Tem me parecido interessante a recente onda de jovens liberais que se lançam, a partir das redes sociais, à crítica social com base no cândido liberalismo clássico. Falam como se trouxessem algo novo, fresco, ao mesmo tempo simples e científico: a eficácia do livre mercado! Mas estão, palidamente, reproduzindo rudimentos de filosofia política pré-revolução francesa, preceitos gerais que tinham, à época, a trincheira específica de um combate entre uma burguesia dominante econômica e culturalmente, mas que ainda não se apossara do Estado, mantendo uma relação de sócia minoritária com as aristocracias europeias.

Há também algumas menções à chamada escola austríaca, grupo de economistas que reduzem a atividade econômica à dimensão derivada da circulação e que, exatamente por isso, não compreendem a relação orgânica existente entre a produção material real e as formas sociais que se concretizam a partir dela. Novamente, trata-se de uma expressão escolar se comparada aos grandes economistas clássicos, como Smith e Ricardo, que, tendo cometido semelhantes equívocos metodológicos, não padeciam, contudo, da mesma estreiteza conceitual.

Se olharmos bem, esses novos liberais tampouco são neoliberais: sua desconfiança no PSDB e no PMDB é patente, muito embora, na prática, estejam alinhados no propósito em curso de desmonte do Estado.

Mas existe uma diferença fundamental: esses moços, cuja formação, ao que se percebe, é bastante rasa, pensam a produção de valor como algo surgido de alguma fonte mística, inesgotável e, sobretudo, intocável aos processos de evolução das forças produtivas. Para eles (que, lembremos, ignoram a centralidade da produção à compreensão das dinâmicas econômicas), valor é igual a dinheiro, e sua produção, a-histórica, permanece, em suas fontes, idêntica desde tempos pré-diluvianos – e assim continuará por todo o sempre. Pouco habituados a sínteses conceituais, pensam que todo o problema econômico se reduz a uma relação acidental entre a substância econômica e a política. Para eles, digo: menos Marx, mais Kant!

Mas podemos pensar: esses ideólogos, por rasos que sejam, exprimem uma perspectiva de classe socialmente relevante? É possível pensar que, totalmente desconexos que estão da materialidade da vida social, possam significar alguma importância histórica como movimento intelectual?

Em tese, não. Contudo, há uma dialética da base material aí: se ela não solidifica a expressão teórica, pode, se esvaída, expressar sua ruína. E é precisamente isso que estamos vendo.

Ora, o Estado jamais foi um obstáculo ao desenvolvimento do capitalismo; antes, foi seu artífice, seu agente, sua própria viabilidade histórica. Seja por meio do Direito, da guerra, dos sistemas educacionais e assistenciais, seu elemento coercitivo sempre acompanhou e integrou a complexificação da sociedade civil, acomodando-a, dando-lhe direção e disciplina. Tudo isso, porém, surge e se desenvolve a partir de uma base material, produtiva, em constante desenvolvimento. Tal desenvolvimento, progressivamente, ao mesmo tempo que permite ao capitalismo criar e recriar o complexo de mercadorias e segmentações sociais que expressarão a referida complexificação da sociedade civil, também tornará essa base produtiva cada vez menos capaz de sustentar materialmente as massas de valor para que o capital se amplie, negando seu propósito único e confesso. Esse império sobre dunas já levita há algumas décadas. O artifício do capital especulativo, espécie de versão econômica desse mundo de mágicos que acreditam na mística da produção de valor a partir do pensamento positivo, expressa, de modo compreensível até para o mais raso dos novos liberais, que se trata de um defunto a vagar em busca de seu próprio corpo.

E a sociedade de classes, que persiste (assim como os Reis europeus resistiram cerca de 800 anos após sua superação histórico-material), é esse moribundo que pressente seu fim, hoje ou amanhã. Naturalmente, ficará neurótico, verá fantasmas, cada vulto parecer-lhe-á ameaçador. Um perfeito MacBeth! O Estado, seu aliado, seu guardião, aquele a quem deve tudo, será agora um algoz, um animal perigoso a exterminar. Sua ruína inevitável, seus golpes ao vento e seus longos monólogos no Youtube não terão outro mote senão o grito, aflito, pela mãe, ainda que uma mítica Hécuba: A liberdade de mercado! Se for mesmo uma autêntica tragédia, que venha com seus elementos clássicos: e que sua catarse possa fazer da sociedade burguesa, cujo ocaso temos o privilégio de assistir, somente o enredo para vindouras aulas sobre a pré-história.