Na sala dos professores de uma escola estadual de São Paulo, em um futuro não muito distante:

– boa tarde, senhores!

– boa tarde.

– quem seria o professor Vladimir?

– sou eu.

– como vai o senhor? Me chamo Norma, sou avaliadora do DESDE – departamento estadual de desideologização escolar,  podemos conversar?

– pois não…

– detectamos alguns problemas no material didático adotado pelo senhor; não é muita coisa, acho que seremos breves.

– mas eu sou professor de física!

– justamente por isso. Meu departamento percebeu indícios claros de doutrinação esquerdista disfarçados nas disciplinas mais insuspeitas…

– vá lá…

– então, professor Vladimir, abra sua apostila do sexto ano na página 34, por favor.

– sim…

– sua explicação aqui deve ser modificada.

– mas por quê?

– veja: “para toda interação, na forma de força, que um corpo A aplica sobre um corpo B, dele A irá receber uma força de mesma direção, intensidade e sentido oposto”. Isso claramente incita os alunos à rebelião, à subversão, à reação contra a ordem estabelecida – e pior, na forma de força!

– inspetora, esse é o enunciado da terceira lei de Newton!

– pouco importa, professor, pouco importa. Sugiro o seguinte: “para toda interação, na forma de força, que um corpo A aplica sobre um corpo B, dele A irá receber compreensão e entendimento de que a força do poder público estabelecido deve ser incondicionalmente respeitada”.

– mas isso é um absurdo!

– com todo respeito, professor Vladimir, absurdo é tentar empurrar jovens inocentes para o caminho obscuro do marxismo através de aulas de física! Há mais alguns pontos para discutirmos na mesma apostila, como os referentes à “troca de calor” – evidente alusão à felação gayzista – mas que prefiro mandar por escrito para sua apreciação formal. Se não se importa preciso agora conversar rapidamente com a professora Rosa, de matemática.

– sou eu…

– bem professora, por favor, abra sua apostila de exercícios do segundo ano na página 23.

– sim…

– o exercício 9 fala sobre “divisão” e ainda por cima usa “laranjas” no enunciado!

– claro, é um exercício de aritmética!

– pode ser, mas “divisão” remete a comunismo e laranjas a indivíduos supostamente usados por empresários para lavar dinheiro, o que incita a desordem e desonra os homens de bem que geram empregos no país!

– mas como é que posso ensinar divisão de outra forma?

– não ensine divisão usando a lógica igualitário-socialista; ensine como sendo o oposto da multiplicação, assim os alunos terão uma visão de mercado mais positiva sobre o mundo, entenderão que no capitalismo os bens se multiplicam, até quando divididos. E retire as laranjas do exercício. Sugiro substituí-las por maçãs, que dá um ar mais bíblico à atividade.

– mais alguma coisa, inspetora?

– infelizmente sim, professora Rosa. Abra a apostila de teoria na página 8.

– sim…

– “intersecção de conjuntos”? “Conjuntos inteiros”? “Elementos componentes dos conjuntos”? A senhora não percebe as claríssimas referências à mobilização de massas contidas em tais expressões?

– mas como vou ensinar teoria dos conjuntos a meus alunos?

– isso não é problema meu, professora. Minha questão aqui é garantir a escola sem partido, o ensino sem doutrinação marxista. É preciso mudar toda essa parte, e urgente! Posso, a título de suporte, sugerir o mesmo que venho pregando às demais escolas: nas aulas de “teoria de conjuntos” use exemplos com trabalhadores, felizes com seus empregos e gratos aos que os geraram. E agora peço licença a todos para me dirigir ao diretor desta instituição, que pelo visto só contrata professores  homônimos de líderes comunistas! E isso é para lá de suspeito… Bem, por hoje terminamos. O DESDE deseja um ótimo dia e uma boa escola sem partido a todos!