As trombetas do juízo final parecem estar soando para os chefes políticos do partido que é sinônimo de poder no Brasil há trinta anos.

Depois das fatais delações de Sérgio Machado e Nelson Mello, são esperadas nos próximos dias delações apocalípticas (Lyra e Funaro) envolvendo dezenas de deputados e senadores.

Além de Cunha e Renan (simplesmente os presidentes do Poder Legislativo), também foram denunciados o próprio presidente em exercício, Michel Temer, o ex-presidente José Sarney, o ex-presidente da Câmara Henrique Alves, os ex-governadores e ex-ministros Eduardo Braga e Edison Lobão e o ex-líder dos três últimos governos federais, Romero Jucá.

Em qualquer outro país,inclusive o Brasil de dez anos atrás, esses indivíduos já estariam sem qualquer cargo público. Por muito menos, Renan teve que renunciar à presidência do Senado há dez anos. Um lobista teria pago despesas de sua segunda família.

Hoje Renan já responde a assombrosos 13 inquéritos no STF, e continua comandando o processo de impeachment de uma Presidente que jamais respondeu a algum.

Eduardo Cunha, que abriu o impeachment por vingança, já é duas vezes réu no STF e responde a mais seis inquéritos nesta corte. Continua presidente da Câmara.

Como explicar que o país não tenha ruído diante dessas denúncias? Por que para protegê-los a mídia corporativa se expõe à desmoralização final? Como esses indivíduos são tão poderosos?

Esse Sarney que apoiou o golpe de 2016 não é o mesmo udenista e coronel do Maranhão que apoiou o golpe de 64? Não é Edison Lobão sua cria e ex-ministro de Lula e Dilma? Não é esse o Renan que foi braço direito de Collor e ministro da Justiça de FHC? Não é esse Eduardo Cunha que era boy de PC Farias, presidente da Telerj, da Cohab, colecionando por onde passou processos e até uma apresentadora da Globo? Romero Jucá não foi líder de governo de FHC, Lula e Dilma? Não é esse o Temer que tentava carregar malas de Ulysses e que colecionou em eleições várias suplências de deputado?

Talvez haja uma resposta simples a todas essas perguntas. É que esse Brasil, esse presidencialismo de coalizão que conhecemos, foi desenhado há 28 anos pelo PMDB, para o PMDB.

Nunca estiveram fora do poder desde então. Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula, Dilma: todo presidente brasileiro teve que entregar nacos de poder a esse partido para conseguir governar.

Uns mais, como Sarney e FHC, outros menos, como Collor e Dilma. Curiosamente, os dois últimos sofreram processos de impeachment.

Sempre supostamente dividido entre “autênticos” e fisiológicos, oposicionistas e governistas, uma coisa sempre uniu o PMDB: dinheiro público. Até a delação de Sérgio Machado.

Agora, os 100 milhões em propina que Machado afirma ter passado à cúpula do PMDB instauraram o salve-se-quem-puder na legenda sinônimo de fisiologismo e corrupção no Brasil.

Apesar disso, os depoimentos e gravações arrasadoras encontraram ouvidos públicos anestesiados pelo mar infindável de denúncias, além de uma imprensa cínica que, obcecada com seu inimigo de classe, Lula, chegou a criticar as ofensas de Machado a membros do STF.

Seguindo o script, o PMDB tentou uma ridícula campanha de desmoralização do denunciante escarnecendo completamente da inteligência dos brasileiros, como observou Jânio de Freitas.

Não responderam às denúncias ou explicaram por que o indicado do PMDB para presidir por 12 anos a Transpetro era do dia pra noite indigno de crédito. As tradicionais promessas de processo por calúnia e difamação, inclusive do patético presidente em exercício, foram seguidas pelo também já tradicional vácuo. Ninguém, até agora, processou Machado.

Mas uma nova delação, a do ex-executivo do grupo Hypermarcas, Nelson Mello, veio agora a público acrescentar mais 30 milhões de propina aos mesmos personagens.

E não dará nem tempo de tentar desacreditá-lo: mais três delações prometem explodir o PMDB, o Congresso e o Governo nos próximos 20 dias: a de Milton Lyra, suposto operador de Renan, e a de Lúcio Funaro, suposto operador de Cunha. Por fim, Sérgio Machado promete em 20 dias complementar, com novos documentos e gravações, as denúncias que fez contra Temer.

Então, daqui a mais ou menos um mês, creio que terá chegado o momento de nós brasileiros retomarmos a iniciativa e encontrarmos a vergonha que perdemos.

Porque esses homens, simplesmente, não podem governar o Brasil. Eles não podem ter mandato de nenhuma natureza. Eles não podem sequer ter o direito de andar nas ruas.
Onde está nossa vergonha na cara?

Estamos esperando a direita sair às ruas? Não sairão. Esse é o governo deles.

É a hora de mobilizar as ruas: as Olimpíadas. Vamos depor esses vampiros nacionais, pedir novas eleições gerais e a reforma política. Terão que entregar algo às ruas e ao mundo.

O que nós precisamos agora é simplesmente refundar a República e a Democracia, não mais somente barrar um golpe de estado. A Nova República, fundada pelo PMDB, acabou.

Ou fazemos isso, ou o apocalipse do PMDB também será o nosso.

Não esperemos mais. As trombetas já soaram. Soaram até demais.

PS: Entre a revisão e a publicação desse artigo, Eduardo Cunha renunciou a presidência da Câmara. O apocalipse já começou.