No último domingo, na câmara dos deputados em Brasília, foi dado o aval para o início do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff e assim oficialmente incluída na mitologia moderna brasileira a ” Lenda do Éden pós-PT”.
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Usando – e abusando – da alienação política endêmica nacional, golpistas e a grande mídia convenceram uma parcela significativa da população de que os males do país se concentram no PT; tirá-lo do poder e se possível extingui-lo, resolverá todas as mazelas sociais, éticas e econômicas do Brasil.
Até boa parte dos iludidos que possuem raciocínio um pouco mais sofisticado que os completos analfabetos políticos parece ter deglutido tal versão e com mínimas variantes; os que não consideram o PT fonte única dos males da nação entendem que depois de extirpado o partido dos trabalhadores chegará a hora dos “demais corruptos”, desconsiderando de forma pueril nesta alternativa que os chamados “demais corruptos” são exatamente os que assumirão o poder com a queda de Dilma – e que não permitirão sua própria derrubada.
É certo que o PT fez sua cama com cobras dentro das fronhas; aliou-se ao que há de mais podre na política nacional e sofre agora os efeitos destas escolhas. Defendem alguns que essa foi a única alternativa para implementar um pouco de justiça social, com o que não concordo: sempre deve haver alternativas éticas a juntar-se aos porcos no chiqueiro.
Além das alianças espúrias vale dizer que o modelo desenvolvimentista de Lula se esgotou; e a conta sobrou para Dilma.
Assim a presidenta vem realizando um segundo mandato execrável, sob quase todos os pontos de vista: de comunicação, político, econômico e até social. E apenas os petistas mais fanáticos hão de discordar disso.
No entanto nem o pior governo pode, num regime presidencialista, sucumbir por mediocridade; a constituição brasileira reza que impeachment só se aplica em caso de crime de responsabilidade – e isso Dilma não cometeu. Além do mais um processo de destituição de uma presidenta notadamente honesta conduzido por uma figura imoral como Eduardo Cunha não poderia ser apoiado por quem imagina furtivamente que a corrupção é o mal que assola o Brasil – há uma contradição criminosa nesta postura.
Vende-se em todas as emissoras de TV e em todos os discursos de políticos golpistas que o futuro sem o PT é uma espécie de paraíso: corrupção extirpada, risco de comunismo eliminado (como se chamar o PT de “comunista” não fosse indigência intelectual suficiente), diferenças de classes resolvidas (como se a luta de classes fosse invenção petista e não constatação brilhante de Marx para a fundamentação de suas teorias) e o Brasil, repleto de fadas e elfos, ressurge pronto para ser feliz de novo – como se felicidade pudesse ser uma virtude coletiva e como se nosso país tivesse no passado momentos memoráveis de conquistas sociais antes de Lula.
SMXLL

Assim, segundo a rede Globo e Bolsonaro, no Éden pós-PT a economia crescerá com práticas neoliberais, pois é isso que importa – ainda que às custas de direitos sociais e trabalhistas conquistados a base de suor e sangue.
O que não dizem é que no Éden pós-PT a felicidade durará o tempo de um espirro de Eduardo Cunha.
Mas quando os apoiadores – inocentes e dolosos – do golpe se derem conta disso, será tarde demais.
Tarde demais para a jovem democracia brasileira, que jazerá em túmulo de perigosíssimas jurisprudências golpistas.
E tarde demais para todos nós.