Era domingo e eu estava  de plantão. Acabara de receber um caso gravíssimo de um jovem de 25 anos com suspeita de dengue e já apresentando complicações hemorrágicas. Ele precisava ser transferido imediatamente, mas não houve tempo. Sangramento gigantesco no estômago, derrame pleural impedindo que respirasse normalmemte, e a morte. Todas as complicações vieram como uma avalanche irremediável para os recursos disponíveis em uma unidade do interior, capaz de prestar só o primeiro atendimento de casos como esse.

8 horas da manhã e eu precisava dizer a um pai que conversava com seu filho havia 30 minutos que ele estava morto. Tem horas que ser médica é horrível. São momentos de questionamento, tanto da minha utilidade como da minha vocação. Reverbera na cabeça um egoísta “Será que eu tenho mesmo que passar por isso?”

Saí da sala de emergência, entrei no consultório, preparei o local, me preparei, respirei fundo e pedi pra que a família também entrasse.

“Vocês trouxeram o João aqui hoje com quais sintomas? O que ele estava sentindo?”

“Dores no corpo, febre e falta de ar. Acho que é dengue. Ele ficou enrolando pra vir. Não queria sair de casa. Só veio hoje porque a falta de ar tá muito forte.”

“O senhor tem razão. A suspeita é mesmo de dengue.”

“E como ele está?”

“Com a evolução desta infecção, pode ocorrer uma queda de plaquetas no sangue e isso faz com que haja mais chance da pessoa ter hemorragias. O que ocorreu no pulmão foi algo gravíssimo. Um derrame pleural muito grande que impedia que ele respirasse normalmente. Agora cedo, enquanto tentávamos conseguir a transferência dele para o cti, ele teve um grande sangramento no estômago. Fizemos tudo que estava ao nosso alcance. Usamos todos os recursos que tínhamos para tentar estabilizá-lo e transferi-lo, mas não foi suficiente. Ele não resistiu.”

O pai abraçou seu outro filho e chorou silenciosamente por 5 ou 10 minutos. Levantou, enxugou o rosto, veio em direção a mim, me abraçou por um longo tempo.

“Obrigada por ter cuidado dele. Ele era o meu tesouro. Tenho certeza que, de onde ele estiver, ele também vai cuidar de você, como você fez por ele.”

Estranhando tanta serenidade (sou das que se descabela desorientada e sem rumo), respondi:

“Meus sentimentos.”

Ele saiu, eu chorei. Liguei para os meus irmãos e contei a história.

“Cuidem bem de vocês. A mãe e o pai não podem nunca passar por isso.”