Antigos provérbios brasileiros não dão conta de traduzir o atual momento político. A importação de ditados populares já começou. Os italianos definem a Escola sem Partido: uma boa mãe vale cem mestres. Dizem que “Mãe, há uma só”, sem diversidade. Também dizem que as mães corujas preferem o amor à sabedoria.

Sobre o afastamento da presidente, um provérbio africano cai bem: quando o rato ri do gato há um buraco perto. E assim foi. Os russos do Brics, que poderá se tornar Rics, acertam na mosca em relação ao presidente interino: sem o gato, o rato não tem limites. Muitos atiraram o pau no gato, ele não morreu e tem várias vidas. Milhões ainda esperam o pulo do gato, mas convivem com a impotência de ser uma multidão de gatos pingados, que não conseguiu impedir a troca de gato por lebre.

Um ditado popular francês comprova: quem rouba um ovo roubará um boi. Mas não se pode afirmar como roubo as 160 privatizações de um governo.   Políticos brasileiros negociam ovos que nem foram botados, ou estes estão saindo silenciosamente, sem a galinha cacarejar.
Políticos têm pressa e colocam o carro na frente dos bois. Mas se as investigações de roubo, do ovo ou do boi forem longe demais, prevalecerá o ditado: não dar nome aos bois. Nem que a vaca tussa! Neste caso, papagaio come milho, periquito leva a fama.

Segundo os japoneses, o sapo do poço não conhece o grande oceano. Esta verdade não se aplica ao Brasil, onde é costume amarrar nome de pessoas na boca do sapo. Por isso, o sapo nacional se sente familiar nas águas de Furnas, na escassez hídrica da Cantareira e no mar do pré-sal. Quanto mais ganham com o sapo, mais mãos de vaca se tornam os vencedores, que riem das vaquinhas para bancar viagens em aviões da FAB.

Afinal, quem vai pagar o pato dessa crise política?É o polvo, que usará todos os seus braços fortes de molusco para sobreviver e matar um leão por dia. Matam cachorro a grito quando percebem que a galinha não consegue mais encher o papo de grão em grão. A importação de um provérbio alemão é realista demais: uma galinha cega encontra um grão de vez em quando.  Desse jeito, a esperança pode morrer.

E quem vai pagar o pato? A resposta é proverbial: feliz é o pato que não pode usar aliança. Desfeitas as alianças políticas, não haverá culpado e tudo será esquecido. Afinal, só os elefantes têm memória de elefante, ainda que o Brasil seja repleto de elefantes brancos.

É pau, é pedra

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No Brasil, Deus deu asas à cobra e desativou o provérbio matar a cobra e mostrar o pau. Ela está sempre pronta para o bote, rodeada de amigos da onça que não querem mexer em time que está ganhando. Se estranhos quiserem entrar nesse time, o pastor de ovelhas ataca: urubu e mulher feia comigo é na pedrada. É um pensamento importado: fatos são masculinos, palavras são femininas.

Por essas e outras, o Brasil importa provérbios. Os africanos dizem: quando as teias de aranha se juntam, elas podem amarrar um leão. A união do rebanho obriga o leão a deitar-se com fome. A formiga, ainda que pequena, mata o crocodilo. Esses bons conselhos conflitam com a prática brasileira de cada macaco no seu galho.Em vez de espírito de equipe, prevalece o espírito de porco. Aliás, a crise anda tão complexa que não estão jogando mais pérolas aos porcos.

Há mais de 40 anos, a música Bom Conselho, de Chico Buarque, inverteu paradigmas na ditadura: “Faça como eu digo, faça como eu faço: aja duas vezes antes de pensar.” Caetano Veloso pensou bem e escreveu a sua mais completa tradução: “Homens, eu sempre pensei ou são reis ou são ratos. Mas são todos reis e ratos.”

Para finalizar, mais lição africana: “Enquanto a história da caça ao leão for contada pelos caçadores, os leões serão sempre perdedores”.