Dona Liberta comemorava seus noventa e dois anos. O clima correspondia às expectativas: mesas e cadeiras a postos, decoração festiva maltratando o olhar.Chegavam filhos e filhas, noras e genros, netos e netas. Os amigos e amigas havia muito não encontrava, desde às vésperas de seu casamento, já decorridos setenta e dois anos.

O tempo parecia implacável: seus noventa e dois anos completos coincidiam com o mês em que completava um ano de viuvez.

Pensava Dona Liberta no quanto era capaz de identificar a chegada dos visitantes pelo ritmo dos passos. Aprendera na marra, por repetição, já que os visitantes eram sempre os mesmos. Assim como eram as expectativas.

Carlinho, o primogênito, chegava sempre em passos afobados, ansiosos. Bete, sua esposa, chegava sempre alguns segundos atrás, em passos bravos que pareciam repreender os passos de Carlinho. Já os netos, bem, estes dariam um conto à parte. Particularmente a alegrava ouvir os passos da terceira neta, Amanda, que pareciam seguir ritmo algum.

Imersa em seus próprios pensamentos, a festa se deu veloz. Rápido demais para quem já havia vivido muitos anos e sentia restarem poucos. Mas os momentos seguiam à revelia: já era hora de assoprar as velas!

Dona Liberta postou-se diante da mesa, fabricando habilmente uma vontade que ali não estava.

Concentrou-se no momento do assopro: tomava fôlego, respirava profundamente, buscava a energia que estava ali, abaixo do umbigo, adormecida.

Inesperadamente, a coisa mudou de forma. Substituindo o assopro, Dona Liberta sonoramente anuncia:

– Noventa e dois anos e nunca gozei!

O alvoroço tomou conta: a movimentação deslocava as mesas e cadeiras, tirando-as de seus lugares originais, onde deveriam permanecer.

Carlinho passou mal. Dentre a tontura e a sudorese, pediu auxílio de Bete para sentar-se, ofegante. Chegava a gemer de dor. Dor psíquica.

Amanda, a neta favorita, alegrou-se com a confissão. De imediato pôs-se a pensar em como auxiliar a avó: “Um perfil em um aplicativo de encontros, talvez?” Não, logo concluiu Amanda que o caso não era esse. A esta altura a avó não merecia inexperiências e neuroses alheias.

Terríveis minutos se passaram para a família até que Paulinho, o filho mais novo, assíduo frequentador de grupos de meditação, foi capaz de questionar:

– Como assim, mãe?

Ao que prontamente respondeu Dona Liberta:

-Ué, teu pai era um merda! Me tirou os amigos, gritou comigo a vida inteira por nada, não encostava em mim… Pior de tudo: foi meu único homem! Aí já viu, né? Noventa e dois anos e nunca gozei!

Retornava o alvoroço. Permanecer ali tornou-se insuportável para a família. Betinho, o neto mais jovem, gritava:

– Que nojo! Que nojo! Que nojo!

Findou-se a festa.

Com o pensamento fixo em sua nova ideia, Dona Liberta já não se importava. Foi a primeira vez que sentiu tristeza genuína em sua vida. Tristeza profunda.

Quase duas horas decorreram e permanecia só, imóvel, contemplando sua revelação.

Saiu de seu estado de repente, sem esperança prévia, ao ouvir novos passos sem ritmo. “Passos saltitantes”, imaginou.

Logo foi iluminada pela presença de Amanda, a neta que não pôde deixar a amada avó sem amparo algum. E assim Amanda se fez deus ex machina:

– Toma, vó, comprei um vibrador para a senhora. Sabe… Pensei em te arrumar encontros, mas se for, esse é o próximo passo. Primeiro a senhora tem que aprender a sentir sozinha. É assim que se começa, pelo começo. Aprende que o corpo é antes de tudo teu.  É fácil. Tem um canal no youtube onde tudo é explicado. Te mando o link pelo whatsapp.

-Ah, Amanda, muito obrigada. Mas eu não gosto de zapzap. Não serve para nada de bom…

– Tá errada, vó. Servirá para isso.

Sem mais palavras-  neste momento, desnecessárias- Amanda partiu.

Dona Liberta entregou-se às próprias sensações.

Dias se passaram e a avó, que antes cobrava presenças, as evitava a todo custo.

Mas não muito se passou até a chegada do momento mais temido por sua família e, provavelmente, pelos leitores que até aqui chegaram.

Apropriando-se do celular, Dona Liberta decide anunciar para toda a família-a qual juntou em um grupo online- seu renascimento:

“Gozei… Quase morri, mas renasci! Problema resolvido, vamos comemorar!”

O pobre Carlinho teve um enfarte e também quase faleceu. Por sorte, não foi de ordem física. Desta vez, Dona Liberta, mais livre de seus próprios problemas, não ignorou o sofrimento do filho. Tomada por forte empatia, pediu ao neto Betinho, que outrora sentiu asco:

– Vai lá, aconselha teu pai, vocês devem sofrer do mesmo problema que o teu avô, procurem soluções na internet. Melhor resolver de uma vez, olha, acredita em mim…

E assim, finalmente, Dona Liberta, aos noventa e dois anos, libertou-se.