Na minha casa tinha um cachorro que só faltava falar. Era um vira-lata puro sangue. Encontrei-o na rua, com um olhar perdido, pra lá de Marraquexe.  Aparentemente ele não tinha nada de especial. Esteticamente nenhuma madame se apaixonaria por ele à primeira vista.

Estava na Pampulha fazendo um cooper. E estava animado, pois seria um fim de semana agitado. Teria Atlético e Cruzeiro, show do Pearl Jam e Comida de Boteco. Um fim de semana daqueles que os deuses mulatos adorariam.

Parei o carro longe da pista de cooper. E fui caminhando tranquilo. Sem pressa alguma, deixando rolar naturalmente. Aliás, pressa não me interessa. O melhor a fazer é caminhar contemplando a paisagem e cantarolando um belo samba de Noel Rosa. Foi uma hora e meia de pura serotonina.

De volta ao carro pra ir embora, abri rapidamente a porta e, pra minha surpresa, um cachorro pulou pra dentro. Nunca tinha vista aquele cachorro antes. Como assim? Como um velho amigo, o cachorro foi entrando, sentando e pedindo: “vamos embora pra casa”.

Na hora tive a reação de colocá-lo pra fora. Mas, quem disse que o cachorro queria sair? Começou a rosnar e a balançar o rabo ao mesmo tempo. O que fazer? Então resolvi ir embora. E no meio do caminho colocaria o cachorro pra fora, pensei comigo. Mas, não tive coragem!  O cachorro ficou e foi até a minha casa.

Poxa, não tenho condições de ter um cachorro. Alem de tudo, eu não comprei, não pedi e não ganhei. O cachorro simplesmente apareceu do nada. Seria um carma? Eu teria que cuidar desse cachorro? Tudo bem, hoje ele dorme aqui, mas amanhã eu arrumo um lugar pra ele.

Anoiteceu. Arrumei um lugar no quintal. Coloquei água e comida. O cachorro ficou todo feliz! Parecia que realmente era meu havia muito tempo. Que cachorro folgado. Fui ao show do Pearl Jam. Showzaço! Voltei cansado e tinha até esquecido o cachorro. Estava esgotado aquele dia. Cheguei em casa e fui dormir. Depois de algum tempo o cachorro começa a chorar no quintal. Então coloquei-o pra dentro de casa, precisamente no meu quarto. E o cachorro estava com um mau cheiro daqueles! Pelo menos não estava mais chorando. E eu voltei a dormir. E no dia seguinte levaria esse cachorro embora.

Passaram-se muitos dias. O cachorro tornou-se meu grande amigo. Ele era inteligente, perspicaz, só faltava falar. Confesso que ele me ganhou. Acabou ficando lá em casa. Fazia coisas incríveis. Até parecia cachorro ensinado. Coloquei nele o nome de Michel Foucault. O bicho era inteligente pra caramba e merecia tal nome.

Um dia assessores do vereador do bairro passaram na minha casa fazendo o cadastro dos moradores. Eu honestamente dei os dados na boa. Na época morava eu e minha vó. Esse vereador é um típico picareta e, embora do bairro, nem sabia quem era minha vó.  Mas ligava na data do seu aniversario. E a minha vó achava o máximo. Eu ficava muito revoltado com aquela situação. E até arrependido de ter passado os dados pessoais para os assessores cadastrarem. Na época acreditei que seriam usados para algum projeto relevante no bairro. Não era. Era apenas a velha forma de fazer política, usando a boa-fé das pessoas.

E como mostrar pra minha vó que esse vereador não é essa pessoa bacana que ela pensa? Que ele é um político desonesto que trabalha contra a maioria da população do bairro? Então, num determinado dia, a assessoria do vereador passou atualizando os cadastros. Esta seria a chance de mostrar pra minha vó que esse vereador não vale uma pataca. Então, nesse novo cadastro tirei o nome da minha vó e coloquei o nome do meu cachorro. O Michel Foucault.

Passou quase um ano quando eles voltaram a ligar pra minha casa. E quem sempre atendia ao telefone era minha vó.

– Alô, bom dia! – Bom dia! – Queria falar com o seu Michel, por favor. – Michel? Tem ninguém aqui como esse nome não. O que o senhor deseja? – Aqui é do gabinete do vereador. – Sei. – Queríamos parabenizar o senhor Michel Foucault pelo seu aniversário. – Aniversário? – Sim, desejamos tudo de bom para o senhor Michel. – Uai, esse é o cachorro do meu neto.

O assessor, do outro lado da linha, ficou mudo. Ele sacou que tinha caído numa armadilha. Nesse momento eu peguei o telefone e agradeci pelo aniversário do meu cachorro. Fiquei triste pela minha vó. Ela achava que o vereador só ligava pra ela no dia do seu aniversario. Que era uma ligação especial. Que ele realmente se lembrava da data. Ficou decepcionada.  Logo entendeu que era um golpe. E que eles ligavam pra todo mundo. Não importava se era gente, cachorro, papagaio.  Nesse dia caiu a ficha pra ela.

Ainda lembro-me desse caso com tristeza pela minha avó. E também fico triste pela maioria do povo brasileiro. Para os políticos, como o vereador do meu bairro, não passamos de um número e de dados cadastrais. Eles nem sabem que existimos como pessoas de carne e osso. Acho que precisamos ler muito Michel Foucault.