Não é tão exagerado dizer que a internet já se converteu em uma espécie de esgoto do mundo. Difícil imaginar a dimensão que isso tomará conforme forem se acumulando os avanços tecnológicos no mundo virtual, ao longo dos próximos anos. Como sanear esse ambiente, se a tendência é justamente o contrário, se o que vai se espalhando mais e mais é o chorume nascido da explosão de ódio? Como então frear esse ódio se ele se tornou a própria linguagem e opera como vício? A estupidez humana não só encontrou um espaço seguro, como há claras evidências de que esse lugar matrixiano deve crescer, deve tomar nossas vidas.

O politicamente correto pode até ser chato, mas era um fenômeno civilizatório. E não de imposição de uma civilização sobre outras, como geralmente acontece, mas de sistematização do respeito à diversidade. Em um mundo globalizado a partir da expansão do capitalismo mais selvagem, ou há certas regras de convívio ou o que há é a barbárie. O neoliberalismo deixou o caminho aberto para que os mais fortes passem como rolo compressor por cima dos mais fracos, que devem, aliás, aceitar o flagelo e “não se fazerem de vítimas” – e esse processo se reflete cotidianamente no campo das relações humanas. Apesar de toda a História feita até aqui, mulheres, homossexuais, pobres, esquerdistas, negros e indígenas, entre outros grupos, não têm mais outra alternativa a não ser aceitarem que irão permanecer com sua subcidadania, ou, em alguns casos, que simplesmente desaparecerão do mapa.

Vale lembrar que parte da culpa cabe aos próprios setores marginalizados, que têm se perdido em alguns radicalismos de suas pautas identitaristas e, consequentemente, têm sido incapazes de encontrar os pontos tangenciais que poderiam unificar seus discursos e os fortalecer. Se o poder dos poderosos é, hoje, imbatível, a estratégia de união, para médio e longo prazos, poderia surtir algum efeito. O que acontece é que, falando de modo prático, parece não haver, atualmente, mecanismo político capaz de costurar essa aliança e viabilizar uma crítica mais contundente, uma fala contrária ao sistema que não seja objeto de humilhação permanente. Enquanto for assim, o questionamento ao status quo é uma heresia. Porque são hereges aqueles que questionam. A demonização de determinados grupos e comportamentos se completa ao se multiplicar na internet. A forma agressiva e ignorante com que isso se dá é parte do fenômeno. A interface da imbecilidade, por enquanto arquitetada fundamentalmente a partir das caixas de comentários nos portais de notícias e memes no Facebook, pode vir a se tornar algo maior, insustentável? E se o mundo virtual da maneira como se conforma hoje, em sua estupidez resguardada pelas distâncias, for um dia a maior parte de nossas vidas? Que tipo de humanidade será essa?