Haverá o dia em que

serei

como uma de nós,

E não mais o meu e o seu corpo

terra colonizada

refugiada de nossa inegociável humanidade

Não mais!

E não mais perguntas que não querem saber o que nos questionam

blablablá retóricas

apenas

fazer de nós mero espelho

de seus próprios egos ególatras

refletores de seus próprios anseios

tensos receios

Não mais!

E não mais apenas um buraco e um par de seios

mas

nós

inteiras

para além de um conceito encurraladas

bucetas

Eu sei!

Esse dia chegará!

E nele:

memórias

mamilos

pelos

pés

púbis

assopros

cantos

penas sob a pele

silêncios

o tempo sempre infinito e em gotejo

labirintos inteiros

experimentados naquilo que têm de nervos

inesperados firmamentos

a nossa cor finalmente nomeada sob face das águas

líquido vermelho

E eu

de mãos dadas

com outras como eu

nós!

Saberemos

que nosso olhar

nesse dia

será direto e certeiro

pois

o medo não nos vigiará

e senhoras de nossa história

escreveremos

esse outro dia,

só que no passado,

o dia em que

limpamos a menstruação caída pelo chão

ainda com nojo e receio

pois ela nada representava

e nós doíamos

doíamos

doíamos

ai!

solitárias

rasuradas em vermelhos aguados à força

por roseados esbranquiçamentos

e em que sangrar era sinal

de palavra dita

em abafada ressonância

caso não

apenas

“a de uma histérica

louca

exagerada!”

Não mais!

Nesse dia em diante

sempre

e sempre

re-citadas

somente entre aspas

E como verdades?

Não mais!

E escreveremos com essa mesma menstruação

por pura naturalidade

nossas canções, nossos cálculos

nossa sonoridade

o desenho curvo de nosso rosto

o macio exuberante de nosso cabelo crespo

e tudo aquilo o que por segundos

ainda se acumule estanque

por segundos…

por séculos?

Não mais!

E o que em nosso útero se animou

teso e suspenso

será

o início realmente de uma nova história

sempre nossa

NOSSA!

e ditas por nós

com potência e alcance

VOZ!!!

E eles conversarão com alguma de nós

como quem espera encontrar

uma novidade

e se eu, como uma de nós, contar a um deles minhas histórias

ele as ouvirá

E se eu, como uma de nós, falar de dor

ele se calará

e se eu me calar, como uma de nós,

ele me questionará

preocupado

pois

o seu silêncio e abraço e questionamento

serão realmente sinceros

não haverá mais

intermediadores de afetos

E o leite que escorrer de meu seio, como uma de nós,

não será

indício de desamparo ou abandono

ou o abafamento do meu choro no chuveiro

será apenas o que realmente é:

alimento.

e olharei às outras como eu, nós, e saberei que se o medo do passado ainda me afligir

posso buscar-lhes a força

pois ele

nem nenhum dos dele

nos terá

colocado em rixa ainda que nos saiba como iguais

Frida e sua irmã…

não mais!

galos de rinha

capitães do mato

bruxas que se incendeiam

inquisidoras de seu próprio gozo?

Não mais!

E nesse dia

eu sentarei com Outras como eu

fortes

ágeis

desfragmentadas

mosaicos finalmente perfeitos

e escreveremos

“não como quem se ajoelha,

mas como quem escapa da prisão”*

citaremos OUTRAS

como nós

e o sangue que escorrer de nossas pernas

cairá na terra e nas folhas sobre a terra

e nascerá um poema

para ser lido de mãos dadas

com essa Outra eu, como nós.

para um sentido novo.

Esse dia será hoje

E tudo voltará a fazer

sentido

SENTINDO.

E de nossa própria menstruação

Renasceremos.

 

*poeta Anna Akhmátova