Sou freqüentemente acusado de ser indócil, mal-humorado e rezingueiro. Não ver o lado bom das coisas parece ser um pecado mortal numa época em que todos riem e demonstram otimismo enquanto o mundo se esfacela. Um terremoto dizimou cem mil pessoas na Turquia? Não reclamem! Relevante é o milagre que manteve viva uma criança sob os escombros de um prédio. Um maremoto exterminou duzentas mil pessoas na Indonésia? Bobagem! Digno de nota é o cestinho que boiava na água embalando um lindo bebê. Um furacão matou centenas de pessoas e deixou milhares de desabrigados na Mongólia? Nada, nada! Importante foi a bravura do menino que, agarrando-se num poste para não ser arrastado pelos ventos furiosos, conseguiu sobreviver. O milagre de uma vida é sempre mais importante que o horror de várias mortes.

– Você é incapaz de ver o lado bom das coisas – sentenciou, em tom de admoestação, um dos meus amigos. – Vive reclamando de tudo, como se o mundo fosse um palco sombrio de hecatombes e catástrofes, misérias e decepções, sofrimentos e flagelos.

– Queixas, lamúrias e acusações não fazem bem para a saúde, nem angariam simpatizantes – filosofou outro cupincha.

– Você precisa adotar uma postura mais amável em relação aos dramas da vida – aconselhou um camarada.

Se as críticas tivessem vindo de um estranho, eu não teria dado maior importância. Mas como vieram de amigos em cujo discernimento e em cuja sabedoria eu sempre confiara, decidi mudar o meu comportamento, antes que me tornasse um chato de galocha. Dali para frente, decidi, eu seria um novo homem, um homem mais amável e bem-humorado, mais otimista e dócil, mais simpático e agradável.

A oportunidade para começar a nova carreira veio logo no dia seguinte, quando avistei um macróbio pedindo esmolas no centro de Goiânia. Na verdade, era um mendigo que eu via todos os dias nas cercanias do Teatro Municipal, às vezes deitado sobre um pedaço de papelão nas escadarias do prédio, outras vezes estendendo a mão enconchada a transeuntes indiferentes. Não vou dizer que era feio e repugnante como o Quasimodo, pois, se ele e o corcunda participassem de um concurso de feiúra, o adorável personagem de Victor Hugo provavelmente ficaria em segundo. Era difícil olhar para ele sem sentir vontade de chorar: suas bochechas descarnadas pareciam ter sido comidas por um rottweiller; os olhos eram tão mal-alinhados que um se engastava no meio da testa, enquanto o outro ladeava a asa do nariz; a boca comportava somente dois dentes, ambos estragados; às orelhas faltavam os lóbulos e um bocadinho de asseio (os pêlos que saiam de seu orifício auricular formavam uma moita tão espessa que poderia abrigar uma colônia de pulgas); os lábios arroxeados exibiam ferimentos tão profundos que pareciam ter sido colhidos numa rinha de galos. Em suma, o homem era pavoroso.

Eu podia ter ficado penalizado com o seu aspecto teratológico, e injuriado os céus por haver permitido uma existência tão desgraçada, e imprecado contra a severidade do destino, e isso e mais aquilo, mas eu estava decidido a ser um novo homem, e não seria qualquer bobagem que iria me abalar. Era preciso encontrar o lado bom das coisas, mesmo que aparentemente não houvesse nenhum. Pus-me então a examinar aquela carcaça humana, aquele amontoado de escombros, tentando descobrir o que podia se salvar naquele mar de fealdade. Por fim, encontrei uma coisa da qual ele podia se orgulhar: a vasta cabeleira loira que despencava sobre seus ombros como uma cascata dourada. Ora, não é fácil chegar à velhice conservando os cabelos. Quantos matusaléns podem se gabar de ter os cachos da juventude?

Dias depois, quando me dirigia para a casa de uma amiga nos arredores de Goiânia, tive uma segunda oportunidade para esgrimir a minha nova atitude. Na esquina de uma rua ladeada por prédios decrépitos e construções imemoriais, avistei um velho casarão em chamas. Enchendo-me de uma coragem que não suspeitava ter, abri caminho pela turba aglomerada na calçada e me precipitei para o interior do casarão, sem pensar nas conseqüências. A primeira coisa que ouvi ao atravessar a porta da frente foram os vagidos de um bebê, vindos aparentemente do segundo andar. Subi correndo as escadas, arrombei uma porta e me lancei no quarto infernal onde as chamas devoravam o corpinho da criança. Felizmente, havia ao lado do berço um baú com vários artigos de cama. Apanhei um cobertor e o usei para extinguir as chamas. Quando enfim consegui, peguei o bebê nos braços e o levei para fora.

Ao ganhar a rua, fui saudado com aplausos vigorosos, exclamações laudatórias e um coro empolgado de “esse é o nosso herói”. Mas o entusiasmo durou pouco. Tão logo percebeu o estado dramático do bebê, a multidão caiu num estupor tão profundo que ninguém conseguia mover os lábios. É que o corpinho frágil e delicado da criança ainda fumegava, como uma turbina de avião que tivesse explodido, e a pele do rosto, do pescoço, dos braços e das pernas derretera e se fundira com os músculos, dando-lhe a aparência de um rolo de fumo. O único que conservou a serenidade em meio à comoção geral fui eu. Não vi motivos para entrar em pânico ou ficar horrorizado. Afinal de contas, o bebê estava vivo e, o que é mais importante, ainda respirava.

Por fim, aconteceu algo ainda mais extraordinário. O helicóptero que transportava um ator global se espatifou ao cair na Baía de Guanabara, matando todos os tripulantes, o que fez o Brasil mergulhar numa comoção profunda. A TV não parava de martelar sobre a tragédia e de exibir matérias sobre o galã, com depoimentos lacrimosos dos colegas de trabalho propalando os seus feitos. Nas sacadas dos edifícios, viam-se faixas com mensagens de agradecimentos, e fãs histéricas reverenciavam o ídolo acendendo velas, rezando, urrando, carpindo… Devo ter sido a única pessoa que não se deixou abater, pois tinha um ótimo motivo para manter a calma. O corpo de todas as vítimas fora resgatado, permitindo às famílias realizar o enterro. A mesma sorte não teve os familiares do finado Ulisses Guimarães, cujo corpo desapareceu para sempre na profundeza do rio onde o helicóptero que o levava se espatifou em 1992.

Essas experiências me mostraram que os meus amigos estavam mesmo certos. Ver o lado bom das coisas é uma atitude muito mais saudável e reconfortante do que ficar fazendo drama por conta de qualquer bagatela. Depois que aprendi a ver o lado bom das coisas, minha vida mudou da água para o vinho: hoje minha companhia é agradável para os meus amigos, as mulheres olham para mim com mais interesse, as oportunidades profissionais aparecem com mais freqüência. Nem todo mundo, é claro, gostou da mudança. Minha mãe, que está tetraplégica desde que quebrou a coluna cervical, disse que eu fiquei bobo. Mas acho que ela só pensa assim porque ainda não aprendeu a ver o lado bom das coisas.