Coração, todos têm. Feito de quê? Quem sabe? Uns passaram por têmperas absurdas. Outros só esfriaram. Muitos, nem crus nem cozidos, passaram a vida em banho-maria apostando em garantias mornas. Uns tantos, por fragilidade, ferida, fadiga, trincaram. Muitos corações preservados em gelo compensam parte de tantos que se esvaíram em sangue e tragédias e privações e vícios e rezas de esquecer a dor…

Coração, quem não tem? Até o monstro tem. Até o inocente, vejam só… Escoteiro e puta têm. Anarquista e banqueiro também. Empreendedor psicopata e bombeiro têm. O íntegro e o venal têm… Tem gente que parece que não tem. Mas tem. Sabe que tem, só não se arrisca a procurar…

No coração das pessoas cabe muita coisa além dos bububus e valores rotos do amor romântico, da baba religiosa maniqueísta, dos postulados hipócritas de família e sociedade, das relações apegadas que as estatísticas de normalidade referendam como belas. Cabe sentimento de verdade, lado a lado com o que há de mais artificial em matéria de bem. Cabe dolo, colo, alimento e desdém…

O coração dos outros é sempre mais frio, vai ver porque bate mais longe. Dói, mas sempre menos que este aqui… Dói menos porque sempre tem menos justificativas e razões que este aqui… Porque o erro do coração do outro é mais errado… Desfeitos egoísmos caridosos e possibilidades solidárias, o que bate em seu peito é só seu e continua seu ao aceitar que todos têm coração! E estômago…

Então, por que tanto medo de sentir? Pior, por que tanto medo de agir a partir do que sente?

O coração do outro a gente só sente no abraço, peito com peito, sentido com sentido quando o outro, finalmente, ganha o calor de igual… E a fome do outro, como a gente faz para sentir?

Ah, você não quer experimentar fome alheia. Entendo… Mas você quer entender? Ou precisa de dados para acreditar que existe fome, e mais perto de você que parece?

Como se prova a fome? Há um extrato? Flecha de néon vermelho piscante? É preciso fazer uma peritagem? Dá pra acreditar como em qualquer manchete banal ou é algo vago como um depressivo ter que provar que a “alma” dói? E quando não dá pra ver, quem acredita? E se não acredita, quem ajuda? Quer pergunta sem resposta: – Quem “merece” ajuda segundo a moral vigente?

As equações meritocráticas são afiadas industrialmente pelo senso comum – e cortam a esmo, sem abraços. E quem abraça o outro na fome é o quê?

A fome é uma das experiências mais abjetas da existência. Degradante para todos, revoltante na proporção da consciência política de cada um.

Onde há fome, há negligência!

As coisas não “são assim mesmo”. Talvez, por isso, tantos evitem deter atenção na fome alheia. Porque isto obriga ao resgate de sensos inocentes, revisão de descompaixões e desaprendizados promovidos pelo falso amadurecimento. A fome ainda baila de branco pelo mundo enquanto desperdiçamos mais de um terço da produção de alimentos. Isto é um pedido de retrospecção de valores, um reencontro desagradável com perguntas jamais respondidas…

Em mim, aqueles tempos desenterraram de vez o velho estranhamento adolescente quanto ao mundo dos que se dizem adultos, mas não passam de imaturos birrentos disputando milímetros de poder enquanto a fome grassa milhares de quilômetros ao redor dos entretidos.

Não me perdoe se insisto neste tema… Sei que falo em nome de muita gente. Hoje, sei o que se passa de indiferente no peito de cada mendigo, cada negligenciado, cada humano tratado como invisível… A fome costurou meu nariz definitivamente ao chão. Eu, o que eu sabia e pensava, o conjunto de valores que sustentava meu lugar na sociedade e muito do que aprendi sobre as pessoas e o mundo desmoronaram. O que pensava sobre o ser humano perdeu o sentido como perdeu o sentido a bitola estreita que conduz verdades pseudocivilizadas sobre prioridades, confortos e liberdades.

Vi muitas coisas que não devia ter visto e, entre mendigos e transtornados, conheci de perto o mundo das pessoas para quem a vida tanto faz. A realidade, creia, é pior que qualquer deep web… Insisto, falo em nome de muita gente… Algo em mim puiu de tal forma que perdi, não a doçura, a poesia ou a lucidez, mas a perspectiva que sustentava minhas utopias, a paciência com a demagogia e a hipocrisia comercial, e o respeito pelos indiferentes. Perdi meu olhar cínico sobre o óbvio: foi isso mesmo, perdi o olhar cínico sobre o óbvio e reempilhei minhas prioridades a partir do chão.

Em um planeta de tantos muros, ganhei um muro derrubado para transcender a sisudez que separava certo e errado, bom e mau, mal e bem. Rompido o lacre de dignidade original, percebi no âmago de meu imenso orgulho como é ser negado como pessoa em prioridades extremas, negado como cidadão e como parte deste grande embuste de mercado em que se usam palavras como poeta, filósofo, questionador, sonhador, utópico, como xingamento, enquanto todas as formas de indiferença são apontadas como qualidades, como se abrandassem a crueldade do lucro… Onde há fome, há negligência! Hoje, posso dizer e digo, incansável: é uma minoria absoluta das pessoas que pronuncia a palavra solidariedade com a filosofia, as mãos e o coração.

É… Coração, todos têm. Mas o olhar artesanal, o cuidado, o fio do aço acertado a lima raramente se aplica ao próximo. A ajuda ao outro é restrita aos méritos próprios, às mais vaidosas caridades… Raramente cortamos no próprio coração, e quando o fazemos, não é com qualquer faca nem em grandes bifes. Ao contrário do que dedicamos ao coração dos outros quando julgamos, há que se cortar o próprio coração com faca miúda e própria, muito pouco, com cuidado e livre de juízo alheio para não sangrar demais… Coração, todos têm. Mas quem está imune aos juízos e facadas do mundo? Quem está imune ao juízo moral quando tudo de que precisa é mitigar a fome?

Não, isto não é mero discurso ingênuo. É um discurso exausto para uma pergunta mesozoica, ainda sem resposta: – Não é um exagero o que aceitamos em desperdícios?

Não é uma facada ver comida esparramada em beira de estrada sabendo da fome? Imagine para quem já sentiu o flagelo ao vivo? Mais que indignação, a vontade que dá é de partir para ações indignas!

Mas estamos todxs tão confortáveis e entretidos com nossas despesas e séries de filmes que a fome alheia está sempre perdida em nossas imensas listas de injustiças… Não usamos direito o coração nem para nós mesmos, o que fazer pelo outro? Sacrificamos a vida por tão pouco, fazemos que não vemos tantos equívocos… Tantos de nós vivem envaidecidos dos sacrifícios e méritos que os chantagistas de plantão aplaudem… Tantos fazem de conta que a prosperidade é apenas um excessozinho de opções, questão de design, cores, exclusividades… Não é um grande desperdício investir na diversificação do supérfluo quando há um bilhão de humanos idênticos a nós em direito à vida, à abundância deste planeta – sem comida?

Questionar a fome é poesia, é? É pauta de inocentes? Sentir a compaixão percutindo os tendões é mera utopia? E se o oco banalizado do estômago fosse o seu?

Ah, não é… Então, na eventualidade de conseguir se colocar no oco do estômago alheio, procure entender o que entendi na prática… O ex-bacaninha aqui, apontado como inteligente e educado, bem formado e com uma carreira de sucesso, criativo e bem-referendado, mesmo pleno dos bons modos e traquejos sociais do sistema, adoeceu. Sozinho, improdutivo, incapacitado, sem recursos e no limite, passou por um lapso inesquecível e imperdoável de fome e fraqueza. O ex-bacaninha entendeu ali mesmo que, não bastasse a depressão, seria muito difícil sobreviver, uma vez que em alguns momentos mal conseguia raciocinar. E quase vira refém. Mais refém que os reféns do medo da fome, que os endividados, que os culpados ou aqueles reféns possuídos pela ansiedade alimentar atávica. Reféns, é o que a fome cria! É a plena anticidadania!

Mas tá. A maioria das pessoas só quer sentir o que lhe é conveniente e compartilha da dieta de entretenimentos dentro deste limite. Então, fica difícil ter interesse no empoeirado térreo da realidade. Entre o telejornal e a fuga desesperada para o Netflix, as pessoas engolem meia dúzia de estatísticas e dizem saber da realidade. Saciadas de justificativas, voltam aos seus filmes e preferem dispender seus dias em debates a respeito que, de fato, reeditar o filme real.

Nossa razão não vai além dos números e justificativas? Precisamos de carreirinhas bem batidas de estatísticas no espelho da rotina para conter a sanha de fazer perguntas inconvenientes?

Pause.

Já que muitos precisam de números e termos, e já que o óbvio é insuficiente para nossos privilégios descolados do coletivo, vamos ao que as instituições admitem, uma vez que não disponibilizariam números não justificáveis. Números não são lançados às feras para provocar reações práticas. Acomodam-se no entendimento e, no máximo, as pessoas ruminam meia dúzia de indignidades e voltam a cuidar de seus boletos. A hipocrisia institucional bem sabe que precisa manter o paiol cheio de munição estatística se quiser manter a névoa da inércia sobre os alheios confortáveis a que chamamos civilizados. Mas não custa tentar.

Digamos que você ainda não tenha entendido que o que produz a fome é a negligência. E que negligência, muitas vezes, é postural, não tem a ver com distração, acidente, incompetência.

Digamos que não tenha simpatia por conceitos como direitos humanos, justiça social, distribuição de renda, cidadania e, portanto, não considere como anticidadania a produção de fome.

Digamos que nada faça escorrer um único fio de sensibilidade de seu coração pelo conjunto de valores cabíveis em palavrinhas amorosas que ainda teimam: compaixão, alteridade, solidariedade…

Digamos que bastem números e que se exploda nossa pretensa “humanidade”.

A tal civilização que produz alimentos massivamente a partir do cultivo de apenas vinte espécies vegetais — sonegando trinta mil espécies da diversidade alimentar conhecida — DESPERDIÇA UM TERÇO dos alimentos produzidos. UM BILHÃO E TREZENTOS MILHÕES DE TONELADAS de alimentos não chegam à boca alguma. No planeta da abundância, no capEtalismo vencedor, cerca de UM BILHÃO DE PESSOAS não tem acesso a uma alimentação adequada, sofrem de desnutrição ou não fazem parte de protocolos de Segurança Alimentar.

Não são números da culinária esquerdopata, não. São dados da ONU, de 2014 e FAO 2016. Dados que, decerto, além de superficiais, estão desatualizados e subestimam detalhes torpes como a regulação de preços no mercado a partir da destruição de excedentes. E há também negligências diplomáticas, divergências ideológicas, embargos, guerras, torções políticas e outras gracinhas dos pavões institucionais alheios ao que arde no estômago desse bilhão de gentes…

Entre nós, brasileiros, o desperdício também está nas entrelinhas do tratamento dado à cidadania no país, a partir da exploração de recursos, dos maus-tratos dispensados ao meio ambiente. Nada justifica, mas entre omissões na educação e negação de pautas fundamentais pela mídia, segundo o WRI – Brasil [ Brasil World Ressources Institute ],o Brasil desperdiça QUARENTA E UMA MIL TONELADAS de alimentos ao ano. Aos que têm fome de números e outros dados, ao final do artigo, alguns linques.

Play.

Não faltarão justificativas para tentar convencer às pessoas de que é perfeitamente natural haver tamanha desigualdade no acesso ao alimento ou a uma alimentação de qualidade. Não é. Primeiro, porque estamos falando em visões industrialistas, artificiais e que, por si só, desperdiçam recursos e produzem desigualdades sociais. Segundo, porque não se trata apenas de números, mas de deflagrar ações sociais para além do poder de consumo. A natureza da fome é política e as instituições públicas estão se transformando em mestres em despejar desesperados no mercado… A negligência faz parte de uma série de confortos morais neste mercado amoral cuja justificativa para tudo é sempre a negação do óbvio…

No entanto, estamos diante de um grave quadro de degradação socioambiental, drásticas Mudanças Climáticas que afetarão sobremaneira a produção de alimentos e as populações menos favorecidas pelas próprias ocorrências naturais. Não bastasse, o mundo está adernando cada vez mais para a moral privada com o reconhecimento de toda sorte de psicopatias como predicados de poder e sucesso, há questionamentos cada vez mais frontais à atuação do Estado… Como ousaremos pensar em sustentabilidade, como daremos conta das Mudanças Climáticas, do pouco conquistado com a Agenda 2030, se navegamos cada vez mais pelo viés corporativo? Como isto afetará o acesso á alimentação? São questões urgentes que precisam ser debatidas com toda a sociedade enquanto é tempo, uma vez que os recursos naturais do planeta estão sendo privatizados a toda velocidade…

Não custa lembrar que todas as iniciativas institucionais de sustentabilidade, arduamente costuradas ao longo das últimas décadas — notadamente, da Eco 92 [Agenda 21] para cá — são de fundo humanista e ecológico, de nítida visão holística e com forte apelo coletivista, enquanto a “lógica” industrialista do mercado, o “espírito” corporativo, preservam a tônica do capital – linear, individualista, meritocrática.

Mas nem tudo é mercado, ainda que não faltem vampiros tomando posse de todas as causas… Crescem por todo o planeta iniciativas populares, com ou sem apoio governamental pela produção sustentável de alimentos e o empenho em modos de produção agroecológicos que priorizem a agricultura familiar com ênfase na produção e consumo regionais o que, certamente, é muito mais eficaz na promoção de alguma segurança alimentar, no reconhecimento da diversidade alimentar e nutricional, na erradicação da pobreza e na redução de um sem-número de desperdícios, a começar pela bendita água.

O desperdício é um dos componentes mais sórdidos e insustentáveis do Combo da Escassez. E quando digo que números não são autoexplicativos é porque o desperdício não é pontual. Está na forma como aprendemos a viver, em nossos hábitos de consumo mais “inocentes”. No consumo absurdo de água para produção de tudo que consumimos, no nosso modo de morar, de trabalhar, de prover o sustento, de comer; nos passivos ambientais gigantescos gerados para extração e beneficiamento de recursos naturais, na produção industrial, na logística comercial… Hoje, falar em sustentabilidade sem otimizar processos, sem reduzir drasticamente os desperdícios, sem deter a devastação ambiental e questionar frontalmente o consumismo e o investimento em supérfluos é negar às próximas gerações as poucas escolhas que restam… Em suma, a produção de desigualdades sociais pelo próprio mercado é, em si, a insustentável perpetuação do desperdício de vidas, de recursos e de futuro. O desperdício é muito mais amplo que a desesperadora montanha de alimentos perdidos.

A manifestação maior da Desigualdade Social é o apego aos privilégios, o estímulo — institucional, inclusive — a hábitos pertinentes ao padrão burguês de bem-estar, consumismo, ostentação, especulação e desperdício que naturalizam os números como se não houvesse pessoas por detrás das toneladas de alimentos à beira das estradas… Beira o absurdo, à direita e à esquerda, falar em bem-estar social sonhando promover países inteiros a consumidores dos mesmos bens materiais supérfluos e modos de produção pautados na escassez que estão destruindo o planeta. Isto fragiliza sobremaneira qualquer política pública indireta de combate à fome e banaliza a palavra “justiça”, uma vez que desconsidera prioridades chãs enquanto direitos. A desigualdade social não está no acesso aos bens de consumo, mas no acesso às mais óbvias garantias civilizatórias que, não raro, fincam pé no papel e deixam o desalento criar mercados…

Lembrando que o Brasil é signatário da Agenda 2030 e que cada ODS – Objetivo de Desenvolvimento Sustentável – é transversal aos demais, muita gente desinformada no Brasil atacou e ataca os governos petistas por sua postura intransigente no combate à fome. No entanto, o que tais governos conquistaram, ainda que perecível, é comemorado em diversas partes do mundo, justamente, por apontar caminhos para um nó institucional que é meta de sustentabilidade global, mas não se resolve com meritocracias…

E se, de repente, compreendêssemos o quanto estamos longe de nossa natureza solidária? E se percebêssemos o quanto os valores da economia em vigor são perversos para o coletivo humano e os recursos naturais disponíveis para seu futuro? E se considerássemos que, de fato, queremos um mundo melhor e, para tanto, será preciso ir além dos números, além do que é propagado como verdade, ir além do óbvio negado e, simplesmente, caminhar pelas cidades e olhar as expressões de peso e incompletude que cada rosto carrega? E se, de repente, ficasse claro para muita gente que temos sustentado uma farsa da qual obtemos mínimos benefícios enquanto endossamos a fome no mundo e o roubo do futuro por meia dúzia de gente que perdeu o coração?

Se, em outros tempos, havia fome por inúmeros motivos, não há justificativa para os números que aí estão e diante de todos os recursos disponíveis hoje. Tenho para mim que a medida de humanidade de alguém passa pela capacidade de compreender que mitigar a fome é inexorável se pretendemos continuar falando em civilização.

A fome do outro é o registro de que estamos todos sujeitos à fome. E se você acordasse um dia e compreendesse que onde há fome há negligência? E se sentisse em seu coração que a negligência é sempre farta em justificativas para a falta de atitude?

http://www.agenda2030.com.br/meta.php?ods=12

http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2016-06/brasil-desperdica-40-mil-toneladas-de-alimento-por-dia-diz-entidade

http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-07/producao-de-alimentos-e-suficiente-mas-ainda-ha-fome-no-pais-diz

http://www.mst.org.br/2016/09/10/governo-temer-ameaca-chamar-de-volta-o-brasil-para-o-mapa-da-fome.html

http://www.unicamp.br/unicamp/ju/673/brasil-deixa-o-mapa-da-fome-mas-requer-acoes-sobre-seguranca-alimentar

https://www.nexojornal.com.br/grafico/2016/07/29/A-situa%C3%A7%C3%A3o-da-fome-no-mundo-hoje