Queria eu não ser

este rosto sem face

reflexo eterno de espelhos borrados

à procura de uma linha de expressão

 

A ti parece pouco não enxergar

o próprio contorno?

Afinal se há comida na mesa

e a cama feita

qual é o motivo da sentença?

 

Entenda

tatear com os olhos

e nunca me tocar

é como refugiada

estar

e ainda que no novo país

o teto não falte

como dói

ser aquela

a quem o corpo nunca é familiar

estrangeira de minha pele

eleita fui

estranheza de mim

a quem o amor não é um direito

e o repúdio a pena a admiração

tanta coisa

menos

o desejo terno

 

Orgulhosa penso

“que se fodam!”

Mas não

não é assim

 

Não é tão fácil saber que

nada em mim inspira

qualquer  promessa de morada

passagem

etérea

vulto

fuga

no máximo amásia

pequena promessa

do que é estável

 

não fica a rima

não fica o espelho

quebro meus olhos

e me desintegro

e liquefeita

sem forma

a que quando ferve

evapora

fica o sal sob o papel

esperança de contorno

da fotografia de mim

contra a solidão.