O modismo “Com que roupa eu vou?” tem sido substituído pela atitude “com que roupa eu sou mais consciente”. Coligada à natureza e à confecção artesanal, a moda sustentável é sob medida para o hoje e o amanhã.
Pensando assim, a designer de moda Bruna Castro iniciou e mantém o projeto Desguarda e Transforma, em São Paulo capital, para transformar peças em desuso em roupas atuais. A jornalista Nádia Mello, também designer e consultora de moda, se identificou com essa proposta. Juntas (na foto), criaram o coletivo Desguarda Roupa, do qual Raphael Carvalho se tornou integrante.
Nesta entrevista, a equipe do Desguarda aponta novas formas de se relacionar com o mundo, em geral, e não apenas com a moda. Contra padrões impostos, a dica é mais conforto e menos salto alto.

Sílvio Reis – Em 2012, uma pesquisa do Ibope, em algumas metrópoles, revelou  que 15 milhões dos entrevistados eram vegetarianos. Diante desse mercado promissor para a Moda sustentável, por que ainda há poucas empresas como o Desguarda Roupa? 

Desguarda Roupa – Não existem tão poucas, mas muitas ainda só são conhecidas pelas pessoas  dentro desse meio. No entanto, ainda é um nicho e por isso não atingiu a “massa”. O Desguarda mesmo está no começo e na fase de tornar-se conhecido, ainda precisamos crescer, assim como o movimento. E como é um “meio” relativamente novo, os trabalhos de cada empresa também são diferentes e ainda estão em processo de amadurecimento.

Num editorial ou desfile do Desguarda Roupa, as maquiagens e perfumes são marcas não testadas em animais? 

Desguarda – De verdade, não havíamos considerado isso. Não conferimos a maquiagem do∕a maquiador∕a e nem é algo que solicitamos, mas podemos para os próximos editoriais trabalhar com essa ideia.

Além do algodão colorido, seda orgânica e lã ecológica, quais as inovações em tecidos sustentáveis que dão certo no Brasil: semente de mamona, pet reciclado, bambu, algas, soja, banana, borra do pó de café, urtiga…

Desguarda – No Brasil, há pouco incentivo para a pesquisa e desenvolvimento dessas novas fibras e tecidos. O bambu, por exemplo, não pode ser considerado uma boa alternativa, pois o processo para torná-lo fibra é bem complicado. Os três citados primeiramente e o pet reciclado são os principais no país.

Tem aumentado empresas e marcas de “calçados veganos”. No entanto, consumidores desse perfil se queixam da falta de design bonito.  É viável, por exemplo, fazer um salto 15 com fibra de abacaxi? 

Desguarda – Primeiro, já existem algumas marcas com design incrível e vegano. A Insecta Shoes é o maior exemplo. Também temos também a Vegano Shoes, Ahimsa, entre outros. Segundo, uma fibra de abacaxi não é o material adequado para salto, mas acho que o principal motivo de não se ter saltos é pelo estilo de vida. Esse público (o nicho da primeira pergunta) procura mais conforto e mobilidade, em geral. São novas formas de se relacionar com o mundo, em geral, não apenas com a moda e o mundo. E o salto, com todo seu desconforto, não é tão atraente, além de fazer parte de padrões impostas às mulheres.

A Moda é a segunda indústria mais poluidora, depois da petrolífera, e uma das maiores fontes de desperdício no Brasil. Como reverter esse quadro? 

Desguarda – No Brasil, acredito que só por meio de pressão de consumidores, ou seja, da população mesmo. Enquanto o consumidor não entender seu papel na cadeia do consumo, as marcas não vão se mobilizar. O empresário não vai mudar por si, mas se ele deixar de vender por isso, daí o quadro será outro.

A indústria da Moda tem histórico de exploração trabalhista. Confecções mais artesanais, em comunidades, cooperativas e Ong, conseguiriam atender grandes demandas? 

Desguarda – Bom, primeiro, tem a ideia de diminuição da demanda. A produção de roupas por ano é exorbitante e não precisamos dessa quantidade toda (um dos motivos da poluição gerada pela moda é também esse descarte alto). E, quem busca repensar essas relações, também acaba se relacionando de outra forma com o tempo das coisas. Por exemplo, se você pensa no aproveitamento máximo da peça, não vai se preocupar em uma troca ou consumo frequente. Mas, sim, o que temos hoje de confecções artesanais, cooperativas e Ong daria conta de produzir o necessário.

Moda é cultura, mas não condiz com maus-tratos animais. Quais os processos e matérias-primas animais podem ser abolidos nesse setor? Além de legislações específicas, como tornar consumidores mais conscientes?

Desguarda – Para o couro já existem tecidos que deixam com o mesmo aspecto, assim como as peles e a seda (casulo do animal morto antes de criar asas para voar). Quanto à conscientização, acredito que passa pelo processo de mostrar o quanto somos todos ligados, então, o problema dos animais ou de qualquer ser que compõem o mundo também têm a ver com a gente. Talvez seja primeiro preciso entender a responsabilidade e contribuição que temos no mundo. Somos todos interdependentes.