Toda torcida tem seus ídolos, todo torcedor tem seu ídolo. Esta afirmação é uma verdade universal do mundo do futebol. Não existe torcedor de futebol que não tenha seus jogadores preferidos. É aquele que fez o gol do título, é o goleiro que fez uma defesa milagrosa, é o técnico, é o jogador “raçudo”, é o outro que defendeu durante anos fielmente a mesma camisa, ou ainda, e mais frequentemente, é aquele craque dotado de uma habilidade singular. Todos estes são sempre lembrados e homenageados em cantos e bandeiras pelas torcidas nos estádios ou em especiais de televisão.

Mas um time de futebol é formado por onze jogadores, sem contar os reservas e a comissão técnica. E nem toda equipe será composta por onze ídolos, onze heróis, que, à semelhança dos antigos heróis das epopeias homéricas, como Aquiles ou Odisseu, tenham atingido a kleos, a notoriedade eterna.

10Todo time tem em seu elenco, por mais estrelado que seja, jogadores que apenas passam, cumprem seus contratos, vão embora e pouco depois ninguém se lembra que um dia eles estiveram ali. Quem são eles? São os eternos reservas, os garotos do juvenil que não “vingaram”, os lesionados, os bichados, as apostas erradas dos dirigentes, os indisciplinados, os azarados ou simplesmente os “pernas de pau”. São os jogadores desconhecidos.

Pegue e analise a história de qualquer grande clube de futebol, percorra as páginas de qualquer livro ou almanaque que pretensamente pretenda contar a sua história, e certamente encontrará um capítulo listando seus principais ídolos, contando seus feitos e glórias pelo clube. Porém um grande silêncio sempre se faz presente: pouco ou nada se fala dos outros, daqueles que também jogaram, mas que não ficaram marcados. Coloca-se a foto dos campeões de 1979, escalação completa, técnico, massagista, troféu e tudo mais. Mas raramente discorrem sobre os outros, aqueles que não aparecem na foto do título: humildes reservas, jogadores dispensados, carregadores de piano, companheiros de treino, colegas de concentração.

Alguém pode argumentar que o futebol é assim mesmo, somente os protagonistas são lembrados e os coadjuvantes são apenas coadjuvantes, indivíduos que ficam ao largo assistindo aos outros brilharem. Mas discordo, não consigo aceitar essa versão.

O poeta alemão Bertolt Brecht uma vez perguntou: “O jovem Alexandre conquistou a Índia. Sozinho?” E eu também pergunto: Zico conquistou o Mundial Interclubes em 1981. Sozinho? Para as duas perguntas a resposta é a mesma, é obvio que tanto Alexandre quanto Zico não alcançaram suas conquistas sozinhos, para isso necessitaram de quem os ajudasse. Alexandre da bravura de seus exércitos, e Zico, da habilidade e dedicação de seus companheiros de Flamengo. Ou seja, grandes conquistas dificilmente são frutos de apenas um indivíduo. Pelo menos no futebol e na guerra é assim. Tenho certeza que Zico sabe disso, tanto quanto Alexandre sabia.

Mas, mesmo assim, o silêncio permanece. Não se fala destes outros jogadores. Não lhes são rendidas homenagens, e eles são tão importantes quanto os ídolos, afinal o que seria dos ídolos sem estes humildes coadjuvantes? Por mais que às vezes a habilidade individual seja essencial para decidir uma partida, nunca é demais lembrar que o futebol é um jogo coletivo. É impossível jogar uma partida sozinho, logo, ninguém se torna ídolo sozinho.

Por conta disso que defendo que todos os clubes de futebol, além dos já tradicionais bustos e estátuas em homenagem aos seus grandes ídolos, deveriam também fazer algo além, uma placa, uma estátua, um monumento: o Monumento em homenagem ao Jogador Desconhecido. E assim fazer justiça a este herói esquecido, mas presente em todas as conquistas de todos os clubes e essencial para o futebol.