É cada vez mais frequente aparecer a discussão entre torcedores sobre qual seria o maior clássico do futebol brasileiro. São várias as justificativas para definir um confronto ou outro como o “vencedor”: títulos dos adversários envolvidos, tamanho das torcidas, idade do confronto, a intensidade da rivalidade.

Nem sempre um clássico vale um título, mas muito mais importante do que isso, ele vale a vitória sobre o rival, sobre o vizinho, sobre aquele sujeito que está ao seu lado. No caso de vitória, os prazeres da glória suprema, em caso de derrota, as dores do fracasso. Em outras partidas, por mais que a vitória seja comemorada, o gosto não é o mesmo, pois o oponente está distante, em outra cidade, outro estado e, em muitos casos, até em outro país. A proximidade do rival é o tempero especial do clássico. Afinal, rivais vem da palavra latina rivales, aqueles que compartilham as margens de um mesmo rio.

Um clássico é uma espécie de luta final do bem contra o mal. Quando o seu lado é o vencedor, é como se todos os males do mundo tivessem acabado. Quando o seu time sai derrotado, é como se o mundo tivesse acabado.

Um clássico carrega uma dramaticidade digna das grandes tragédias. O ar do estádio, da rua, do quintal, do pátio, do campo, da praia, onde quer que a partida esteja ocorrendo, em dias de jogo assim, é outro. Pesado e elétrico. O tempo parece congelado, cada minuto parece carregar dentro de si toda a eternidade.

Mediante este quadro todo, então como definir qual o maior clássico do Brasil ou do mundo? Qual o confronto de rivais carrega com mais intensidade o que eu descrevi?

Nos últimos tempos é comum na crônica esportiva uma certa tendência positivista para analisar o futebol baseando-se em dados estatísticos: tempo de posse de bola, chutes a gol, mapas de movimentação, número de vitórias, empates, gols e tudo mais que puder ser quantificado e transformado em números. Este jeito quantitativo de  observar o jogo tem seus méritos e é feito por gente muito séria, mas tem seu lado ruim, pois reduz as discussões futebolítiscas, transformando-as de subjetivas e emotivas para algo racional e pragmático.

Digo que é ruim simplesmente porque não vejo o futebol assim. Vejo futebol da mesma maneira que vejo a literatura ou o cinema. Qual o maior escritor brasileiro de todos os tempos? Qual o melhor filme de todos os tempos? Seria possível estabelecer uma análise estatístico-comparativa entre Machado de Assis ou Guimarães Rosa? Ou entre “Cidadão Kane” e “Sétimo Selo”? Lógico que não. O mesmo vale para o futebol.

Tentar estabelecer qual é o maior clássico do Brasil fazendo uso de números é perda de tempo. Este tipo de discussão passa longe do universo dos números. Este tipo de discussão passa pela paixão, e como quantificar a paixão? Como quantificar quais adversários se detestam mais? Como medir qual clássico é mais emocionante? É possível medir a emoção?

Esta moda de transformar o futebol em números me faz lembrar Nelson Rodrigues, que, ao  ouvir que uma determinada opinião sua sobre o lance de um jogo estava errada, pois o videotape mostrava o contrário, disse: “Azar do videotape. O videotape é burro!”. Pois eu parafraseio o mestre, se o os números dizem que um ou outro clássico é o maior do Brasil, azar dos números, os números são burros.

O maior clássico do Brasil (e do mundo) vai ser sempre aquele que o seu time joga, não importando o que os números digam, mas sim o que o seu coração define, pois o torcedor, na relação com sua equipe, é como aquele poema de Fernando Pessoa, “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.”

 Qualquer partida em que a rivalidade, principalmente a rivalidade local, exista é por definição um clássico, seja uma pelada jogada em rua de terra entre os times “Com Camisa” e “Sem Camisa”, seja um 8° A contra 8° B no pátio do colégio, seja um Fla-Flu ou um Gre-Nal. Todas estas partidas possuem a mesma grandiosidade. O único traço que as diferencia são olhos e o coração de quem assiste a elas. Afinal, como disse o folclórico centroavante Jardel, “Clássico é clássico, e vice-versa”.