Se uma pessoa perfeita do planeta Marte descesse e soubesse que as pessoas da Terra se cansavam e envelheciam, teria pena e espanto. Sem entender jamais o que havia de bom em ser gente, em sentir-se cansada, em diariamente falir; só os iniciados compreenderiam essa nuance de vício e esse refinamento de vida.
E ela retornara enfim da perfeição do planeta Marte. Ela, que nunca ambicionara senão ser a mulher de um ho­mem, reencontrava grata sua parte diariamente falível. De olhos fechados suspirou reconhecida. Há quanto tempo não se cansava? Mas agora sentia-se todos os dias quase exausta e passara, por exemplo, as camisas de Armando, sempre gostara de passar a ferro e, sem modéstia, era uma passadeira de mão cheia. E depois ficava exausta como uma recom­pensa.

(A imitação da Rosa, de Clarice Lispector)

 

Há cerca de um ano reencontrei o conto A imitação da rosa de Clarice Lispector.

A sensação após a leitura foi tão devastadora que me perguntei de onde vinha tamanho sofrimento, afinal, a narrativa parecia tão sublime! A despeito do progressivo desconforto da protagonista e também do meu como leitora, não havia sequer uma palavra que remetesse a algo efetivamente ruim. Talvez o que havia causado tamanha comoção era tão somente o cuidado daquelas palavras…  Cuidado e uma inconteste economia vocabular.

Aquela mulher visivelmente desamparada por si mesma, as cobranças e exigências de perfeição, o desequilíbrio emocional equilibrado com lapsos de razão, a percepção dos olhares alheios…Alguns parágrafos e poucas palavras conduziam para um universo de sensações:

era Clarice!

Mais recentemente, outro encontro: após a luxúria livresca da Feira de Livros da USP, parei para uma leitura menos acadêmica. Selecionei alguns títulos de interesse e me rendi à (a) Chimamanda Adichie.

Como em tantos outros anos, livros se acumulam sem terem sido degustados. Desta vez, não resisti. Já tinha lido Sejamos todos feministas e visto um vídeo desta brilhante escritora. Que figura interessantíssima! Especialmente porque não conhecia absolutamente nada de literatura africana de língua inglesa. No entanto, os angolanos e moçambicanos já fazem parte dos favoritos!

Li Hibisco Roxo em três dias, em meio aos afazeres sem fim de mãe, pesquisadora e boêmia. Poderia dizer muita coisa sobre, mas me atenho a apenas uma: a violência contra a mulher, por ser central na narrativa, possui uma contundência que precisaria ser explicada com um novo termo que não este usado cotidianamente.

Os abusos e as arbitrariedades são sentidos em gotas, migalhas e lampejos delicadamente amanhados para que a dor flua, mas não deixe de ser questionada. Mais uma vez, o uso das palavras, das certeiras, conferiu cores, sentimentos a experiências que são compartilhadas por mulheres nas mais diferentes paragens.

Seja na timidez espacial do conto ou no esparramar de páginas de um romance, somente o uso sensível e cadenciado das palavras é capaz de conferir unidade à realidade das mulheres na sociedade contemporânea. Sejam as agruras dos transtornos psicológicos ou a água fervente que escalpela a alma; sejam mulheres brasileiras dos anos 1970 ou meninas nigerianas do pós-colonialismo, vivemos ainda uma realidade de imposições e agressões que precisam ser verbalizadas para que sejam combatidas.

Pelas palavras sentimos. Pelas palavras gritamos!