Dá uma tristeza pungente, imensa, saber de um rapaz que foi morto a pauladas por ser quem ele é, por ele desejar como ele deseja. São tantos, são tantas, é tododia. Causa horror a indiferença, os maldisfarçados aplausos, a naturalização.

É o ódio a céu aberto, o ódio sem vergonha, sem modéstia, sem amarras, sem máscaras, sendo aplaudido diante da exibição crua, sem cortes, de sua feição mais monstruosa. As pessoas olham para o ódio que desfila na avenida em um luxoso conversível; ele é purulento, podre, malcheiroso, hediondo, arrodeado de moscas, salpicado de vermes comedores de carne, coroado por uma revoada de urubus, mas elas aplaudem, enxergam ali uma certa autenticidade, uma boa dose de coragem, um tipo de virtuosimo, que se configura no escancarar, no não-disfarçar, no não-maquiar.

E elas se identificam, querem ser como o ódio, querem ser o próprio ódio, querem trazer suas mesquinharias, preconceitos, dogmas milenares e prescrições morais vazias à tona, querem fazer de seus defeitos mais conflitantes com o conceito de civilização, aqueles pequenos defeitos outrora amainados pela benfazeja hipocrisia, bandeira de luta, motivo de orgulho.

Torna-se justo matar o outro porque ele não é você. O outro, o universitário gay, a mulher trans, o menino negro do morro com um saco de pipoca na mão. Morreram por serem quem eram, mas é “liberdade de expressão” defender que eles deveriam mesmo morrer. É combater o politicamente correto, coisa imprescindível em tempos tão “chatos”. Legal é falar o que pensa, de forma irrefletida; é mais importante desfilar em carro aberto revelando a todo a mundo a sua hediondez purulenta, podre, com cheiro de morte em nome da liberdade.

Porém, não se esqueçam, quando o fato de alguém ser assassinado por ser quem é, por desejar o que deseja, por ter a cor da pele e classe social que tem torna-se natural, fracassamos todos, estamos todos ameaçados. Todos somos quem somos, desejamos o que desejamos, temos a cor da pele e a classe social que temos, estamos todos sujeitos a morrer violentamente por nada, se não agora, daqui a pouco. Mesmo quem bate palminhas pro ódio e se torna em ódio vai se estrepar. Depois, não reclamem.