Cerca de um século e um oceano separam esses dois homens e as obras que iremos aqui de alguma forma tentar conjugar. Um, italiano de Verona, médico por profissão, tornou-se célebre como o “pai” da criminologia. O outro, mineiro da antiga Vila Rica, maior escultor do Barroco brasileiro, famoso tanto por sua arte como por sua enfermidade deformante. A princípio, parece difícil traçar aproximações entre Cesare Lombroso e Antonio Francisco Lisboa, o “Aleijadinho”, todavia tencionamos fazê-lo a partir, exclusivamente, de uma obra do escultor mineiro, a fim de indicar certas permanências ideológicas que mais tarde influenciaram Lombroso.

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Na cidade de Congonhas/MG, encontra-se um dos mais belos conjuntos arquitetônicos e escultóricos da arte barroca (senão de toda a produção artística) brasileira: O Santuário de Bom Jesus de Matosinhos. Famoso pelos profetas feitos em pedra-sabão e que compõem o adro da igreja do santuário, também é composto de um conjunto de pequenas capelas que representam os passos da paixão de Cristo. Na sexta capela, está encenada a crucificação, sendo este o elemento principal da composição. Mais à direita de quem observa pela pequena portinhola que dá visão ao interior da capela, sentado, aparentemente fitando inquisitivamente quem o olha, encontra-se um homem seminu com os braços presos às costas. Trata-se do ‘mau ladrão’, que tem a seu lado, em pé, fitando o vazio ou o crucificado, com expressão resignada, o ‘bom ladrão’, mais tarde alçado à figura de São Dimas.

Uma das características mais marcantes das esculturas de Aleijadinho são os olhos oblíquos e, por vezes, estrábicos de suas figuras humanas. Tais características, dentre outras analisadas por especialistas, levam a crer que essas duas figuras são da talha de Lisboa e não de um dos aprendizes de sua oficina, que o auxiliaram nas figuras coadjuvantes dos passos do santuário. Contudo, em especial para quem tem a oportunidade de observar tal obra in loco, a impressão de raiva, empáfia e maldade nos olhos do ‘mau ladrão’ é marcante, o que é acentuado por uma obliquidade ainda maior de seu olhar. Nem mesmo Judas, representado em mais de um dos passos, aparece como uma figura tão caricatamente aviltante. Talvez porque Judas tivesse se arrependido, assim como o ‘bom ladrão’, o que não houve com o ‘mau ladrão’, impenitente, como se a vilania fosse de sua natureza.

Em contrapartida, o olhar, a expressão, os ombros baixos, tudo no ‘bom ladrão’ lhe dão uma impressão de mansidão, de cordeiro resignado com seu abate. Esse contraste quase pictórico de tão gráfico tem única e exclusivamente a função de identificar tais personagens na cena, posto que no conjunto não há espaço para nomes ou qualquer descrição das personagens. Então, além das escolhas feitas pelo escultor para a fisionomia e disposição dessas duas figuras, teve ele também de contar com associações que os observadores fariam ao vê-las, através de seus preconceitos.

Em sua obra sobre a história da feiura, Umberto Eco lembra-nos de que costumamos associar como sinônimo do belo coisas agradáveis, enquanto relacionamos à imagem de feio tudo aquilo que consideramos ruim. Não sem razão é nos capítulos em que aborda a chamada ‘demonização do inimigo’ no mundo moderno e a pseudociência da fisiognomonia é que associe as pesquisas de Cesare Lombroso ao tema da feiura. Segundo Eco, Lombroso “tentava demonstrar que os traços da mente criminosa estavam sempre associados a anomalias somáticas. Lombroso não chegava à simplificação de dizer que quem é feio é sempre delinquente, mas associava estigmas físicos a estigmas morais, como argumentos que se pretendiam científicos. É fácil, pelo menos na divulgação popular de tais teorias, não dar a devida importância ao fato de que muitas deficiências físicas verificam-se com maior frequência em camadas sociais oprimidas pela má nutrição e outras doenças e de que, obviamente, é entre estes marginalizados que os comportamentos associais se dão com maior frequência” (op. cit., p. 261).

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Não necessariamente as descrições do ‘criminoso nato’ lombrosiano coincidem com o ‘mau ladrão’ do escultor mineiro, contudo, em sua obra sobre o Homem Delinquente, o médico italiano categorizou dezenas de caracteres físicos, associando-os a diferentes comportamentos associais, de modo que basta uma boa olhada e teremos como relacionar nossa escultura a um ou mais tipos lombrosianos, bem como podemos fazer isso a praticamente todo mundo, basta termos a capacidade associativa que ele tinha para encontrar conexões onde queria encontrar. Entretanto, ainda que hoje continuemos sofrendo as consequências da influência do positivismo criminológico em nossas políticas de segurança pública e no (in)consciente coletivo, como explicar que o preconceito do observador do século XVIII já lhe permitisse identificar quem era o ‘mau ladrão’ da cena um século antes das pesquisas positivistas?

Uma constante nas representações artísticas medievais, barrocas e em boa parte da era moderna seria a de que o Diabo deveria ser feio, causar repulsa, medo e ojeriza, e o mesmo valeria para os hereges. O Diabo e os hereges não deveriam ser vistos como sedutores, como aprazíveis, mas como assustadores ou desprezíveis. Em sociedades quase que totalmente iletradas, por mais iconoclasta que o cristianismo originalmente se propusesse a ser, a arte teve de assumir um papel catequético/pedagógico para manutenção do catolicismo.

O ‘mau ladrão’ seria tanto o herege que não aceita a palavra e o perdão do Cristo na cruz, como a personificação do diabo, visto que criminoso que não se arrepende de seus atos. Logo, segundo a necessidade didática da arte sacra, necessário que esse seu interior malévolo seja refletido em sua aparência exterior, daí sua demonização através de suas expressões a ponto de sua raiva e empáfia quase o desfigurarem, sua fúria contida pela madeira parece que a qualquer momento irá transcender a matéria, romper seus grilhões e interpelar o turista que o olha pela janelinha da capela. Sua audácia em não se arrepender do delito cometido marcada em seus olhos e na boca crispada.

Ainda que detentor de uma metodologia científica – um método bastante questionável, mas ainda assim um método –, Cesare Lombroso parece o tempo todo partir de respostas prontas, para as quais busca a comprovação pela observação e estatísticas. A resposta que possui é a de que o indivíduo que delinque é o ‘inimigo’ e, como tal, tem de ser diferente daquele que não delinque, a ponto de deturpar as conclusões de Darwin ou de Lamarck para chegar a seu atavismo do criminoso nato. Um discurso científico metodologicamente criterioso, que legitimou – e legitima – as injustiças sociais perpetradas pelos detentores do poder.

“Desde a Antiguidade, o inimigo sempre foi antes de tudo o Outro, o estrangeiro”, o negro, o índio, o mouro, o judeu, o delinquente, não importa o nome e a sua diferente origem, importa que se trata do inimigo do homem branco em sua incansável missão civilizadora e, portanto, deve ser demonizado para justificar sua hostilização.

A ideia dessa aproximação entre Aleijadinho e Lombroso se deve ao impacto que essa escultura sempre teve sobre mim, bem como ao fato de o médico italiano, em trechos de sua obra mais famosa, buscar justificar sua teoria ao mencionar a ‘feiura’ de personagens ‘vis’ nas representações artísticas. Provavelmente mereça um estudo mais aprofundado, o que possivelmente ocorrerá um dia, mas essa foi a primeira tentativa de trazer essa ideia à luz. Talvez por isso essa justificativa quando se esperaria um desfecho. Seria leviano concluir algo quando mal o comecei.

Para saber mais

ECO, Umberto (org.). História da feiura.  Trad. de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2014.

LOMBROSO, Cesare. O homem criminoso. Trad. de Maria Carlota Carvalho Gomes. Rio de Janeiro: Ed. Rio, [s.d.].

MACHADO, Lourival Gomes Machado. Barroco mineiro. 2ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1969. Coleção: Debates, n. 11.