Após o Golpe de 1964 os jornais noticiavam que não havia sido um golpe. Os golpistas, ou melhor, os golpeiros (preventivamente usamos o neologismo ainda não censurado) eram ovacionados por boa parte desta nação como condutores ao futuro próspero, distante de qualquer sistema maleficamente igualitário. Distante dessa coisa ameaçadora da ordem chamada Direitos Humanos.

O argumento era simples: buscava-se o progresso, quem era contra merecia o castigo. Merecia a tortura. Ansiava pelo pau de arara. Merecia ser interrogado diante dos móveis de estilo rococó das unidades do Deops, sob olhar cínico e sarcástico de delegados sedentos por punir, enquanto ouvia, vindos de salas próximas, gritos de colegas que eram golpeados nus, pendurados de cabeça para baixo.

Mas eles “mereciam”, clamava boa parte de membros dos aparatos estatais. E também da população. Parte tão significativa que não mais permite que, ingenuamente, nos refiramos ao Golpe de 1964 como “militar”. Encaremos: foi tão militar quanto civil.

Destes merecedores, muitos foram mortos – fuzilados, torturados- em nome da assepsia ideológica. Vidas brutalmente interrompidas pelo Estado e que contaram, durante décadas, apenas com o apoio da própria família e com testemunhos de colegas que não encontravam eco para fora dos dispositivos de repressão.

Afinal, a luta havia de ser punida. Para alguns, era algo natural e nada digno de choque. Às vezes, pelo contrário: comemorava-se.

Eis o lado terrível da violência estatal: sua banalização.

Eis o lado mais terrível possível: apoiá-la ao ponto do prazer.

Diz o ex-Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo que “aquele que perde a capacidade de se indignar diante da injustiça, perdeu sua humanidade”. O que motiva a citação de Cardozo é simples: somos tão passíveis de dor e sofrimento quanto os outros, aos quais nos assemelhamos mais do que gostaríamos. É uma citação, sobretudo, que iguala.

Em contrapartida afirma a advogada Janaína Conceição Paschoal- líder e/ou coautora do ridículo, apaixonado e religioso processo de Impeachment deste maltratado ano de 2016- ser apoiadora de vergonhosas teses revisionistas sobre a violência estatal praticada durante os anos da Ditadura declarada. “Eram terroristas”, afirmam as teses que Janaína partilha. As mesmas e tristes teses esbravejadas por Olavo de Carvalho, o filósofo cínico-mor do olhar histórico leviano. Não só leviano: criminoso.

Sim, criminoso. Pois crimes contra a humanidade praticados pelo Estado não são meros temas para almoços dominicais ou posts polêmicos no facebook. São, em última instância, crimes passíveis de punições. Mesmo que elas nunca cheguem. Mesmo que aqui, em nossa amada terra brasilis, a impunidade dos criminosos ainda permaneça nossa marca registrada. Pune-se, às vezes, mas jamais os verdadeiros merecedores.

Mas enfim, a precária tese de Janaína venceu. Menos por coerência ou pertinência- tampouco por conter alguma verdade- e mais pela Vontade (exato, com V maiúsculo) de encontrar algo, a todo e qualquer custo, que ultimasse o governo de Dilma Rousseff. Não sejamos ingênuos quando o tempo não permite: Dilma não foi punida por qualquer dos muitos erros que cometeu. Erros que não caracterizaram crimes, aliás.

Dilma foi punida por seus acertos.

Janaína, por enquanto, venceu.

Resta saber se vencerá sua tese que justifica a violência estatal.

Resta saber se prosseguiremos com essa metodologia de repressão violenta aos atos de manifestação pública (iniciados na Copa de 2013, sejamos justos).

Resta saber se prosseguiremos com o ódio descabido aos mais vulneráveis e socialmente injustiçados.

Resta saber se seguimos aceitando uma economia pervertida por juros criminosos, enquanto vociferamos contra os programas estatais de desenvolvimento social igualitário que não são meros gastos e sim obrigações!

Resta saber, enfim, se continuaremos a nos digladiar circulamente, sem jamais enxergar aqueles que são nossos algozes.

Algozes que na última semana nos tiraram o governo democraticamente eleito e agora nos incitam ainda mais uns contra os outros, nos convencendo de que não somos merecedores de direitos conquistados após longo- longuíssimo-  processo histórico.

Direitos ameaçadores de seus próprios privilégios. Direitos que, usurpados, abrem margem para seus rendimentos criminosos, calculados por minuto, à custa dos que trabalham uma vida toda e, pelo visto, trabalharão ainda mais.

De uma coisa já sabemos: o próximo passo será reprimir e criminalizar qualquer reivindicação popular com toda a força que tiverem.

Faremos coro contra nossas próprias justiças?

Resta saber, enfim, se enxergaremos a serviço de quem estamos. E se lutaremos, unidos, a favor de nós mesmos.

Arrisco a previsão: não, não enxergaremos.

Ao invés, esqueceremos.