George Orwell, em “1984”, descreve magistralmente uma sociedade totalitária, controlada pelo Grande Irmão, uma entidade que vigia cada passo dos cidadãos.

Hoje, mais de 60 anos após a publicação do livro, vivemos um fenômeno que guarda semelhanças com o sistema romanceado por Orwell. Contudo, há diferenças significativas. A principal diferença consiste no que chamo de “caráter ativo”: no livro, a privacidade é “confiscada”; no século XXI, oferecida.

É incontestável que a internet expandiu admiravelmente as possiblidades do homem em vários âmbitos. E, em larga medida, as redes sociais são usadas para o compartilhamento de conhecimento, experiências e diversão. No entanto, como não existem fatos unilaterais, ela trouxe consigo a pulverização e a publicidade de informações que nem sempre são “públicas”. É provável que aí resida o cerne da questão: grande parte dos usuários das mídias sociais (principalmente os nascidos a partir da última década do século XX) tem dificuldades em estabelecer as fronteiras entre o público e o privado. Não percebem que ao escrever uma frase e clicar em “publicar” estão gritando aquela sentença em praça pública para os “amigos” (sobre o conceito de amizade virtual é preciso uma longa reflexão). Em tempos nos quais não havia internet, quem berraria aos quatro ventos que comprou suplementos alimentares para que os exercícios na academia sejam mais profícuos, por exemplo? Ou que está com dor de barriga por causa do bacon que comeu?

Há quem não consiga ficar sequer um dia sem acessar Facebook, Instagram, WhatsApp e afins: necessidade fisiológica. Inclusive está emergindo uma demanda de psiquiatras especializada em vício virtual. Se analisarmos de perto a questão, poucos são os que não se expõe: desde os que mostram a vida feliz com fotos e frases de efeito, passando pelos revolucionários, poetas e humoristas até chegar aos “reclamões” que usam a internet como “muro lamentações”. Também não podemos esquecer daqueles que auxiliam ladrões ao compartilharem informações sobre a viagem que a família está fazendo, sobre o que há de valor na casa, se há cachorros etc. Com a mesma intensidade que expõem a própria vida, tais pessoas precisam saber sobre o outro. E, assim, as redes sociais transformam-se, ao mesmo tempo, numa vitrine de egos e num antro de bisbilhotagem.

Mas por que, em tempos atuais, emergiu tão veementemente essa necessidade de exposição?

Na verdade, isso não é novo. Sigmund Freud, no início do século XX, trouxe à tona sua teoria do Complexo de Dora ou, simplesmente, Narcisismo em que discute sobre o indivíduo que a todo momento carece de autoafirmação. O próprio mito no qual Freud se inspirou é um indício de que, desde a Grécia Antiga, é patente essa questão. Sete décadas depois de Freud, Michel Foucault explorou a noção de “confissão”. Grosso modo, afirma o filósofo que alguns sujeitos têm uma necessidade quase doentia de falar sobre si. E falar sobre si é, sobremaneira, abrir mão da privacidade.

Ambos os pensadores tocam num ponto fundamental: a necessidade de se sentir querido. E, na era da sociabilização virtual, por algumas pessoas isso é mensurado através do nível de interação com as suas postagens. O artista pop Andy Warhol, nos anos 60, prognosticara que num futuro próximo todos teriam 15 minutos de fama. Na segunda década do século XXI, os 15 minutos se transformaram em 15 ‘curtidas’ ou 15 ‘compartilhamentos’. Contudo, tal admiração ou fama são ilusórias, já que são efêmeras e voláteis como quase tudo na rede.

Ponto importante relacionado às redes sociais é o estreitamento da experiência sensorial ou, em outros termos, o aumento da incapacidade de fruir o instante “fora da internet”. Exemplos triviais: o sujeito está no bar, com um grupo de amigos e não desgruda os olhos do celular. No trabalho, conversa com os colegas da mesma sala por mensagens instantâneas. Vai ao museu, ao show, à festa e se preocupa mais com as fotos para postar do que com o evento em si. Alguns conversam tanto pelas telas que falta assunto quando se encontram pessoalmente. Eis o paradoxo que já virou bordão: estamos perto de quem está longe e longe de quem está perto. Vale ressaltar ainda: com as redes sociais, perdeu-se muito do quesito “surpresa”: antes de um encontro, perguntas do tipo “como serão os olhos dela?” não fazem mais parte da vida de quem usa Facebook. E por aí vai.

Dizem que os poetas têm mais sensibilidade para traduzir momentos penumbrosos. Fernando Pessoa escrevera, certa vez, algo como: “quanto maior a necessidade de se mostrar, mais fundo é o buraco na alma”. Faz sentido para os nossos dias: embora as possibilidades comunicacionais tenham aumentado com a internet, as pessoas parecem estar cada vez mais solitárias. E, como remédio, escancaram a vida nas mídias sociais.

O Grande Irmão está de volta. Todavia, diferente do romance do Orwell, não se trata de uma instância superpoderosa, mas de mim, de você, de todos nós que estamos presos à rede.