Há uma epidemia de vazio conceitual que assola o país. Certas pessoas tratam de temas que desconhecem com pretensão de especialistas, outras usam de intensa desonestidade intelectual para influenciá-las e conduzi-las. O resultado é a grave distorção ou deformidade de conceitos.

Li e ouvi muitos versando sobre a luta de classes. Alguns, intelectualmente inescrupulosos, a negam ou dizem que é uma invenção marxista difundida por historiadores e sociólogos mal-intencionados. Outros, habituados a chafurdar no lamaçal do obscurantismo, reproduzem  largamente esta falácia.

Há classes? Há luta de classes. Óbvio. Límpido como cristal. E não foi Marx quem a criou, mas como cientista social a desvelou, a expôs, a trouxe à luz do conhecimento. Numa sociedade segmentada em classes, quem está embaixo luta para subir e quem está em cima luta para evitar que isto aconteça.

Parece sórdido? E é muito! A ascensão das classes economicamente desfavorecidas traz dissabores aos privilegiados. Coloca em risco seus tão caros privilégios. Em princípio, porque os mais pobres são a mão de obra usada para os trabalhos mais pesados, aqueles que os privilegiados não querem executar, haja vista os ofícios de pedreiro, gari, estivador, doméstica e etc. Caso ascendam, se tornarão mão de obra mais cara ou simplesmente deixarão de realizar as atividades braçais e mal-remuneradas.

Outro fator que marca a luta de classes é de ordem psicossocial: ligado à percepção de riqueza e pobreza. Há uma teia complexa de elementos que implicam nestas percepções, mas o objetivo deste texto não é o de discuti-la.

Para alguém se identificar como rico ou remediado, há de ter a referência da pobreza.  Portanto, o reconhecimento de um indivíduo como sendo parte das classes médias depende de ter como parâmetro pessoas que estejam posicionadas acima e abaixo dele na pirâmide social.

Estas tensões sociais colocam as classes médias numa posição paradoxal: conviver com a ansiedade e a ilusão por ascender e a terrível angústia de empobrecer. E, dentro da perspectiva do empobrecimento, ele pode ocorrer pela perda do patrimônio, mas também pela ausência da referência de pobreza, isto é, pela ascensão das classes mais pobres.

Este fenômeno psicossocial fica evidente ao se analisar as mentalidades de parte das classes médias brasileiras, que demonstra grande incômodo ao compartilhar espaços públicos – que antes eram de exclusividade sua – com grupos que recentemente ascenderam.

Exemplos destas mentalidades são as manifestações de protesto, claramente sectárias, de que aeroporto virou rodoviária ou que os shoppings tornaram-se espaços de rolezinhos. A maior parte daqueles que se queixam talvez não consiga reconhecer em si a postura preconceituosa. Não compreendem que boas maneiras e respeito não estão ligados à classe social.

É esta parcela das classes médias que se projeta a tal ponto nas elites, que passa a defender seus valores e posturas com enorme afinco, como se fizessem parte delas. Ofendem-se frente a qualquer crítica feita às classes altas. Não se apercebem da opressão que sofrem pela parte de cima da pirâmide social, pois são profundamente alienados. São defensores figadais da meritocracia e não enxergam que, ao tentar legitimá-la, assumem que eles próprios não teriam mérito, pois não fazem parte das elites.

A forma injusta de produção e distribuição de riquezas – característica histórica do Brasil – intensifica sobremaneira as tensões sociais. A sociedade segmentada por classes conviverá eternamente com a luta de classes. Ela se torna mais branda à medida que diminuímos as desigualdades sociais. Mas continuará existindo enquanto houver classes, isto é, a distinção entre aqueles poucos que gozam de privilégios e a grande maioria que se sacrifica para mantê-los.

Imagem:  The International, pintura de Otto Griebel (1895-1972).