O mundo das Marias parece não ser o mesmo das Luizas. Nos versos de Tom Jobim, Luiza, a musa cor de neve, é alvo do desejo do poeta que confessa ter guardado sete mil amores para sua eleita. Já Maria, descrita pelo inesquecível samba de Marlene, tem cor de terra. É a mulher do povo que caminha com lata d’água na cabeça, a guerreira que sobe o morro e não se cansa, que luta pelo pão de cada dia, sonhando com a vida do asfalto.

Geograficamente separados, os mundos de Maria e Luiza se fundem, sim, na violência à qual as mulheres brasileiras estão submetidas, independentemente da posição social que ocupam. Se na vida das Marias as agressões são escancaradas em uma rotina de maus-tratos, entre as Luizas o desafio é romper com o silêncio que alimenta a invisibilidade.

Luiza Brunet, a eterna modelo do Brasil, chocou o país ao revelar-se vítima da violência doméstica cometida não em barracos mal acabados, mas dentro de hotéis de luxo que a maioria das Marias jamais terão a chance de conhecer. Encorajada pelas conquistas feministas, Luiza mostrou suas chagas e, por isso, vem sendo metralhada pelo público masculino e pelo seu agressor bilionário que, influente, encabeça uma campanha de difamação para desqualificar sua vítima, na tentativa de enfraquecer a credibilidade de quem denuncia.

Se as Marias têm dificuldade em ser ouvidas, para gente como Luiza a voz ecoa na mídia e nas revistas glamorosas cujas páginas ela costuma frequentar. A exposição de Brunet, que ganhou destaque em programa dominical de TV com uma das maiores audiências do país, encoraja muitas Marias a falarem sobre as atrocidades às quais são submetidas. Luiza, a famosa, hoje experimenta na carne o caminho tortuoso de quem resolve levar adiante uma queixa, quando tudo parece ser relativizado. No meio do trajeto, a dúvida recai sobre a vítima, que é julgada por pessoas com valores invertidos, por homens e até por mulheres que ainda questionam se ela mereceu ou não ter apanhado.

Que fique claro: ninguém merece ser tratado como objeto do outro, sendo obrigado a viver com medo. Ninguém. É preciso que a violência que assola 60% das mulheres negras e pardas na idade entre 25 e 34 anos, cometida majoritariamente por maridos e companheiros, seja repudiada por toda a sociedade. Segundo a Secretaria de Estado de Defesa Social, por dia, 39 mulheres da capital mineira são agredidas, constrangidas, maltratadas e até mortas, conforme dados de 2015.

Há alguns anos, no meu plantão de polícia, encontrei na Delegacia de Santa Terezinha uma mulher com o rosto disforme. Ela tinha apanhado à noite inteira do marido. Foi chutada na cabeça dezenas de vezes. Perdeu um dente. Deveria estar no hospital, mas aguentou horas sentada em um banco frio de cimento para denunciar seu agressor. Estava sozinha, acuada, era o alvo das conversas masculinas. Quando meus olhos se encontraram com os dela, a vítima sustentou o rosto na minha direção. Queria mostrar o tamanho imenso da sua dor e também o que não podia ser visto: estava emocionalmente destruída.

Nesse universo em que a força ainda se sobrepõe ao direito individual, a boa notícia é que uma lei publicada em 2006 tem contribuído para criar mecanismos com o objetivo de coibir a violência familiar e doméstica. Batizada em homenagem à mulher que ficou paraplégica após ser baleada pelo homem com quem ficou casada por 23 anos, a lei Maria da Penha traz no nome um simbolismo: nasceu Maria para atender a todas as mulheres sem distinção, desde as que ainda carregam latas d’água na cabeça até as Luizas da televisão.

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