Normalmente eu não gosto de escrever sobre assuntos que estão sendo demasiadamente reverberados tanto pela mídia quanto pelas redes sociais. As duas modalidades estão de tal modo permeadas de opiniões rasas que uma discussão mais profunda sobre qualquer tema torna-se impossível.  Para um grego como Parmênides (530 a.C. — 460 a.C.), a constatação acima seria excessivamente óbvia, já que o campo das opiniões é sempre superficial.

No livro Obesidade mental, publicado em 2001, o antropólogo americano Andrew Oitke nos avisa que estamos mais cheios de lugares-comuns do que de hidratos de carbono. A reflexão se deve ao fato de que um em cada quatro americanos estão com distúrbios de peso acentuado. No entanto, na visão do catedrático, esse não seria o maior problema da sociedade americana na atualidade. O mesmo pode-se dizer do resto do mundo.

Existem outros dois fatores que precisam ser levados em consideração antes de chegarmos ao meu ponto.

O primeiro é que os diálogos estão temporariamente fechados para balanço (não que algum dia já estiveram abertos). Independente de você sustentar ou não seu argumento, seja com concreto ou com isopor, ele não será levado em consideração. Você dirá, por exemplo, que um objeto não pode permanecer no ar sem algo para sustentá-lo. A outra parte dirá que “depende do vento”. Isso vale para os dois lados e pode durar o infinito.

O segundo ponto é que as pessoas tendem a se projetar no seio das discussões levando-as para um simples confronto de egos e empobrecendo o sentido dela. Se você disser que advogados manipulam a “realidade” para atender aos interesses dos clientes (ou deles próprios), a maioria dos profissionais da área tomará como uma ofensa e logo o tomo será esquecido dando lugar a agressões pessoais. “Vanitas vanitatum et omnia vanitas”.

Chegamos aonde queria: na célebre discussão sobre as escolas sem partido.

O projeto defende uma escola isenta de qualquer doutrinação ideológica ou, no máximo, com neutralidade de opinião por parte dos docentes. Ainda há os que argumentam que a doutrinação e de esquerda foi propalada durante anos “silenciosamente” pelos profissionais da educação. Em último caso, é possível encontrar os que esbravejam a favor de uma reforma educacional sob o pretexto de que, em consequência da prática de ensino marxista, houve relaxamento das outras disciplinas. Os baixos índices de educação seriam a comprovação do fato.

As asneiras são ilimitadas. Por isso seria muita pretensão da minha parte refutar todos os pontos assinalados por aqueles que defendem o disparatado projeto. Além, é claro, dos problemas de dialogia apontados no começo desse texto. Vamos lá.

O sistema educacional precisa urgentemente de uma reforma. Porém, isso não se deve a nenhuma doutrinação específica. O fato é que aconteceram profundas transformações sociais – principalmente decorrentes da revolução tecnológica que estávamos atravessando – nos últimos cinquenta anos que o sistema de ensino não acompanhou.

Rui Canário nos lembra que, se é verdade que a sociedade “evoluiu”  tecnologicamente por um lado, por outro somos completamente sub-desenvolvidos do ponto de vista ético, politico e social. A filósofa Viviane Mosé complementa que, no âmbito educacional, somos profissionais do século XX, com mentalidade do XIX, tentando formar pessoas do século XXI.

O baixo-índice da média educacional como critério de justificativa da implantação do projeto Escola sem partido é, no mínimo, ingênuo – para não acusar de autismo intelectual. Escusando-me de elencar os diversos possíveis motivos do péssimo nível educacional, vou dizer apenas que boa parte do conteúdo ensinado tanto no primeiro grau do ensino escolar quanto no segundo é inútil. No ensino superior, a realidade não é muito diferente.

Pesquisas recentes divulgaram que menos de 10% do conteúdo do ensino formal é aproveitado na vida prática do individuo. Quantos podem dizer que se valeram das informações sobre as funções da membrana plasmática nas células procarióticas e eucarióticas? Quantos se lembram dos cálculos da física estatística ou das teorias termodinâmicas?

No momento seguinte, gostaria de entender o que seria “um indivíduo sem ideologia”. Será que alguém, gozando de suas plenas funções cognitivas, pode pressupor que isso seja realmente possível? Será que o seu Zé, nascido, criado no interior Paraíba, analfabeto e sem nunca ter viajado mais 50 quilômetros além de suas vistas, não olha o mundo a partir de sua perspectiva? Será que seu Zé não tem uma ideologia sustentada pelo conjunto de lógicas internas desenvolvidas ao longo de sua existência e que o fazem avaliar tudo à sua volta?

Um amigo me enviou recentemente um mosaico com fotos de seis pessoas e disse que se eu conhecesse apenas as três primeiras é porque eu havia sido doutrinado na escola – ou na universidade. As fotos eram de Che Guevara, Karl Marx, Antônio Gramsci, Roger Scruton, Russel Kirk e Mises.

Sim. Eu fui doutrinado durante toda a minha vida estudantil e acadêmica. Me ensinaram que Che Guevara foi um assassino de inocentes, mulheres e crianças. Também me disseram que o sistema utópico de Marx levou cerca de 100 milhões de pessoas à morte, para tomarmos apenas a China e a URSS como referência.

O que ninguém nunca fez foi contextualizar as diversas revoluções além daquilo que estava porcamente elencado nos livros de história. Num país onde a média anual de livros por habitante é menor que 1,5 – a média mundial é de 10 – é difícil crer que a maioria dos professores tenha subsídio intelectual para compreender o marxismo e, por conseguinte, ensiná-lo corretamente.

O que também ninguém fez foi dizer que o sistema praticado – com as devidas ressalvas – pela Escola Austríaca de Ludwig Von Mises era tão utópico quanto o comunismo pregado pelos revolucionários russos.

Os Estados Unidos, como o mais próximo exemplo do modelo proposto pela referida escola, precisaram da injeção de U$ 1,5 trilhão do FED – banco central americano – para evitar a bancarrota do país após a bolha imobiliária-especulativa de 2008. Precisaram ainda reestatizar empresas que tiveram seu passivo aumentado em cerca de 10 vezes em relação ao capital patrimonial por causa da irresponsabilidade do sistema.

Por fim, contrariando o pensamento do professor Leandro Karnal, que diz que as adjetivações impedem o progresso das dialogias, eu digo que os rótulos são necessários para traçar um esboço das limitações cognitivas de alguns agentes do discurso, evitando o desperdício de tempo em contendas que já nascem mortas.

Alguém que coloca um reacionário de direita como Roger Scruton, que dedicou sua vida ao estudo da estética, mas acreditou que entendia de ética, junto a outro reacionário de direita como Russell Kirk, um crítico literário ressentido, no mesmo balaio de gato que Gramsci, a Escola de Frankfurt e Marx, elevando-os à mesma importância, tem sérios problemas cognitivos. Citando Einstein, não merece o cérebro, já que a medula espinhal o satisfaz.

Enquanto não houver uma reforma íntima e ética começando a partir de cada um, nenhum sistema conseguirá resolver os problemas da coletividade. Nem um sistema regulado por interesses econômicos (o que é um contrassenso), nem um sistema que pressupõe a extinção do Estado.

Essa reestruturação individual de valores e de práticas cotidianas, que permitam o melhor convívio social possível, respeitando o contraditório e a liberdade de pensamento, extirpando a banalização da miséria e garantindo a todos as condições mínimas para a existência, só será possível com uma escola crítica, aberta ao debate e que fomente a reflexão nos variados níveis.