Parece que existe um comportamento que se repete nas lutas de minorias, e que reproduz o próprio modelo contra o qual a minoria se constitui. Minorias segregando “sujeitos políticos” internos ao movimento, gerando novas minorias.

Fomos por tanto tempo massificados, tomados como um conjunto inespecífico, com evidentes objetivos de controle disciplinatório dos comportamentos, que atingimos hoje o extremo oposto dessa condição, gerando cada vez mais pautas específicas na luta por direitos.

Essa extrema necessidade de defesa das diferenças é, com certeza, não apenas uma reação previsível ao extenso período de falta de diferenciação, mas também uma importante particularização das reivindicações dos variados grupos humanos.

Hoje o particular ganhou uma importância social e civil que não pode ser negada e que merece ser observada em todos os âmbitos das relações humanas.

(Fazendo um paralelo metafórico: se antes, no período de massificação dos comportamentos, era aceitável usar vacinas para salvar 100 mil crianças, mesmo que para isso 100 morressem de efeitos colaterais, hoje cada criança perdida relativiza o método de medicalização).

Mas quais contradições surgiram desse aprofundamento do processo democrático que estão enfraquecendo a atuação política dos chamados grupos minoritários? E mais, considerando que esses grupos não são efetivamente minorias quantitativas, quais mudanças estão se fazendo necessárias nas formas de luta, nos programas de luta e, principalmente, no estabelecimento dos “sujeitos” das pautas, para que o enfrentamento contra o poder hegemônico não se dilua, como vem acontecendo?

Embora para o aprofundamento do processo de democratização da sociedade seja imprescindível dar voz e direitos a cada particularidade das expressões do humano, uma impressão de diluição de forças de enfrentamento vem se apresentando. Até que ponto essa diluição é desfavorável?

Muitos acreditam que a distinção entre as reivindicações, que geram formas de luta incompatíveis entre si, impede a necessária união política contra a força dominante estabelecida no poder (curiosamente com perfil de “sujeitos políticos” minoritário).

Mas será que as formas de revolução pertinentes para o século 21, que abracem esse processo de diferenciação, não precisam ser revistas? Será que a imagem de enfrentamento feita por multidões não correspondem justamente ao modelo de massificação, e hoje podemos perceber que não é necessário quantidade, mas qualidade para a eficácia desse enfrentamento?

Desde a metade do século passado, quando aconteceu a intensificação dos movimentos por direitos de grupos oprimidos pelo modelo hegemônico de poder (masculino, heteronormativo, branco e com poder econômico), muitas conquistas vêm sendo obtidas no sentido de buscar direitos iguais para esses grupos excluídos da vida social e civil.

Os movimentos de trabalhadores, de negros, de gays e de mulheres (mais recentemente de portadores de necessidades especiais), principalmente, vêm aprofundando as noções de democracia por suas exigências e persistência na conquista de igualdade de direitos e liberdade de expressão.

Esses grupos, comumente denominados de “minorias” (com exceção dos trabalhadores que não levam esse rótulo), começaram a se organizar e atuar politicamente com mais eficácia e a muito custo.

Todas essas lutas tinham, e têm, o mesmo objetivo, que é diminuir, e quiçá eliminar, as formas de segregação que vieram sendo condicionadas no comportamento humano.

Porém, a história nos revela que uma importante contradição acaba por caracterizar essas lutas.

Com o intuito de fortalecer, empoderar o grupo excluído, a radicalização desses movimentos, muitas vezes historicamente necessária, tem provocado outras formas de segregação que estão reproduzindo os próprios modelos contra os quais esses movimentos se opuseram.

Embora possa se considerar que essa contradição seja inevitável ao processo histórico de reivindicação de direitos, faz-se necessário reavaliar quem são os sujeitos, ou a construção desses sujeitos em questão.

Um exemplo bem evidente encontra-se nas lutas feministas, que hoje se subdividiram em diferentes linhas de atuação por designarem diferentes sujeitos. Sujeitas, no caso!

O movimento feminista dos anos 60, com suas importantes reivindicações para mulheres, excluía as reivindicações específicas de mulheres negras, mulheres pobres, mulheres lésbicas e mulheres trans.

O mesmo problema surgiu dentro do movimento gay. Existem diferentes tipos de segregação dentro do heterogêneo grupo de defesa dos direitos à homossexualidade. Contradições e reflexões levaram o antigo movimento gay a ampliar sua causa para acolher todas as pautas específicas dentro da homossexualidade. Ampliação essa expressa na nova sigla assumida: LGBTT.

A presença dessas contradições tem segmentado os grupos em diversificadas lutas, o que por um lado permite o aprofundamento de específicas reivindicações, mas por outro tem criado acirramentos que só são úteis à permanência do modelo de poder hegemônico.

No caso da luta feminista, essa contínua segregação vem se agravando e se tornando cada vez mais violenta.

O feminismo, hoje, vem adquirindo sub-rótulos que não servem apenas para especificar reivindicações, mas para segregar os grupos entre si.

Feminismo de mulheres brancas cis heteronormativas;

Feminismo de mulheres negras cis heteronormativas;

Feminismos de mulheres brancas e negras cis lésbicas;

Feminismo de mulheres brancas e negras trans hétero e travestis;

Feminismo de mulheres brancas e negras trans lésbicas.

E tantas quantas forem as possibilidades de diferenciação (há quem ainda considere que a causa gay é também uma parte do feminismo).

Embora se possa considerar a importância de diferenciar pautas entre todas essas possibilidades de feminismo, pode-se também verificar que em muitos dos casos de segregação há uma repetição do modelo segregacionista hegemônico, em novas vestes.

Os exemplos são vários, mas para citar um que parece bastante exemplar, há um caloroso embate entre feministas lésbicas com genitália feminina contra feministas lésbicas com genitália masculina. As primeiras não reconhecem mulheres trans (com genitália masculina e mesmo as que já passaram pela ressignificação de gênero) como mulheres porque entendem que a presença (atual ou passada) da genitália masculina as exclui da capacidade de observar as originais reivindicações das mulheres cis. A presença da genética masculina (e inclusive do órgão genital) nas mulheres trans configura para as mulheres cis feministas (chamadas radicais) uma designação de gênero insuperável.

Essa abordagem vai contra os princípios fundamentais do movimento feminista, não talvez enquanto conceito, mas principalmente enquanto ação política.

Isto porque na esfera de atuação política o modelo de poder que prevalece continua sendo o masculino heteronormativo (e de fundamento patriarcal) que, de fato, exclui ambas as minorias citadas.

As mulheres trans não são reconhecidas como mulheres tanto pelos grupos “feministas cis” quanto pelo padrão masculino estabelecido.

Obviamente que esses confrontos não são apenas uma implicância ou discordância conceitual. Existem casos de abusos e estupros praticados por pessoas detentoras de pênis (sejam mulheres trans, homens héteros ou homens gays) contra mulheres lésbicas, por exemplo: os chamados “estupros corretivos” em que o praticante da violência entende que o estupro pode causar uma mudança na orientação sexual da vítima.

Embora essas situações causem óbvia repulsa, não podem ser observadas como um comportamento de determinado grupo. O estupro e toda violência sexual tem de ser compreendido como um crime, e, portanto, efetuado por um criminoso independente de sua condição de gênero.

Se muitos homens estupram mulheres, isso não quer dizer que todos os homens estupram mulheres ou têm potencial para fazê-lo apenas porque são homens.

Considera-se que há uma “cultura do estupro” que impregna o comportamento de todos, colocando alguns no papel ativo e outros no papel passivo da violência. No entanto, engana-se quem relaciona a fonte criminosa ao órgão sexual exclusivamente. A mulher trans, embora possa ser detentora do instrumento mais comum do estupro, não precisa possuir a intenção do mesmo, pois a violência não nasce no corpo físico, mas sim no psíquico, onde ela é mulher.

Nesse sentido, o objetivo primordial de combate ao modelo estabelecido fica enfraquecido por subjetividades que poderiam conviver dentro da mesma causa.

Outro exemplo bastante significativo dessa contradição interna aos movimentos de minorias pode-se encontrar no movimento negro. Embora o movimento negro tenha amadurecido suas formas de luta e enfrentamento, à custa de muito sangue há décadas, fez eclodir uma cruel segregação interna ao movimento: a relação com as mulheres negras. Mulheres do movimento negro começaram a reivindicar pautas específicas que não estavam no corpo da causa e, principalmente, denunciar a violenta segregação que sofrem internamente no seu grupo pelos homens negros. As denúncias se referiam ao fato de que muitos homens negros que atuam na militância da causa negra agem como grupo racial na esfera pública, porém na esfera privada reproduzem a mesma opressão contra a qual lutam: o repúdio à mulher negra frente à mulher branca.

O que se observa a princípio é que as pautas de minorias se inter-relacionam, apesar das suas especificidades. A mulher negra precisa atuar no movimento negro, mas também sustentar pautas feministas próprias que não estão abarcadas no movimento racial e nem em alguns movimentos feministas. A mulher trans precisa atuar no movimento LGBTT, mas também sustentar pautas feministas que não estão abarcadas no movimento de reivindicações homossexuais. E assim por diante.

Os limites foram ficando tênues e os movimentos não conseguiram abraçar suas próprias “minorias”.

Será que para os direitos das pessoas afrodescendentes, negras ou pretas, não seria mais eficaz incluir as pautas das mulheres do grupo do que enfraquecer sua participação na luta comum?

Será que para os direitos das pessoas femininas, entendidas como antimasculinidade hegemônica, não seria mais eficaz incluir as pautas de gays, trans, travestis, mulheres cis, lésbicas, bissexuais, e tudo aquilo que é oprimido pelo modelo no poder? Há uma proposta nesse sentido chamada transfeminismo.

Uma pessoa negra, mulher, trans, lésbica deve atuar em qual grupo político, se todas as suas condições são oprimidas pelo mesmo poder?

O aspecto que traz contradição aos movimentos, que vem sendo bastante identificado no comportamento social diante dos direitos das minorias, é que os preconceitos que sustentam o poder hegemônico estão enraizados tanto nas pessoas fora do grupo minoritário quanto nos indivíduos dentro dele.

Daí vem se refletindo sobre a necessidade de desconstrução desses conceitos e preconceitos que foram construídos.

Faz parte do corpo de todo movimento de minorias a desconstrução e descondicionamento de hábitos de sustentação do poder hegemônico nos próprios sujeitos do movimento.

O movimento negro, por exemplo, reconheceu que uma das dificuldades de unificar as forças internas ao próprio grupo era o preconceito e/ou a baixa estima que o próprio negro internalizou sobre sua condição. A luta não podia estar apenas focada no preconceito vindo dos grupos opressores, mas também exigiu, e exige, um trabalho persistente do negro sobre sua autoimagem. O negro se via (e ainda se vê) pelo olhar do branco porque esse detinha o poder e as tecnologias dessa observação. Nesse sentido, o movimento ganhou e ganha mais força de atuação política conforme consegue modificar essa autoimagem. E isso acontece quando ele se apodera das tecnologias de comunicação e do fortalecimento das inter-relações no grupo.

Parece, portanto, que cabe observar duas questões: a) uma autorreflexão dos movimentos no sentido de rever os sujeitos de suas causas para ampliar seu espectro de atuação política, alinhando seus programas às especificidades internas ao grupo, em vez de segregar novas minorias; b) repensar a força de atuação política não mais a partir de grupos volumosos e homogêneos, mas compostos por diferenças.

Praticamente um paradoxo. Juntar para ganhar força, mas saber que não é mais preciso ser homogêneo para ser forte.

Afinal, esse é o fundamento da democracia.