Como todo bom torcedor, além do clube ou clubes do coração, fui colecionando ao longo da vida meus jogadores favoritos, ou seja meus ídolos. Muitos deles jogaram ou jogam pelos times por que torço, outros, apesar de nunca terem vestido as cores pelas quais torço, ou mesmo sem tê-los visto jogar, igualmente ganharam meu afeto. Principalmente, um tipo muito raro de jogador, aquele que é um craque dentro e fora do campo. Explico.

Imagine um jogador de estilo refinado, futebol clássico, capaz de antever as jogadas, autor de gols espetaculares, driblador mágico, membro de um dos maiores times que já existiram neste planeta e que ainda por cima pensa e escreve sobre o futebol e a vida como poucos. Imaginou? Para quem compartilha a ideia de que o futebol é simplesmente o “ópio do povo” ou que jogadores de futebol são por definição uns ignorantes, fica difícil de imaginar um perfil assim. Pois bem, embora este perfil esteja longe de ser dominante no meio futebolístico, existe um jogador, ou melhor, ex-jogador assim, trata-se do grande Tostão.

Me nego a descrever sua trajetória aqui, pois acredito que quem não sabe quem é o Tostão, não sabe muita coisa do país em que vive. Para os que o desconhecem, aconselho uma “googlada” de emergência, antes que sua vida acabe e você passe por ela sem saber quem foi Tostão. Vai que ainda dá tempo!

Para os que o conhecem minimamente, deixo também outro conselho de emergência: leiam seu último livro “Tempos vividos, sonhados e perdidos: um olhar sobre o futebol”. Não sou crítico literário, muito menos dono da Companhia das Letras, mas mesmo assim recomendo vivamente a leitura deste livro, onde no qual Tostão reflete sobre sua trajetória no futebol, sua vida pessoal e sobre a História, com um certo ar poético, meio Proust, meio Rosa e muito mais.

São muitas as passagens em que vale a pena passar a caneta marca-texto ou copiar no bloquinho de notas, como esta, em que ele tenta definir sua posição entre o futebol-arte e o futebol-força, e que vale para muitas outras situações da vida: “Sou um homem racional e sonhador. Vivo em conflito com os dois olhares e sentimentos. Os dois são essenciais, mas com frequência, não combinam. Um quer saber mais que o outro; um quer ser mais importante que o outro.”

Tostão, com seus escritos e a lembrança de seu estilo de jogo refinado, é aquele tipo de ídolo raro, alguém que escreve e pensa tão elegantemente quanto jogava. Um gênio cubista, portador de diferentes faces que se completam em um mosaico fascinante. Um gênio de múltiplas faces.