Sabe quando você está solitário e carente e, ao passar por uma praça, avista um casalzinho trocando carícias e afagos? Bate uma inveja danada, não? Em momentos assim aquele que apenas observa à distância, desprovido de outras informações além daquelas que seus olhos lhe proporcionam, com frequência falsifica a realidade em prejuízo de si mesmo. A rotina do casal que ele contempla lhe parece um banquete de alegrias e prazeres, um verão perpétuo, um estado de beatitude que nenhum desgosto perturba, nenhuma preocupação interrompe. As turbulências da vida a dois, que ele mesmo conhece e da qual sua memória poderia dar testemunho, desaparecem repentina, magicamente. Nunca lhe ocorre que aquela ternura invejada, longe de ser uma expressão de um amor sem sobressaltos, pode ser apenas um gesto de reconciliação após uma tarde de desavenças.

Felizmente, este é um erro de julgamento que não costuma durar muito tempo; na verdade, não dura mais do que a próxima experiência amorosa do solitário. Assim que arruma uma companhia, a vida a dois começa a lhe parecer um fardo. Como pode haver felicidade na perda da autonomia, na restrição à liberdade, no sacrifício de si mesmo em benefício alheio? Que pode haver de tão divertido em ser obrigado a fazer trezentas concessões por minuto para garantir a concórdia, em ter que suportar os inevitáveis dias de mau humor da cara-metade, em ser forçado a implorar desculpas quando se está certo e a se humilhar quando se está errado? A solidão, afinal, não era assim tão ruim quanto pensávamos… Muitas vezes, o seu resgate é o momento mais gratificante do namoro… “Quando foi bom?”, pergunta o psicólogo. “Quando ela foi embora, eu senti uma paz tão grande…”

Mas por que eu estou dizendo tudo isso num artigo intitulado “O medo da morte”? O que isso tem a ver com o assunto? Na verdade, mais do que se pensa…

Eis a minha tese: o medo da morte é o equivalente existencial da agonia da solidão e, caso pudéssemos experimentar a alternativa contrária, perceberíamos facilmente nosso erro de julgamento. Fala-se bastante nos terrores da finitude, mas nunca nas misérias da eternidade. Num tempo infinito, a matéria poderia se agrupar de muitas formas diferentes, mas em algum momento todas as combinações possíveis seriam atingidas. O universo estaria assim condenado à monotonia da repetição, ao desespero do antigo, à falência da novidade. O mesmo problema nos atormentaria no além. Os acontecimentos humanos e as emoções derivadas deles se combinariam de muitas formas diferentes, mas em algum momento as possibilidades se esgotariam. A cada instante olharíamos ao nosso redor e seríamos afligidos pela sensação de déjà vu: “mas de novo?” O tédio nos devoraria.

E, como se nada disso bastasse, há um problema adicional na eternidade: a impossibilidade do suicídio. A vida que levamos na terra certamente não é das melhores, mas é sempre um consolo poder dispor dela quando bem se quer. Ajuda a suportar muitas noites más, escreveu Nietzsche. Ora, a eternidade nos rouba até esse último consolo. Ela nos obriga a viver e, para mim, essa poderia ser a própria definição do inferno. Querer morrer e não poder é infinitamente pior do que querer viver e não poder. A morte nos liberta do desejo da vida eterna, mas a vida eterna não nos liberta do desejo da morte.

Se a vida fosse eterna, a morte nos pareceria uma bênção. E esses mesmos charlatães que hoje mercadejam a ilusão da imortalidade estariam nos vendendo, em vez disso, as dádivas da aniquilação.