Fazer a primeira refeição do dia acompanhando algumas notícias bem-selecionadas sempre me pareceu uma boa ideia: alimentamo-nos duplamente, nos fortalecemos para enfrentar a vida que, bem sabemos, não costuma ser tão fácil.

Dizem por aí que o café brasileiro está no topo dos melhores cafés do mundo. Não ouso discordar. Eis uma tradição a ser ovacionada, um alimento que nos dá maior habilidade para lidar com outras tradições da nossa maltratada terra.

Em pouquíssimos dias, fomos sucessivamente surpreendidos com a chegada de representantes da barbárie ao poder. Representantes das piores tradições. Representantes que ferem e pervertem a história das sensibilidades e justiças conquistadas com muita luta.

Sim, em pouquíssimos dias fomos subjugados pela tradição machista que perdoa estupros na nossa maior faculdade de Medicina, garantindo o futuro do culpado e destruindo a vida das vítimas; fomos subjugados pela tradição da hipocrisia religiosa que aceita que seus fiéis roubem celulares para fazer doações para a própria instituição; fomos subjugados pela intolerância de cunho eugenista do nosso poder público que despreza a prestação de serviços de saúde aos povos originários; fomos subjugados pela tradição homofóbica que assassinou um jovem a pedradas pelo abraço fraterno em público; fomos subjugados pela tradição escravista que permite banquetes oferecidos aos membros do Congresso para que apoiem a retirada do alimento alheio e garantam a abundância do seu próprio; fomos subjugados pela tradição das epidemias, desta vez de sífilis, enquanto nos divorciamos da realidade e insistimos em forjar tradições de “alta tecnologia” em um país no qual a principal tradição continua sendo a falta de água potável e a fome.

Fomos, enfim, subjugados pela tradição que de eleger mentes imbecilizadas como líderes mundiais.

 É, leitores e leitoras, um belo café da manhã acompanhado das notícias do dia se tornou uma tradição insalubre. Parece, infelizmente, que as piores tradições subjugam as demais.

Assim, cotidianamente, entre a notícia aparentemente inverossímil que se expõe à mente e um gole no café recém-coado que se dá o absurdo, um confronto entre a vida que segue – e sempre deve seguir- e a confusa posição que ocupamos de espectadores da barbárie e do retrocesso. Uma barbárie que conquista cada vez mais representantes nos espaços públicos. Dos micro aos macro poderes, nosso Estado assume-se como o algoz que se justifica com um sorriso no rosto.

Parece, por hora, não haver saída: a conversa é rejeitada; as justificativas para os retrocessos são sempre gravemente cínicas; o conhecimento ofende; a sensibilidade é ridicularizada.

Mas nada disso perdura sem reação: as tradições são dinâmicas e há novas se formando. Particularmente boto fé em uma delas, que parece nascer com estrutura inabalável. Essa tradição se expôs – dentre estes mesmos pouquíssimos dias- no discurso de uma jovem de 16 anos que solapou todas as outras, sem sequer deixar espaço para contra-ataque.

É, leitores e leitoras, há um castelo de tradições que ainda nos mantêm subservientes. Mas se depender daqueles que, mesmo mais jovens, amadurecem antes de nós, deste castelo não sobrará pedra sobre pedra.

A nós, inertes, resta passar mais um café. E aguardar.