Na semana passada, o texto abordou como a cobrança por uma identidade da moda brasileira começou por parte de uma pressão externa muito mais do que a interna. E que talvez esteja na hora de a gente pensar em como se apresenta ao mundo e quem somos enquanto moda brasileira.

Mas será que essa imagem deve ser passada, pensada e cobrada apenas dos estilistas?

Não só eles, mas também por nós, consumidores. Alguns hábitos e manias nossas ajudam nessa valorização do estrangeiro em detrimento do nacional.

Na moda, por exemplo, a Casa Canadá, primeira casa relevante do meio, era voltada a trazer as tendências europeias para que pudéssemos adquiri-las e copiá-las, nas décadas de 40-60. É, desde o início a cópia faz parte da nossa história e que ainda faz parte dela, infelizmente.

É compreensível, no entanto, que, naquele momento, o país ainda não tivesse estrutura suficiente para não usar outros países como referência, já que a nossa indústria estava sendo construída. Mas com o passar dos anos, poderia deixar a cópia para funcionar apenas como inspiração (algumas vezes), não?

Outro ponto importante sobre a história de nossa moda: a principal semana de moda do país, São Paulo Fashion Week, completou 20 anos em 2015, enquanto as semanas de moda europeias, por exemplo, têm mais de cem anos.

Eles tiveram tempo de se construir de uma forma diferente da nossa. Então, será que podemos ter a mesma exigência em termos de desenvolvimento de segurança e “identidade”? E será que ainda vivemos uma imaturidade tal como um jovem de 20 anos que ainda tenta se adequar ao grupo?

A primeira estilista a usar elementos brasileiros em suas criações, como a renda de algodão, temas regionais e folclóricos e a chita, foi Zuzu Angel. Ronaldo Fraga é, atualmente, um dos principais a abordar a cultura nacional nas coleções, como seja o Rio São Francisco, sejam personagens brasileiros como Cândido Portinari e a Zuzu Angel, em produção quase 100% nacional. A identidade da moda brasileira passa por apenas abordar temas e produção nacionais?

É claro que não é só isso, mas também. Somos plurais e sofremos a influência de outras culturas, e nossa criação é afetada por todas as vivências e trocas. Mas a construção e produção das roupas também deveria conter algo de nossas características, não? Essa seria uma forma de ganharmos segurança e confiança para mostrarmos quem somos, não?

Nos falta usar mais o que é visto nas ruas daqui (o famoso street style), seja na forma de vestir ou do que se é criado. Não seria esse afastamento entre ruas e passarelas que nos causa estranheza e nos faz aceitar a crítica internacional de não termos identidade?

Não à toa, muitos profissionais da moda defendem que os principais influenciadores da moda brasileira são as figurinistas e não os estilistas. Porque elas estão muito mais próximas do público e ruas do que aqueles que produzem para as passarelas.

É isso que seria nossa identidade, não? E por que não exportar o que é nosso do dia a dia? Afinal, o que usamos diariamente é o que de fato nos constitui.