Amor, tema difícil, multifacetado, como prova a miríade de definições sobre ele. Isso talvez devesse me inspirar certa cautela, certo comedimento. Mas sou do contra; serei assertivo.
 
Considero o amor (este que os gregos chamavam Eros) uma das invenções mais diabólicas da humanidade, porque transtorna a razão, compromete o juízo e, acima de tudo, degrada a moral, convertendo a mais amorável das criaturas num ser maligno, inescrupuloso, capaz de toda espécie de ardis e de baixezas para realizar seus desejos. O amor tudo permite, tudo autoriza, tudo justifica, tudo desculpa.
Compare o amor, por exemplo, com o respeito. Quem se permitiria fazer por respeito o que faz por amor? Se uma mulher apenas respeitar um homem, nunca lhe passará pela cabeça fingir que está grávida para impedi-lo de ir embora. Mas, se ela amá-lo, ai, ai… pode-se apostar que ela será capaz não só de fazer isso, como muito pior. Se um homem apenas respeitar um mulher, ele não irá violentá-la caso seja preterido. Mas, se ele amá-la, deus nos livre! É melhor que ela saia correndo… Não existe crime respeitacional, mas existe crime passional… A seção policial de um jornal está repleta de exemplos das maravilhas do amor.
Sempre que eu digo isso, meus ouvidos são logo feridos pelo que considero ser uma falácia do escocês. Alegam: “Mas isso não é amor, é obsessão”. É igual quando estou conversando com um religioso e lhe digo: “Acreditar em Deus não é garantia de bom comportamento. Meu vizinho é cristão, vai à igreja todos os dias e não vale nada”. Meu interlocutor retruca: “Ah, mas ele não é cristão de verdade. Um cristão de verdade não faria isso”. Quando ouço essas coisas, começo a pensar que a Inquisição foi obra dos ateus…
Mas o amor – maldição das maldições – não corrompe só quem ama; corrompe também quem é amado. O ser amado tolera em nome do amor o que ele jamais toleraria em nome da amizade. A mulher que me ama decepa-me o dedo mindinho, e eu murmuro: “Mas ninguém me ama como ela. Preciso dar outra chance”. No dia seguinte, ela me espeta um garfo nos olhos, e sigo na toada da véspera: “Mas ninguém me ama como ela. Preciso dar outra chance”. E então chega o dia em que ela me arranca os testículos, tritura-os e os come com farinha. Tudo por amor…
O inferno, meus amigos, não é um lago de fogo e enxofre onde os danados queimam e rangem os dentes. O inferno é aquele lugar onde todos se amam.