Vejo a movimentação de parte da esquerda brasileira se preparando para comemorar o aniversário da revolução russa de 1917. Interessante que a direita brasileira, solapada pela sua histórica ignorância, imagina que toda esquerda se apoiou na história bolchevique. Como sempre, o raciocínio tacanho leva a mais um engano desta galeria que faz da direita tupiniquim uma piada pronta e previsível.

A começar pelas divergências internas, entre os bolcheviques, após a ascensão demolidora de Stalin.

Lênin, no seu último texto (“Mais vale pouco, porém bom”, de 1923), sugere que “nosso aparato estatal atola-se num estado tão lamentável, para não dizer detestável, que requer uma viva reflexão para criar um instrumento contra a deformação burocrática no Estado e no partido”. Lênin, neste texto-testamento, assume a culpa por possibilitar a emergência do stalinismo sustentando que confundiu Estado com Partido. Faz, ainda, duras críticas à instituição governamental do início da União Soviética responsável pelo controle das estruturas estatais e de organizações produtivas locais (entre 1920 e 1934, denominada Rabkrin). No ano anterior, em sua carta ao XIII Congresso do Partido Comunista da URSS, Lênin já havia criticado o então secretário geral do partido, Josef Stalin, solicitando sua substituição do cargo por alguém “mais tolerante, mais leal, mais correto e mais atento com os camaradas”.

A crítica seguinte veio de Trotsky e já é mais conhecida (não para a direita tupiniquim, evidentemente). Sua crítica à degenerescência burocrática da URSS e à concepção do ultranacionalismo stalinista o levou ao exílio e à morte (assassinado com uma picaretada na cabeça, na residência de Frida Kahlo e Diego Rivera, no famoso bairro Coyoacán, na capital mexicana, onde se exilou). O livro fantástico de Leonardo Padura, “O Homem que Amava os Cachorros”, pode auxiliar a compreender algumas das divergências e descaminhos desses personagens.

Há outra vertente de crítica à URSS, vinda do maoismo, que também é muito respeitada nos debates da esquerda mundial. Charles Bettelheim, economista francês, escreveu “A Luta de Classes na URSS”, no qual centra sua análise na natureza das relações sociais dominantes que persistiram mesmo após a revolução socialista, além do que denomina de “marxismo simplificado”, que contribuiu para a existência de relações sociais capitalistas na URSS. Uma vertente analítica que poderia auxiliar, inclusive, a esquerda brasileira a compreender os desencontros do lulismo.

Há, contudo, estudos que não estão na esfera do marxismo que jogam luzes sobre características antropológicas da construção nacional daquela porção do planeta. Reinhard Bendix, autor weberiano, em seu livro “Construção Nacional e Cidadania”, propõe uma inusitada análise da incapacidade do território que foi um dia a URSS de se desvencilhar da cultura autoritária mongol (herança da ocupação do Império Mongol), seja no socialismo ou no capitalismo, cultura que ignora a dimensão específica da sociedade civil, já que se articula ao redor da figura de uma forte e autoritária hierarquia militarizada.

Enfim, vale discutirmos com pluralidade e seriedade esta experiência que não foi importante apenas para aqueles que se compreendem como de esquerda, mas para toda a humanidade. Comemorar cegamente a Revolução Russa sem se debruçar sobre seus erros, incluindo os destacados por seus líderes, é alinhar-se ao “marxismo simplificado” e simplório que aproxima o pensamento de esquerda à forma lobotomizada que caracteriza a direita brasileira.