Lembro-me, com emoção, de minha estada, há uns dez anos, no Centro Cultural de Itaim Paulista, para falar de cultura negra.    

Era uma série de encontros, aos sábados, à tarde,  e eu me apresentava com minhas limitações  e verídico  entusiasmo, para discorrer  a um grupo atento, a maior parte gente jovem  negra, ansiosa para ouvir alguém mais velho, jornalista, e que já havia publicado alguns livros, entre eles Poemas Negros, prefaciado pelo grande  Florestan Fernandes, a respeito do qual, quase certo,  a maioria deles tinha algum conhecimento. Daí talvez o motivo maior da  juvenil freqüência: queriam aprender algo mais para incrementar seus textos de hip hop, poemas para saraus na periferia; buscavam conhecimento para  brilho literário. Quem sabe, advindo do  meu trajeto,  poderia aparecer algum aproveitável incremento…

Ora, os meninos e as meninas, quase todos beirando ainda a adolescência, nas muitas  vezes em  que eu pronunciava negro, levantando meu braço escuro no ar (gesticulo demais quando falo),  me corrigiam, guerreiros de sua verdade: negro não, professor, preto!

Estavam impregnados de  informações  do movimento negro americano, 1950, ou perto, Malcolm X e tropa brava.

Argumentei com o latim: negro está mais na raiz: niger, e é de uso mais velho. Será?

Meninos, (hoje, quase todos com pelo menos 30 anos), alegrem-se: vale o preto!

No retrucar-lhes, até com alguma irritação, fui um tanto  ignóbil. Vejam: a expressão preto, após seu sentido de plenitude, foi traída. E permitam-me trazer citação do mestre João Ribeiro, à página 202 de sua Selecta Clássica,  de 1931: “Quanto ao sentido (de preto) haveria mister imaginar  uma translação; efetivamente branco passou a designar vazio (em branco)  e preto designava cheio, como era o sentido primitivo; dessa oposição parcial de sentidos resultou  a oposição completa entre branco e preto, na de designação  de plenitude e depois cores, raças, etc.

Entenderam?

Aconselho, então,  que sigam  a lição de Lino Guedes * , poeta e ativista negro nos primeiros decênios do século  XX, quando deu a um de seus livros o título: Negro Preto Cor da Noite.

Fiquem com o preto; juntem a ele  o negro!

*Sobre Lino Guedes está prestes a sair, pela Ciclo Contínuo Editorial , um ensaio meu sob o título Lino Guedes- seu tempo e seu perfil.