Antes de responder à pergunta, importa reconhecer, valorizar e estimular a iniciativa de uma greve geral e internacional de mulheres. Tendo como mote a ideia de que sem estas não há produção, o movimento pretende chamar atenção para outros aspectos relevantes para as vidas das mulheres no mundo, especialmente as violações de seus direitos.

É grande a ansiedade para ver de fato qual será a repercussão de tal manifestação, sobretudo, no Brasil, onde são exorbitantes os números que quantificam casos de violência doméstica, de gênero, além do famigerado feminicídio.

Mas quem são as mulheres que irão aderir à paralisação? O chamamento parte evidentemente de grupos organizados e setores intelectuais que, tradicionalmente, encabeçam a luta pelos direitos femininos. Seu ativismo e o teor de suas manifestações inequivocamente remetem à totalidade das mulheres e, em muitos casos, as pertencentes às classes populares são acionadas e lembradas, inclusive, como as mais vulneráveis às desigualdades de gênero.

Mas estas mulheres das camadas menos favorecidas da sociedade brasileira irão parar no dia 8 de março? Gostaria muito de dizer que sim! E terei que esperar até lá para saber a resposta …

A proximidade com esta realidade me conduz, contudo, a algumas reflexões: existe ainda um imenso hiato entre a militância dos movimentos feministas e o cotidiano das mulheres trabalhadoras das classes populares. Muitas nem sequer se dão conta de tal ativismo, ainda que em suas trajetórias atuem e lutem por seus direitos a partir de perspectivas alternativas.

Mesmo aquelas que acompanham estes movimentos e deles façam parte nem sempre podem se dar ao luxo de simplesmente interromper sua dinâmica e contestar as relações de poder às quais estão submetidas, com o risco indiscutível de perderem, caso o façam, a fonte de seu sustento e de sua família.

Possivelmente acompanhem com empolgação o resultado de uma grande movimentação de mulheres por direitos e pela discussão de questões que também lhes dizem respeito. Parar, no entanto, ainda me parece algo utópico. Menos pela vontade e entendimento da importância deste ato, do que pela desigualdade de gênero que ainda impera em nossa sociedade.

Que o dia 8 de março seja de intensa motivação e discussão! E que, nesta seara, as que puderem aderir à paralisação representem as tantas que não poderão, querendo e não podendo ou mesmo sem ter ideia do que está acontecendo. Que, enfim, seja revelador do quanto precisamos ainda lutar para que todas as mulheres possam, de fato, parar para refletir e discutir sua história e condição!