1.Quem ganhou e quem perdeu

Quem ganhou as eleições municipais que terminaram ontem? Eu jogaria minhas fichas no “não voto” (entre 30% e 40% do eleitorado, em média) e nos evangélicos. Seguidos pelo forte personalismo revestido de “apolítico”, o que joga água no moinho do desencanto com a democracia e o jogo de conquista do convencimento popular.

Quem perdeu? O PT.

O PCdoB quase dobrou o número de prefeituras que governa e o PSOL foi a estrela, pela esquerda, dessas eleições.  No caso do PCdoB, há um registro importante a fazer. O partido cresceu no Maranhão, onde o Estado é governado por Flávio Dino. Até então, o PCdoB governava 14 prefeituras maranhenses e, agora, passará a governar 46. Até então, o PCdoB governava, em todo o país, 65 prefeituras. Na Bahia, base histórica do partido, diminuiu de 13 para 12 prefeituras que governará a partir de 2017.

O fato é que a redução da presença da esquerda nas prefeituras se confunde com a redução da presença petista. Não de toda esquerda. O que enseja uma leitura mais panorâmica deste quadro institucional.

2. As vitórias do PSDB

Os tucanos conseguiram se eleger, neste segundo turno, em 14 das 19 cidades que disputava. A maior conquista foi Porto Alegre, seguida por Manaus e Belém.
Mas, a vitória simbólica esteve no Grande ABC paulista, em especial, em Santo André e São Bernardo do Campo, terra de Lula.

A “onda azul” foi, contudo, um desastre para Aécio Neves, que sai derrotado em sua terra e parece deixar definitivamente o bastão para Geraldo Alckmin, governador do reinado tucano no país.

3. Os evangélicos formam o partido mais importante do país

Entre 2010 e 2014, as candidaturas que se identificavam como evangélicos cresceram 45%. Nesta eleição, cresceram mais uma vez: 25%.

Foram 2.759 candidatos que se identificaram como pastores e 557 como pastoras. Foram, ainda 2.186 candidatos autodefinidos como irmãos e 842 como irmãs.

Foram 250 candidatos a prefeito nas capitais do Brasil oriundos deste bloco político-evangélico. A capital que contou com maior número de candidatos a prefeito com esta origem foi Belo Horizonte, seguida por Manaus e Salvador. O nordeste é a região que apresenta maior crescimento de candidatos e o sul, o menor. As capitais com menor avanço evangélico são: Cuiabá, Porto Alegre, Palmas e Macapá.

A bancada evangélica quase dobrou na capital paulista: de 7 para 13 vereadores.

Em Salvador, elegeu 8 vereadores. Em Recife, os três candidatos a vereador mais votados nesta eleição se declaram evangélicos.

Pesquisa realizada pela cientista política Gabriela Figueiredo (USP) revelou que os candidatos evangélicos possuem uma vantagem em relação aos outros: gastam menos. Por concentrar seu eleitorado territorialmente e nas igrejas, necessitam de menor número de material de campanha e se deslocam menos.

4. Mas, afinal, o brasileiro mudou ideologicamente?

O PT não apostou, principalmente durante a gestão Dilma, na esquerda e muito menos no seu crescimento. Não propôs uma frente como a uruguaia. Ao contrário. Caminhou para o lado oposto. Lula já havia apostado na aliança com Maluf para eleger Haddad. Antes, reeditou Collor e Sarney. Em Minas, blindou o então governador Aécio Neves. Ora, esta lógica não daria razão à polêmica frase de Frei Betto, para quem o PT era governo, mas não tinha o poder?

Para não parecer fatalista, reedito a hipótese com outras palavras: as gestões lulistas não teriam fortalecido as lideranças conservadoras na última década e isolado a esquerda?

Temos a tendência em fazer leituras periodizadas do movimento histórico. Ajuda a racionalizar e sintetizar. Mas, não raro, embaça a relação entre causa e efeito e dificulta a apreensão da dinâmica interna que transita entre um período para outro. Muitas vezes, nem houve ruptura entre um período e outro, mas uma transição suave e cheia de contradições e paradoxos.

Assim, questiono: as forças conservadoras teriam surgido do nada nos últimos dois anos ou a mudança real se limitaria ao debacle petista? De outra maneira: houve, efetivamente, mudança na composição ideológica dos governos ou mudança menor, de siglas que agora governam no lugar do PT, mas que já governavam com o PT? O eleitor teria ficado mais conservador?

Enfim, o balanço das eleições municipais merece algo mais profundo que o fatalismo marqueteiro vem sugerindo nos últimos tempos.

Há, de fato, uma direita (e extrema direita) emergente no Brasil. Mas o eleitor teria mudado efetivamente de ideologia? Houve, efetivamente, uma mudança radical da cultura política do pais em dois anos? E, finalmente, o que concretamente teria levado à queda do PT ou a esta mudança ideológica do país (se ela efetivamente se alterou, hipótese que não me convence)?

Minha hipótese é: as respostas não estão nas siglas partidárias, mas no “não voto” e no crescimento dos evangélicos na política brasileira.