MORRE GAROTO FERIDO COM MANGUEIRA EM LAVA-JATO APÓS 11 DIAS INTERNADO

JOVEM MORRE APÓS TER MANGUEIRA DE AR INSERIDA NO ÂNUS

JOVEM MORRE APÓS TER MANGUEIRA DE AR COLOCADA NO ÂNUS POR COLEGAS DE TRABALHO

MORRE ADOLESCENTE APÓS TER MANGUEIRA DE AR ENFIADA NO ÂNUS POR COLEGAS DE TRABALHO

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Deveremos, tanto tempo quanto for preciso, repetir as manchetes que tomaram conta dos veículos de comunicação na última semana. É necessário nelas permanecer ainda muito tempo, pois a brutalidade que elas encarnam não parece nos ter provocado nenhum impacto profundo.

Em si mesma, a forma geral dessas manchetes é a mesma da violência com que convivemos sem grandes constrangimentos. “Morre um jovem”: um garoto de 17 anos, sem nome, apenas funcionário de um lava-jato. “Morre um jovem”: anônimo relatado pela mídia como alguém que simplesmente morre, como alguém dotado da capacidade de morrer, como se morrer lhe fosse algo natural, uma ação que encontra no sujeito que morre o seu verdadeiro autor. “Morre um jovem”, dizem-nos os jornais dos últimos dias, como se alguém enfim cumprisse um desígnio natural ou uma potencialidade inerente ao seu ser.

Mais um jovem vitimado pela violência homofóbica, anonimado pela naturalidade que atribuímos a alguém abatido por uma morte de que não tomou jamais parte ativa. “Um jovem”, qualquer-um com idade o bastante somente para morrer: eis a fórmula geral, cotidiana, aceita amplamente, com que dissimulamos nossa complacência com o hediondo que organiza a forma própria de nossa vida. É verdade, “morre um jovem”, mas ele não é assassinado com grau máximo de crueldade: ele morre, ele não é morto.

 A expressão “morre um jovem”, com seu correlato “vítima da violência”, nada mais faz que escamotear a hermenêutica cínica que identifica um agente assassino desprovido de pessoalidade ou identidade. Estabelecemos com isso um falso acoplamento entre o anonimado jovem empalado e o despersonalizado ato assassino, como se acreditássemos na acomodação tranquila entre quem mata e morre. Anonimamente morre-se, impessoalmente mata-se: sem culpados, apenas fatalidades a se abater sobre corpos sem subjetividade. Não existe, se bem pensado, nenhum crime cometido. O crime não se perpetra: em rigor, o crime apenas sem necessidades de maiores explicações.

“Um jovem”: um qualquer-um sem próprio ser, ente cujo corpo é disposto como o de tantos quaisquer-uns indigentes que tratamos somente de ignorar com a melhor finesse disponível no momento. Seguimos dizendo “morre um jovem” como num suspiro de despedida quando subitamente nos escapa um letárgico “e la nave va…”. Afinal, assim como o navio nasceu para deslizar sobre o mar, também um jovem nasce para morrer. Decerto estamos mui preocupados em cantar nossos lamentos diante da vida e da morte, e eventualmente até nos deixamos ruborizar, é verdade. Mesmo que nossa lamúria e nosso pudor não se deixem tocar nem de raspão pelo diapasão daquele que morre.

“Morre um jovem.” (Empalado, que seja.) “E la nave va…” (Imperturbável e ordinária como a desumanidade à qual dedicamos todos os dias uma açucarada ária.) Sem Fellini ou boas maneiras que nos possam redimir.