O contato físico entre dois porcos-espinhos não deve doer no corpo deles. Quando adultos, esses roedores chegam a acumular uns trinta mil espinhos duros, com tamanho médio de 7 cm. O que dói é o abraço, espontâneo e estratégico, entre pessoas que se desentenderam por algum motivo ou são adversárias na vida. Com a aproximação física, os espinhos ferem um ao outro mas existe um ponto G que possibilita o abraço.

Houve abraços estratégicos entre porcos-espinhos para a ex-presidente Dilma conseguir votos de 36 senadores e não perder os direitos políticos por oito anos. Dos 61 senadores que votaram a favor do impeachment, 19 senadores (12 do PMDB) encenaram um momento ético e foram contra a perda de direitos da ex-presidente. Ética inconstitucional.

O ex-presidente Fernando Collor, que perdeu o mandato e também os direitos políticos por oito anos, recorreu à Constituição, mas nada adiantou. O PSDB fez o mesmo, mas de forma oficial. Nesse caso, a estratégia do PMDB foi clara: quando Eduardo Cunha passar pelo processo de impeachment, ele terá votos suficientes para garantir esses mesmos direitos.

Fontes jornalísticas apontam que os porcos (espinhos) que se abraçaram nesse “golpe” anticonstitucional foram Ricardo Lewandowski, presidente do STF, Renan Calheiros (PMDB-AL) presidente do Senado, os defensores petistas José Eduardo Cardozo e Kátia Abreu, além do próprio Temer e Lula.

Esses mal-intencionados abraços de bastidores dividem a opinião pública e acirram ódios sociais. De um lado, antipetistas demonizaram os 36 senadores que garantiram direitos à Dilma. Do lado contrário, 61 senadores serão lembrados historicamente pela aprovação do impeachment, por meio de um “golpe parlamentar” e  “farsa jurídica”, articulado pelos pelo PMDB e PSDB, conforme declarou a ex-presidente.

A própria Dilma e o seu partido buscou apoio e abraço do PMDB, com espaço para o vice Temer. Lembra a parábola do caranguejo que pediu carona ao sapo para atravessar o rio, afirmando que não ia aferroá-lo. Se o traísse, os dois se afundariam e morreriam. O escorpião ferrou o sapo e justificou que a traição: faz parte da minha natureza. Conclusão: há abraços de porcos-espinhos em que a dor só aparece bem mais tarde.

Daqui pra frente, quem poderá levar ferroada é o PSDB, que abraçou o PMDB para tirar o PT do poder. Por enquanto,  o psdebista José Serra é ministro das Relações Públicas  do governo Temer, acreditando que o PMDB não apresentará candidato na eleição de 2018. O atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, já divulgou que Temer será candidato. Mais um abraço desperdiçado. Mesmo assim, Serra viajou para a China e deve estar abraçando muito porco para negociar o pré-sal.

Esses abraços diplomáticos ganharam impulso a partir de 1979, depois que a ditadura militar cedeu espaço à democracia, mediante  aprovação de uma lei, ainda vigente, que impede julgamentos de crimes ocorridos em governos militares. Uma versão atualizada desta legislação militar poderá interromper as investigações da Operação Lava Jato, de forma gradual, silenciosa, como se já tivessem cumprido a grande missão.

Abraço de porco-espinho não é característica apenas do Brasil, que recebeu esse animal de braços abertos. No momento, Temer, Renan, dois ministros, um senador e quatro deputados (nove políticos) estão se expondo no encontro das vinte economias mais ricas do mundo, o G-20. Ainda em setembro, o novo presidente participa de uma Assembleia na ONU, em Nova York, e ainda fará o discurso de abertura desse encontro.

Em outubro, mês comemorativo da revolução russa, Temer não confirmou participação na reunião do Brics, na Índia. A propósito, a criação do Brics passou uma imagem mais ideológica do que econômica. Esperava-se desse bloco algum apoio contra o impeachment. No entanto, está se provando mais econômico. Temer espera fechar grandes negócios na China.

Na agenda do presidente também não está confirmada presença na Cúpula Ibero-Americana, na Bolívia, onde comparecerão os presidentes da Venezuela, Bolívia e Cuba, todos contrários ao impeachment. É difícil abraçar porcos-espinhos de natureza tão diferentes. Nem sempre é possível encontrar o ponto G desse contato físico.

Por fim, no discurso de posse de Temer nada foi falado sobre a continuidade de investigações na Lava Jato, que foi o recurso que o conduziu à presidência, mas também tirou três ministros no início do seu governo. Temer falou em pacificação no país. Não se sabe se é desejo de paz para a população ou entre os porcos-espinhos.

Enquanto isso, diante de tantos bastidores obscuros na política, pessoas desfazem amizade ou se conflitam em nome de ideologias frágeis. O corpo fica cheio de espinhos e defesas. Depois, fica difícil recuperar relacionamentos valiosos.