Muito já falamos sobre a inclusão pelo consumo promovido pelo lulismo. Mas não comentamos a ausência da inclusão política. Quero propor uma brevíssima narrativa sobre este processo de inclusão dos excluídos socialmente na política brasileira, a partir dos anos 1980.

Nos anos 1980, todas as forças políticas marginalizavam de fato (nem sempre era a intenção teórica) os excluídos, as classes subalternas. Ou havia o vanguardismo de esquerda, ou o elitismo liberal-conservador ou o clientelismo arrogante. O PT, no caso, emergiu como receptáculo dos diferentes e excluídos. Para quem participou de sua construção, sabe como foi emocionante. Lideranças sociais das periferias dos grandes centros passaram a falar deste partido. Em reuniões nos bairros, à noite ou nos finais de semana. Sindicalistas. A articulação dos rurais foi algo épico. Foram reagindo em localidades isoladas. No primeiro encontro nacional, que narro no meu livro “Terra de Ninguém” (Editora Unicamp), a maioria nunca havia se visto e… foram humilhados pelos sindicalistas urbanos a ponto de se revoltarem, o que acabou exigindo a mediação enérgica de Frei Betto (dado o papel aglutinador da Teologia da Libertação naquele período).

Pulando etapas, nos anos 2000, os excluídos foram abandonados pelas organizações políticas, mais uma vez. Foram atendidos em algumas de suas demandas, mas houve nítida tutela estatal. Não se abriu uma única fresta na porteira da entrada da Porta da Esperança da política formal. Os conselhos de gestão pública não tiveram mais poder real; não houve monitoramento ou controle social sobre o orçamento federal, não houve nem mesmo empenho real em nacionalizar mecanismos de formação de lideranças para ao menos entenderem o funcionamento do Estado. A inclusão pelo consumo potencializou a fragmentação de agendas, todas dependentes do tacape do governo federal para se efetivarem.

Finalmente, em 2015, os excluídos foram disputados pela direita. Algo que não havia nos anos 1980. Justamente quando a esquerda partidarizada os tutelava.

Até que veio o golpe e, com ele, Temer. O governo Temer/PSDB/FIESP/Baixo Clero é elitista e, como tal, deixou de disputar os excluídos. Eles já prestaram para o que desejavam. E, agora, a avenida se abre novamente para a esquerda e organizações populares. Contudo, a sociedade é outra. Mais fragmentada, mais dividida em pautas identitárias ou específicas. O método terá que ser o diálogo e a escuta. Não há agenda única ou solução unificada a priori.

O método. Não o programa. Esta é a agenda deste momento.