, “Meu Mundo Caiu”.

não queria Monique, muito menos tomar nada, exceto, talvez, uma overdose de Melhoral Infantil com groselha Milani, pra matar o que me matava e, de lambuja, ganhar asinhas pra voar – é, sabe aquilo de virar anjo? eu cria.
mas, vendo um reclame no televisor, concluí que seria péssimo nunca mais assistir ao programa “Banana Split”, com aqueles desenhos formidáveis, aí desisti daquele final de ópera.

o resto superei ouvindo de carona com a Turca o LP do Roberto de 1974, estourado com a canção “É Preciso Saber Viver”.

meu atrasado salve a tod@s homenagead@s no dia dos professores, que nos apresentam e ensinam para o mundo e toda riqueza nele constante, aí incluídas as inflamáveis paixões voláteis. 🙂