O Brasil é o país dos técnicos de futebol. Recentemente, se tornou o país dos analistas políticos. Alguns, com dom para substituir Cassandra, outros, para substituir Maquiavel. Como todo país que possui uma legião de entendidos em áreas complexas, somos marcados por uma mitologia política das mais profícuas e surreais. Algo parecido com o mito de tomar leite com manga que causaria a ira de algum dos deuses da fome, para desalento de Baco.

Ao lado dos mitos, emergem as lendas, a narrativa que dá origem ou substrato aos mitos. Adotamos lendas para todos os gostos. Uma delas diz que governo militar é mais honesto (o que pesquisas sobre corrupção durante o regime militar desmentem). Outra, que rico não tem motivos para roubar o dinheiro público. Uma terceira, que, se empresário for eleito, adotará técnicas de gestão eficientes (a despeito do número de falências ter aumentado em 13% no primeiro trimestre deste ano, ou de os empresários, inclusive os grandes, não sobreviverem sem recursos estatais). Percebam que as lendas sempre enaltecem as classes dominantes, em especial, o empresariado. O que enseja a dúvida se não são eles que profetizam a superioridade moral e técnica deles mesmos.

Há, contudo, uma lenda das mais arraigadas que diz que a esquerda é muito desunida e a direita é sagaz e unida. Nada mais enganoso. Como se os seres humanos se dividissem em sub-raças a partir de sua opção ideológica.

O governo Temer vem nos ajudando a debelar a lenda. Mas é preciso juntar os caquinhos ou causa e efeito não se apresentam por inteiro para os “entendidos em política”.

Assim como todos governos que procuram dizimar qualquer traço de oposição – postura nítida do atual governo temerário -, ao diminuir o campo de tensão externo, as disputas se instalam no interior do próprio governo.

Comecemos por entender que os credores do governo Temer são FIESP e Baixo Clero do Congresso Nacional. Não por outro motivo que metade do ministério Temer é composto por “expoentes” do Baixo Clero e o programa econômico é todo ditado pela FIESP. Tenhamos em conta que, a partir deste núcleo credor, flutuam operadores políticos, alguns do PMDB, outros do PSDB, com coadjuvantes como SD e outros apressados em entrar na fila. A grande imprensa. A grande imprensa, em especial, a Globo e Veja, parece oscilar entre operadores e credores. Não se pode afirmar que é jogada pelas águas atormentadas das brigas e chantagens internas deste bloco, mas o fato é que as capas das últimas edições de revistas e jornais parecem um joguinho infantil de esconde-esconde. Desconstruíram a imagem pública do político religioso Marcelo Crivella; ameaçaram os “dois homens do Presidente”, Eliseu Padilha e Moreira Franco; demonizaram o senador peemedebista Renan Calheiros; infernizaram o Congresso após a prisão de Eduardo Cunha.

Há muitas apostas nos bastidores que procuram sugerir o rumo desta briga intestina. Tantas apostas podem gerar novos mitos e lendas, como sabemos. Uma delas sustenta que há conluio entre alguns órgãos de imprensa e acólitos tucanos. Neste caso, a temporada de caça ao Temer teria iniciado visando 2018. Alguns afirmam que, no caso do ataque a Crivella, alguns órgãos de imprensa prefeririam um governo carioca de Freixo, mais fácil de abater, que um governo evangélico do cantor gospel. Sobre o ataque aos homens do Presidente, seria um jogo de pressão ou vingança de Eduardo Cunha.

O fato é que a direita nunca foi unida. Uma breve leitura aos livros de Elio Gaspari sobre o regime militar já alertaria os incautos de como um governo que se pensa monolítico, onipresente e onisciente nunca será incolor e inodoro. Ao contrário, provocará uma disputa intestina com odor acre e cores explosivas.

A direita brasileira só se une no golpe.

Passados dois dias de banquetes e festas ababeladas, a direita se joga numa Noite de São Bartolomeu sem fim, porque movida por interesses pessoais, egocêntricos e inconfessáveis.

Enfim, o governo Temer nos brinda com mais um tabu político que se desfaz em terra movediça: a direita não é unida. Ela se estilhaça em milhares de pedaços porque seu alvo não a unifica, não é o bem comum, não é um projeto coletivo ou um direito universal, mas o interesse grupal ou a ambição pessoal.