Sabe que, depois de tudo, desta vez, ele parecia mais absorto; sim, absorto, e eu me dei conta de muitas coisas neste momento. Dei-me conta, por exemplo, de que, para além de toda a prepotência natural que ele exibia, mas aquela prepotência carismática; aquela prepotência, não arrogante, mas sábia; aquela prepotência da pessoa que não olha por cima, mas que olha do mesmo plano, não nos olhos, mas dentro deles; dei-me conta deu ue, para além desta prepotência, havia muita solidão. Muita solidão. Havia, sobretudo, um abissal e incrível vale por onde corria o rio do tempo; um rio que, selvagem e incontrolável, produzia os caminhos e descaminhos que ele insistia em perseguir e seguir. Para além da solidão, havia muito calor; um calor tão espantosamente confortante, que mais parecia um abraço amoroso. No momento que o percebi absorto, vi através dele; vi através dele uma colossal muralha, que se erguia incólume na sua solidão.

Sigo entendendo que a vida é muito mais que viver; aliás, pontuo neste momento, para além da minha humilde vivência, que tenho aprendido muito mais com ele do que com a multidão que já me cercou algum dia. São sempre suas narrativas; sempre suas percepções, suas ousadas percepções que me fazem pensar sobre mim e sobre tudo. Não existiu uma só memória em mim que tenha resistido ao efeito de nossas conversas: foi o amor raro que me abalou; foi a vida que vale a pena ser vivida, sobretudo aquela que acontece antes mesmo de mim, que me encerrou pra fora de mim; foi a chave certa, tal como dissera noutra feita, que destrancou as masmorras de mim; foi tudo que antes não pensei em mim que passei a considerar no outro. Aliás, hoje me percebo muito mais interessado em mim do que em qualquer outra situação. Não lembro mesmo de outras situações em que tenha destilado tanta melancolia, mas não direi que estou melancólico; apenas estou permitindo que meus cárceres ventilem.

Quando, noutra vez, me perguntou, se referindo ao seu filósofo preferido, “por que é necessário amar raramente para se amar de verdade?”, eu realmente me vi em apuros. Discutimos variadas e constantes vezes sobre o amor e o amar, e concluímos, por fim, confortavelmente para ambos, que falar de amor não significa amar; aliás, aquele que narra o amor não precisa, em termos, estar amando ou em vias de amar; precisa, apenas, que o tenha conhecido em alguma circunstância e, assim, possa falar do que sabe; não obstante, realmente acho que ninguém deveria prescindir de falar sobre apenas coisas que sabe. Assumiria, por certo, assinando o atestado de incompetente e infame, que é tão desprezível quanto aquilo que desarrima saber; abrir a boca, gastar energia, consumir o tempo e, ademais, consumir a vida do outro, para falar sobre coisas que não se sabe, é mesmo coisa reservada para os tolos; queira eu nunca me pôr ao lado deles.

Mas ainda em se tratando do amor raro, algo que me tomou incontáveis dias de reflexão; ocupou-me infindáveis noites de insônia; fez-me analista e analisando ao mesmo tempo; concluía que o amor raro é um devir-da-vida; um puro estado de energia que, tão logo se movimente, deixa de sê-lo e assume qualquer outra coisa, menos pura energia; uma experiência no tempo que, quando transcorre, dissipa-se nos meandros dos vários nós; mas não dos vários nós que amarram, mas dos nós que se compõem na multidão, próprios da primeira pessoa do plural; o amor raro é aquele que se conjuga na primeira pessoa do plural. E, tal como o rizoma, o amor raro é aquele que se confunde com o comum, mas que raramente é comum; é a existência toda, mas que se verifica suficientemente num segundo de existência; é a consideração do pensamento que se dá no aqui-agora, mas que existe antes de ter nascido no tempo-espaço; é aquele que está dentro e fora, mas que o fora pertence ao dentro de outro alguém; o amor raro, tal como o rizoma, não encerra nada, ao mesmo tempo que, permitindo tudo, traz para uma significação bastante específica; um nada totalizante; um tudo nadificante. O amor raro, concluí, noutra vez, depois de ter aprendido a aproveitar o café preto e puro, ainda quente, recém-nascido, que se trata mesmo de um filho que se pare num abraço de quatro braços.

Ele absorto; eu compenetrado. Ele completamente entregue a si; eu completamente dominador de mim. Eram duas posições bastante diferentes; enquanto um dominava-se, outro se abandonava em si; todavia, ambos gozavam de algumas mesmas características: pensativos, ensimesmados, ainda bebedores de café. Parece-me mesmo que o café é próprio das conversas, daquelas que se tecem em duplas paralelas, como o são duas pessoas; ou daquelas que se tecem em duplas espirais, como o são os sujeitos que se confundem em si, quando pensam sobre si, ao olharem para si.

Mas, entre idas e vindas, sobre amor raro e muralhas, quero falar sobre sua solidão.

Quando o percebi reclinado sobre os braços, apoiado no parapeito da sacada, olhando através das coisas, mirando para longe, até onde o olhar alcançava, entendi que ali havia um corpo que se cansava do viver. Vi mesmo, tentando desconsiderar as várias chagas que abrira em mim, que havia um sujeito encastelado, alguém que se protege antes de se defender; um sujeito que, ao menor sinal de risco, recua sua ponte, e lança aos jacarés todos os estímulos possíveis, para que estejam atentos àqueles que se aproximam; “há um cansaço inerte, boníssimo amigo, que, de tão inerte, mais parece cimentado em mim; um cansaço, não resignado, mas ancião, de uma vida inteira que se viveu dentro de si; de uma vida que, quase desperta pela pretensa ideia de se viver, embotou-se antes de desabrochar”. Eu o sentia mais distante do que todas as vezes em que estivera, de fato, distante; tão longe que, quando o toquei nos ombros, senti que seus pelos se eriçaram, como se o espírito tivesse retornado de supetão; tão entregue em longínquos pensamentos que, ao tocar seus ombros, quase fui puxado pelo vácuo que existia dentro dele.

Lembrava-me as infinitas sucessões dos dias, que não se pretendem encerrar; na sua solidão, havia tanto espaço para vida que, em outros termos, parecia confirmar a teoria do multiverso: existem infinitos e infindáveis universos, compondo um multiverso, e um destes uni ou multiverso estava dentro dele. Uma solidão que irradiava calor, o que, como sempre, me punha pensativo e intrigado: uma solidão que, por excelência, deveria ser gélida e pálida, era, na verdade, tão quente e convidativa que me admirava não ter quem o ocupasse; “não espero por colonizadores, capacíssimo amigo, que me ocupem ou que me colonizem; espero por lavradores, que possam semear em mim; não sou uma terra para se edificar, mas para se produzir”. Teria sido menos constrangedor que cuspissem e pisassem em mim; era econômico, muitas vezes, nas palavras, mas tão econômico que esbanjava em semântica. Aliás, sobre as palavras, para ele, era como a espada para o guerreiro; o martelo para o construtor ou para o carpinteiro; o pincel para o pintor; a pá e a tesoura para o jardineiro; o amor para a vida; o ar para a existência: era, simplesmente, aquilo com que se alimentava e alimentava os outros; era o que usava para construir ou destruir; para plantar e desenterrar; para ilustrar ou borrar; para comunicar ou silenciar. A palavra, para ele, era de tão imprescindível presença e uso, que se enclausurava ao menor sinal de mutismo alheio: não sabia lidar com o desuso ou com o uso inconsequente da palavra; pior do que isto: rebelava-se em silêncio cada vez que alguém silenciava suas rebeliões.

A vida é mesmo muito além do viver. Dizia sentir que a vida era um momento no tempo. Grosso modo, numa análise pouco detida e pouco sofisticada, era mesmo disto que se tratava: de um momento no tempo. O curioso é que não se trata de um tempo corrido, único e linear, daquele que começou no instante zero, sem que existisse o antes, que é, por sinal, o que desconfirma filosoficamente que tenhamos nascido de uma explosão; não se trata deste tempo, que se mede na régua, mas daquele que se estima no corpo. Um tempo que não existe em nenhum outro lugar senão na invenção do sentimento, do pensamento, da sensação; um tempo que não está em andamento, mas que acontece e acaba tão logo aconteça e acabe; um tempo que só existe na experiência; um tempo que só existe na experiência percebida, na experiência vivida, na experiência degustada. Não é um tempo que se mede com os braços, mas em abraços; não um tempo que se mede pelo número de abraços, mas, antes disto, é um tempo que só passa a existir quando se está, efetivamente, dentro do abraço; tão logo se desabrace, o tempo cessa, mas não retorna ao tempo-zero; ele apenas para, ele pausa, para que se reinicie no próximo abraço; e de novo; e de novo; e de novo, dilatando os limites do si-mesmo; expandindo as fronteiras do si-mesmo; ampliando o universo que existe dentro de cada um. O tempo que dilata, que expande e que amplia é um tempo-vivo; não é um tempo maquinal.

O tempo dele era, efetivamente, o tempo que media o tamanho da sua solidão; um tempo que estimava a extensão do universo que ele criara dentro de si. Aliás, tão grande era o espaço sideral dentro de si, que era realmente possível que outro dele existisse lá dentro; e que este outro, lá dentro, tivesse seu próprio universo em franca expansão. Eu julgava o tamanho da sua solidão pelas incontáveis vezes que o tempo-vivo viveu dentro de si; enquanto o tempo cru girava no relógio, o seu, provavelmente, estaria em pausa; “são os abraços, os sorrisos, os toques, os devaneios e as abstrações; são as músicas, suas letras e suas melodias; são as chuvas, suas gotas e suas destruições; tudo que possa ser vivido na experiência é o que alimenta o tempo-vivo; tantas foram as vezes que me alimentei, que tantas foram as vezes que me expandi dentro de mim. O amor raro, simpatiquíssimo amigo, é aquele que mantém, constantemente, o tempo-vivo vivo”.

“O amor raro é aquele que mantém o tempo-vivo vivo”, eu repetia solene e espiritualmente para mim mesmo; o amor raro é aquele que mantém vivo o tempo, sobretudo aquele que vive. Se esta consideração for verdadeira, então aquilo que te faz sentir vivo é, efetivamente, o amor raro. Para além das infinitas possibilidades de combinações que existem num universo infinito, há incontáveis combinações, supostamente, que combinam muito; haverá, por conseguinte, dentre as combinações que combinam muito, aquela única que mantém o tempo-vivo vivo. Arrisco dizer que é exatamente esta combinação que “mantém vivo” que é o amor raro; é a chave certa para a porta certa, a que ele se referira nalgum dia passado.

Mas, disto tudo, tornava-me curioso pensar sobre suas muralhas; muralhas que cercam sua abissal e quase intranscorrível solidão só podem ser muralhas infinitas; sobretudo encastelado no centro, cercado por vales inundados, de defesas indefectíveis; muralhas, castelo e defesas… Certamente que o que há de mais frágil guarda-se lá. Ao olhar pelo corpo pendido na sacada, de ombros trépidos e gelados pelo vento que assoviava pelos cantos, compreendi quem vivia no castelo: a própria vida; a própria vida que, de tão frágil, precisa ser guardada de si mesmo. “A vida é mais do que viver, implacável companheiro; a vida é mais do que viver, posto que se pode não viver enquanto há vida. Viver é uma das ações que compõe a vida; amar é outra das ações. Viver e amar, contudo, embora não seja algo que se exclua mutuamente, é algo que raramente se faz”. Viver, amar e beber café, pensava eu, rindo-me de mim, era algo que, definitivamente, pouquíssimos seriam os ‘bon vivant’ que o fariam.

O devir-da-vida possivelmente era traduzido nas riquíssimas, mas raras situações que davam continuidade ao tempo-vivo; todavia, era preciso considerar que cada um, ele e eu, ou qualquer outro sujeito do mundo, viveria de forma distinta e exclusiva o tempo-vivo: há aqueles que, fortuitamente, tiveram uma ou outra expansão de si; outros, contudo, que buscaram insistentemente por tais momentos e encontraram aqui e acolá, vezes outras que puderam ampliar suas próprias fronteiras. Lastimo dizer que ainda há aqueles que obstinadamente buscaram e não encontraram; ou pior: morreram antes de encontrar. Mas certamente não lastimo mais do que aqueles que, com medo de ir e encontrar o tempo-vivo, aquele que expande e alarga, que faz qualquer um se perder em si mesmo, apenas escolheram observar o tempo viver nos outros.

Certamente que viver não resume a vida; certamente que viver não significa amar; mas arrisco minha sanidade em dizer que amar significa viver e que, sobretudo, amar é sinônimo de vida. Levantando-se vez ou outra do parapeito, balançando a xícara de café raso, já gelado e pouco saboroso, olhava para as estrelas no espaço – luzes, apenas, não sabia se eram estrelas presentes ou passadas – e dizia, como se fossem palavras que cuspia pra cima, de modo que caíssem sobre si mesmo: “Não há um sequer neste mundo que não queira se perder dentro de si mesmo; certamente que não há, entre os mais sábios e os mais primitivos dos homens, um apenas que queira deixar-se à sorte do tempo, daquele maquinal”; reduzia-se em garantir que todos, tanto quanto ele, também queriam encontrar o amor raro. E completava dizendo: “eu encontrei, amicíssimo, uma montanha para escalar; sim, uma montanha para escalar, pois é o risco iminente da queda que te põe alerta e em frente; acima e em frente; é o risco iminente da queda que te põe confiante da subida; sobretudo, é o risco iminente da queda que te faz garantir que não irá cair. É a experiência do subir; do arriscar-se; do ver a vista; do respirar e do sufocar-se; do refletir sobre o tênue limiar entre a vida e a morte; sobre estar vivo; são estas experiências que nos valem a vida; não é o que há no topo que vale a subida, mas o próprio subir. Não é o que significa o amor raro que o vale viver, mas a intensa e calorosa envergadura do abraço; a profusão de sensações e sentimentos do olhar para o outro e ver a si mesmo, estando no outro; a explosão dentro de si, dos limites do próprio ser, das expansões do si-mesmo, das incríveis e incontáveis vezes que encontramos o outro dentro de nós, passeando por nós, dormindo em nós, que valem o amor raro; o amor raro, digníssimo confidente, é uma montanha pela qual escalamos”.