“Boa noite, Márcia, como posso te ajudar?”

“Vim pegar remédios e me avisaram que eu precisava passar nessa consulta. Então eu vim só pra trocar receita. Tô me sentindo bem.”

“Certo. E quais remédios você toma?”

“Os de diabetes e os de pressão.”

“Consulta com algum outro médico?”

“Cardiologista pra pressão, endocrinologista para diabetes, dermatologista para cuidar da pele… acho que só… Ah, tomo vitamina D, pois estava baixa. E tomo um remédio pra digestão, pois tenho dificuldade nessa parte. Queimação, sensação de um bolo na garganta. Fiz até endoscopia, mas não tinha nada.”

(Minhas anteninhas estão detectando a presença de queixas ocultas… Mas faltam 30 minutos para o final do turno, tô cansada, deixa a queixa oculta continuar oculta, pois estou sem forças hoje.)

“Você fuma? Bebe? Faz atividade física? Quando fez seus últimos exames? Você é casada? Trabalha com o quê?….” E segue a conversa.

Ela gosta do trabalho. É feliz com a profissão. Volta a pé até a sua casa. “dá uns 30 minutos de caminhada”, Cuida da alimentação… Dá vontade de relevar que o estômago dela tá gritando, que ela tá com uma sensação de “bolo na garganta” e que não para de mexer as pernas e roer as unhas… tenho que terminar essa consulta pra digitar uma pilha de exames… Ai, ai, alguém segura a minha línguaaaa!!! Não consigo, me entrego:”E em casa, tudo certo?”

15 segundinhos de silêncio. “Ah… filho adolescente nunca é tranquilo, né?”

“É?”

“Ela faz questão de me contrariar. Quase me deixa doida. Sabe, acho que aquela alí veio mandada!”

Achei tão forte aquela frase que não fui capaz de responder. Nem precisou. Ela seguiu falando.

“Tenho um filho de 25 anos, casado. Essa tem 14. Gosta de coisa errada. Mente. Vai pra casa de namorado que eu nem conheço, me responde mal…” E faz silêncio. “Ela se envolve com umas pessoas que não dá nem pra acreditar!” Olha para o chão “Coloquei ela na psicóloga, mas não melhorou nada. Eu amo minha filha, mas nossa relação é péssima.” Silêncio novamente. “Eu não queria ela. Desde a barriga, nunca quis. Quando ela nasceu, eu rejeitei. Custei pra aceitar.”

“Você acha que nossa equipe pode te ajudar?”

“Eu não sei. Ela já tá no psicólogo, né. Por que será que ela ficou assim?”

Minha vez de fazer silêncio… “Por quê?”

Ela sorri. “Eu não sei. Faço de tudo pra ela melhorar.”

“Ela se parece com alguém da família? O jeito dela parece com o jeito de alguém?”

“Não. Com ninguém. Ela não parece que é da minha família.”

“Tem muito tempo que você espera uma mudança dela, né? Psicólogo pra ela, punições pra ela, responsabilização dela… Você vê mais alguém que poderia buscar uma mudança pra melhorar esse clima em casa?”

“Por quê? Você acha que eu tenho que mudar? Acha que eu estou fazendo alguma coisa errada?”

“Não sei. Só perguntei.”

“Você é psicóloga também?”

“Não. Sou médica de família.”

“Você acha que eu devia amar mais a minha filha?” Eu não disse nada. Só olhei por uns segundos para aquela mãe entristecida. “Tem hora que eu acho que ela ficou assim por minha causa…. Eu nunca quis ela, né…”

Receita, encaminhamento para o oftalmologista, orientações…

“Nossa, doutora… que conversa difícil! Eu tô vivendo essa situação há tanto tempo e nunca pensei que talvez eu precisasse buscar ajuda. Já estou pensando em mudar tantas coisas com ela….Tem psicóloga pra mim aqui?”