Fome fere. Fere de morte. Vinca a alma. Quem conhece a fome descrê do Homem… Não há teoria nem razão civilizatória que expliquem a injustiça que viola o coração de um inane. É mágoa e perda de sentidos sem fim. É uma vergonha que custa a ser limpa…

A sociedade ativa – essa que se diz pacífica, “de bem” — não acessa a fome porque não é norma social deter-se em pele alheia, menos ainda, de quem tem dor ou, por alguma razão, não produz e não compra… Os improdutivos e incapacitados, os sem-grana alguma, são os leprosos desta sociedade consumista. E somente quem desconhece a rejeição interna que a fome inaugura consegue pensar algebricamente se fome tem ou não porquê… Não é racional. Ninguém procura a fome. Como alguém pode merecê-la? Ela brota no solo acumulativo de precariedades nada “lógicas”… Fome enlouquece, rouba a paz e o pensar. É um transe, um estado alterado de consciência… Isto, a maioria não entende: a fome ergue muros largos. E a voz da gente fica cada dia mais opaca – ninguém escuta. O orgulho dos famintos compete com a dignidade – e pode vencer. Pedir é muito mais difícil que imaginam os moralistas. Como ousam falar em paz e civilização diante da fome – é algo que não entendo…

Se há fome, há negligência!

Não foi um inverno exatamente frio. Mas úmido, chuvoso. Frio era dentro – Luto de separação, ainda. Falta do convívio cotidiano com as filhas. Isolamento, machismo e negligência familiar. Autocobrança e vergonha, feito fios de aço laçando o coração. Mofo de esperar quem vinha e nunca veio… O fracasso amplia tudo, sabe? Vitamina a culpa. Desnutre a autoestima. Digere expectativas. Faz crer que somos os únicos errados do universo… Foi assim. Sozinho, acampado no mato, cara a cara com a doença – aquela que só quem dói vê, enquanto queima do pavor de se acabar – que, literalmente, subsistir passou a ser o centro de tudo. Talvez por força atávica ou senso de justiça, encontrei forças para sair lúcido dos escombros e horizonte para o que ninguém ensina: sobreviver a si mesmo e perdoar a si mesmo.

Esta dura experiência de vida me mostrou que a realidade mais chã não era ficcional como supunha antes de vivê-la: – Como manter a saúde – a começar pelo alimento — em condições de extrema vulnerabilidade? Nos últimos anos foi a urgência anterior a todas as urgências!

Bertioga tem períodos contínuos de chuva que desalentam. Aquele ano foi especial… Depois de uma semana de aguaceiro eu já me perguntava: – Pra que lado fica o desespero? O terreno inundado. A barraca mofada. Uma tosse canina. O rancho tramado e urdido por varais pesados de roupas molhadas… Lenha? Nenhuma. Tudo encharcado. Para queimar, óleo de cozinha usado numa lata de goiabada com trapos torcidos como pavios. Cheiro ruim, e queima. Tisna toda a panela, e queima. E nessa hora, amigx, se fizer água ferver, vale por um fogão novinho!

Naquela noite, a fome era maior que a desesperança… Depois de mais uma odisseia sob a chuva à cata de rango, enfim, fumegava na panela o sopão de inhames com folhas de Ora Pro Nobis, Taioba Roxa e um punhado de Jurubebas em conserva. Da primavera, uns poucos inhames plantados com esperança gigante, mas que já na primeira escavação da terra molhada me arrancaram lágrimas de tão nanicos. A memória do saudoso verão era um fundo de pote com poucos coquinhos de Brejaúva em calda que desapareceriam na sobremesa.

Motivado pelo Dr. Perreng [leia em “O Combo da Escassez, I” http://www.revistalinguadetrapo.com.br/o-combo-da-escassez-i-por-geraldo-varjabedian/ ] ,foi por esses dias que provei pela primeira vez os inhames da Taioba Roxa. Não foi sem medo… Enquanto o rango mingua no inverno, elas estão lá. Lindas, viçosas, em paz para crescer porque ninguém as toca… Há uma crença de que esta espécie é venenosa, “incomível”. Não é. Suas folhas podem ser refogadas – devem ser muito bem refogadas. No limite, os talos muito bem picados, também… Demoram um bocado mais — e talvez mais um pouco ainda — que a Taioba Mansa para ficarem palatáveis. É preciso cozinhar e provar… Mas os inhaminhos da Taioba Roxa, apêndices da batata principal, numa noite de chuva infinita e umidade na alma, deram àquela sopa um quê de festa. E foi mesmo uma noite especial em que, pela primeira vez, venci a face mórbida da ansiedade alimentar, certo de que a situação tinha jeito. Incrivelmente, sentia conforto. E me permitia viver aquele instante de literal inundação, incerteza e alguma febre com poesia.

Entrando no tempo amplo da chama fraca, percebendo que não adiantava enlouquecer de pressa porque era preciso ferver, neutralizar o oxalato das Taiobas Roxas, pacifiquei meus sentidos como pude e esperei. Quebrava cucas secas e mordiscando as nozes, celebrava: – Yes, rango grátis!

A cena: um cara na pior. Ilhado sob um rancho sem paredes, no meio da mata de restinga, pés forrados de jornal e enfiados num tênis velho, tossindo e chupando Brejaúvas em calda, sob uma chuva fina e teimosa, assim, mas completamente calmo… Nunca me senti tão humano. Aquecido pela sopa, delirando com a sobremesa e o sucesso com a própria sobrevivência, ri sozinho ao me perguntar: – Como a Brejaúva faz coquinhos tão doces de uma areia tão salgada?

As lições mais preciosas da longa amizade com Salvador Perreng são ricas de questionamentos e mudanças de postura que tornam miúdo o conhecimento formal e linear sobre o que comer… Estou imerso nisso o tempo suficiente para afirmar sem receio que a saciedade através da diversidade e da qualidade é a regra holística e, portanto, sustentável para quem está livre da tolice nutricional cartesiana e da monotonia tabelada dos cardápios de revista e dos rótulos bem desenhados dos sócios – todos — das commodities

No período mais difícil em que pouco podia comprar no supermercado, aprendi que muito antes de empachar o bucho de qualquer comida — inclusive da cesta básica miserável que os gestores públicos disponibilizam aos mais necessitados — tudo de que precisava era de saciedade. Alimentos vitalizantes, nutritivos, alcalinizantes; capazes de prover toda a cartela de nutrientes aprendida, sim; mas também dotar meu corpo de imunidade e tonicidade suficientes para dar conta da insalubridade, do esforço físico e da fragilidade emocional… Bato no peito: depois daquele inverno, nunca mais tive uma gripe, uma tosse, qualquer mal-estar desses… Muitas vezes, na falta de alternativas, mesmo na falta de grana para comprar sementes para germinar, passei dias inteiros só a suco verde de PANC, sucos de polpa de coquinhos, frutos, raízes, palmitos – não sem errar, não sem padecer de piriris homéricos e noitadas inteiras às voltas com gases pirotécnicos; não sem passar por duas irritações de cólon bem didáticas!…Mas é preciso provar o novo para descartar o velho, não? O que era alternativa numa hora ruim, agora é hábito. De hábito, virou consciência alimentar por este rito de passagem para uma alimentação adulta e redentora!

Existe prazer em estar alimentado para além do cardápio urbanoide e dos sonhos gastronômicos padronizados… É preciso resgatar as espécies alimentícias conhecidas, abusar de comida viva e reeducar pessoas para a saúde, inclusive, a saúde psíquica… A fome é uma imposição política como o cardápio de mercado. Se há fome, há negligência! Quem produz o cardápio capEtalista não pode negar que há tecnologia e meios de sobra para extinguir qualquer vestígio de fome quando se quer… Mas… Mas…

Sem misérias, sem ansiedade, sem a infelicidade industrializada, por que as pessoas comeriam tanto, com tamanha voracidade e pressa assim, pornograficamente? Por que, entretidos com nossas responsabilidades e projetos cotidianos, com o alheamento do senso comum e as pressões sociais, voltaríamos ao óbvio ancestral de dignificarmos nossos alimentos e tempos?

Em longos papos com Dr. Perreng, entre lascas de caroços de abacate torradas e sucos selvagens, me perguntava: – Se a vida nas sociedades urbanas é tão boa, tão segura e previsível, por que consumimos e comemos compulsivamente, como se não houvesse amanhã? E essa masturbação gastronômica movida a monoculturas e variações entediantes sobre as mesmas espécies; por que tamanha escassez de opções, tamanha monotonia alimentar e estética, sempre os mesmos ingredientes, sempre as mesmas escolhas – se há comida de verdade disponível na natureza e tanto se desperdiça? Se há tantos nutrientes vitais em alimentos frescos, por que tanta comida assassinada por cozimento, química, embalagem? Se há mais paladares desconhecidos que ruins, por que essa tara pelo paladar oficial colonizado, branco, dominante?

A partir da ruptura com o paladar infantilizado e entretido do mundo urbano, livre do hábito social, da lista sincopada de compras, com muito alimento in natura e umas tantas informações, meu corpo desinflamou do hábito acidificante do sistema. Olha a escassez aí! … A gente precisa de menos volume de alimento conforme o organismo desinflama. A gente sente menos fome à medida que se alimenta melhor… Vale para o alimento e como metáfora para o afeto, para a informação, o sexo, o trabalho, as relações… A gente pode fazer diferente sem que seja por acidente!

Desmascarar a escassez imposta em todos os âmbitos abre uma janela extraordinária para o entendimento do corpo, da fome, da saúde. E não por escolha diletante do exótico, não por mera firula gourmet, mas experimentando com a mesma humildade que nossa espécie nômade e onívora experimenta desde que está no mundo! O que o mercado vende são mercadorias maquiadas, depiladas. Vende aparências, idealizações, símbolos, significados, produções pornográficas e alegorias comestíveis de lucrar com os entretidos urbanos, alheios à natureza.

Para quem investe em autoconhecimento e liberdade, para quem pensa na fome e na liberdade como questões políticas, poucas coisas estimulam perguntas sobre alimentação como esta dinâmica de fome, ansiedade e saciedade – sob o açoite do mercado. A tal Segurança Alimentar de que tanto se fala vai muito além da disponibilidade de comida. Porque quantidades não bastam. E a Soberania feita de escolhas por este ou aquele paradigma alimentar não pode prescindir de um mínimo de bem-estar e qualidade e pertencimento. Bem-estar pessoal, interior, não almofadas de espuma, filmes e pizzas… A intranquilidade e o desconhecimento sobre os alimentos são fortes insumos de vendas. A fome ou iminência de fome, a incompletude e a insatisfação projetadas na alimentação alteram o estado de consciência de tal maneira que nos tornamos presas fáceis do lucro. O mercado sabe manipular a longa história de ansiedade alimentar que poreja de nossos genes. As compensações e incompletudes convergem para a opção de prazer mais acessível: a boca. E quem não planta nem colhe nem questiona – que pague!

Comemos demais. Talvez, o dobro do saudável, o triplo do solidário, mas sempre buscando a saciedade pela quantidade e teimando em paladares e alentos repetidos, cardápios viciados e culturalmente infeccionados de distâncias e valores coloniais insustentáveis. Raros os que têm a paz de contar com alimentos produzidos em seu âmbito. Mais raros os que compreendem que a alimentação globalizada não é sustentável, que saciedade não é exagero. Que padrão alimentar importado não é natureza. Isto não é pauta para Educação Alimentar?

Se plantássemos e comêssemos em paz, pra que tanta comida? Se soubéssemos o que estamos comendo, pra que tanta publicidade e embalagens e resíduos? Por que o mercado salta do lucro com a inanição ao lucro com a obesidade produzindo escassez e as instituições tão pouco se importam? Por que é preciso justificar o consumo de absurdos com teses sobre liberdade, livre-arbítrio e tudo mais quando a maioria das pessoas escolhe segundo bolso e desejo? Naturalizar a exploração e a inconsciência como alavancas de lucro tem mesmo a ver com liberdade?

Liberdade artificial é liberdade? Pra que tanto alimento oco de nutrientes parecendo potente? Pra que tanto alimento bombado, injetado, marombado, geneticamente modificado? Pra que tanto músculo e tatuagem e trucagem e excitações tóxicas se não há amor nem substância em cena? Isto, a “lógica” alimentar vigente, não é como a pornografia que faz com que as pessoas broxem com a natureza de fato? Não é assim, todo o sistema, feito de artifícios vendidos como se o natural fosse insosso, feio, entediante; como se o simples e frugal fosse sinônimo de pobreza, como se o que é bom inexistisse sem photoshop, aditivo, viagra, adubo, medicamento para azia, rebite pra fígado, laxante para alegrar enfezados?

O olhar predador-burguês promove alimentação como entretenimento, válvula de compensação, vazão de incompletudes, mimo. Reduz escolhas alimentares a hedonismo de classes, dá publicidade ao exagero e naturaliza o empachamento como desígnio de saciedade alimentar e sucesso… Qualquer almoço de família-margarina que se preze tem que ter mesa abarrotada! Fartura de vitalidade? Fartura de saúde? Não, fartura de quantidade, paladares duvidosos, doces e salgados decadentes e o máximo em commodities. Tudo sob a mais estrita cumplicidade social! Engordemos, celebremos e adoeçamos juntos! O mercado agradece porque a imensa maioria vê a alimentação caseira e natural como um tédio e faz a festa com tralha industrializada e cópia de comida importada que, de fartura, só tem a geração de dependências e insustentabilidade!

Se há fome, há negligência!

Quem lucra com a industrialização da vida, a pornografia alimentar que se alastra pelo mundo? Quem lucra com o imenso dispêndio energético global para produzir, vender e digerir tanta porcaria enquanto tantos morrem inanes? E com tanto medicamento para “males” derivados da má alimentação, quem lucra? Que mentiras contamos a nós mesmos para manter o ritmo de britadeira dessa alimentação adolescente? Que alimento é esse que mal sacia o prazer oral e tratam por nutrição? Comer e continuar com fome… Que gozo imaturo, que prazer pequeno!

No dia a dia e nos bons momentos, nos maus momentos e na correria. No auge do tesão contido e nas profundezas da frustração, comemos demais. Rápido. Sem amor. Sem respeito. Sem saciedade. Pornográfica, adolescente, exageradamente. Comemos aos surtos. Reativa, recreativa, compulsiva, irracionalmente. Comemos socialmente. E celebramos o pouco a celebrar com orgias gastronômicas! Excesso, em nossas cabeças, é a ponta-cabeça da miséria…

Comemos demais. Ansiosamente. Descontroladamente. E produzimos alimentos assim, de forma inconsequente e ansiosa. E queremos vendê-los ansiosamente para quem vai consumi-los ansiosamente no ato solitário de encher a pança até sossegar a alma!… Então, aparecem as grandes corporações como quem vai salvar o mundo, segredando que há fome e, por isso, precisam de tanta química e transgenia e máquina para manterem a ereção produtiva e continuarem fodendo a saúde humana, socando alimento tubos digestivos abaixo para vender mais e mais!

Comemos demais. E mal. Perdemos a razão de ser da alimentação e o valor da água em todo este processo e depois dele! Falar em sustentabilidade no atual modo de produção de alimentos, mais que equívoco, é desonestidade! A fome no planeta é fruto de um padrão alimentar equivocado, cujos centros de gravidade são ansiedades por volumes – da produção ao oco do estômago! A transformação do alimento em entretenimento, lazer, mercadoria pura e simples, no mínimo, é uma irresponsabilidade com a água dispendida, com o meio ambiente devastado para produção e com os absurdos Ciclos de Vida que envolvem todo os processos industriais de abastecimento…

Salvador Perreng diz que é uma matemática simples de entender: alimento é combustível de vitalidade. A alimentação convencional faz com que dispendamos absurdos em energia – e grana — para metabolizar muita comida, mas quantidades pouco significativas de nutrientes, além de toda sorte de venenos acidificantes, ladrões de vitalidade e imunidade. Gastamos energia demais com nossa alimentação, energia demais para digeri-la. Para compensar estes e outros rombos, comemos! Comemos e consumimos medicamentos, procedimentos, suplementos…

Comemos desesperadamente e por falta de prazeres melhores. A imaturidade e a inconsequência permeiam a maioria de nossos hábitos… Nossas incompletudes saltam à frente do bom senso em busca de suporte – para muito além da fome — nos fugidios prazeres das poucas mucosas entre os lábios e a glote. Que lindo biombo de sabores esconde a bagunça goela abaixo… Até os mais vívidos prazeres desbotam em maus tratos ao próprio corpo… É pornografia em tudo que há. No trabalho, no consumo, no sexo e também na comida… É como aceitamos socialmente a “necessidade” da alimentação de alta produção, da agricultura hegemônica, da produção exponencial de alimentos ladrões de vitalidade – naturalizando a pornografia como parte de nosso modo de vida.

Comemos demais, se preciso medicalizamos nossos corpos para comer mais… O mercado sobrevive de vender soluções para as doenças — diagnosticadas ou não — que produz. Se tudo é mercadoria, decerto que o crescente mal-estar civilizatório não foge à regra. Cria-se problema onde não havia, vende-se solução para o que não era problema. Daí a sustentabilidade dos caixas das empresas pela negação do óbvio. Por exemplo, pela negação da diversidade alimentar. E na outra ponta, as fortunas em lucros da indústria médica com a estupidificação alimentar coletiva.

Quem não quer saúde, diga?  E diga também: quem tem coragem de escolher a própria saúde em uma sociedade que aplaude de pé o sacrifício?

A alimentação constituída de variações sobre a monotonia das commodities é um pedido explicito por uma medicina tão linear e apressada quanto nossas escolhas, tão devoradora de vidas quanto nossa anedonia — essa incapacidade clássica da cultura burguesa, ansiosa e depressiva, de acessar prazeres simples — de precisar sempre mais, muito, tudo para atingir satisfações fugidias… Cada vez sob demandas mais bizarras, derramamos a cultura da imaturidade alimentar sobre as novas gerações, perpetuamos o insustentável em que transformamos nossos hábitos.

No padrão de alimentação carimbado por todo o planeta – essencialmente pautado por falsas liberdades, prazeres perecíveis e excessos enaltecidos como desígnios de prosperidade e fartura –, a regra tem sido eliminar o alimento local, a cultura alimentar, e impor a mentira da alimentação estatística da grande indústria… O que justifica tudo isso? Será o fato de o mercado saber que somos vulneráveis escravos do desejo e do conforto e de prazeres fáceis?

Comemos muito. E comer substitui quase tudo!

Pense. Será mesmo que milênios de teísmo, tanta opressão, reinados, estados, hierarquias, mercados e corporações devastando a Terra e prometendo matar a fome do povo trouxeram alguma confiança à humanidade quanto à disponibilidade e à qualidade do alimento? Por que então a maioria acotovela-se ao balcão e come comida de mentira assim: às bombadas, às estocadas, em ritmo indiferente de britadeira?

Sob ansiedade, com ansiedade e por ansiedade, comemos. Palavras de um ansioso patológico que aprendeu com Salvador Perreng a tomar posse de seu corpo e de sua saúde, a respeitar os próprios sentidos e o esforço de conseguir alimento. Ao me ensinar a comer em paz, com prazer, sem pressa, foi Salvador Perreng quem me levou a tatuar as palavras de Gandhi por dentro do peito: “Há o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas, não há o suficiente para a cobiça humana.” 

A ideia de que falta comida no mundo parece óbvia. Não é. O que falta é justiça!… Além de haver diversidade e terra e mãos suficientes, uma das peças fundamentais do Combo da Escassez é a base de cálculo dos psicopatas detentores deste mercado que influencia toda a economia. Para muito além do saudável, suficiente, sustentável, do estresse sistêmico, do consumismo na alimentação, da compulsão adolescente pela comida industrial, desse crescer artificialmente da economia, da masturbação alimentar global e linearidades afins é que brotam os números sempre favoráveis às transnacionais de alimentos e seus sócios… E eles produzem, produzem, produzem, e a fome continua… Se há fome, há negligência!

Não há nada de errado em gostar de comida. O que pega é a ampla inconsciência alimentar, o bizarro de hábitos vendidos como bons, mas que fazem a produção pornográfica de alimentos parecer insuficiente quando toda a questão é de vontade política!

O que tenho desejado aos que aceitam a si mesmos em suas consciências é que tenham forças para ser quem são, sem que precisem conhecer Dr. Perreng pessoalmente, que consigam escolher pela própria saúde nessa sociedade em que as pessoas não se importam em adoecer — a si mesmas e aos filhos e ao mundo — contanto que sejam aceitas como comensais na orgia de mercado que já está consumindo, logo ali, o futuro dos adolescentes de hoje!

Pornografia é coisa só de adolescentes? Cada um sabe de suas carapuças…

Mas lucrar no mercado da pornografia alimentar com esse pacotão de hábitos insustentáveis à sombra do padrão de bem-estar burguês é coisa de  adultos. Adultos que faturam bilhões em nome da fome que não saciam. Adultos que faturam bilhões, ainda que não tenham crescido!