1 – Com mulheres não se argumenta.

Escrevo pouco depois de ler a “reportagem” da revista IstoÉ, que conseguiu o prodígio de ser capa da revista semanal, sugerindo, sem citar uma fonte sequer,que Dilma Rousseff “tem sido acometida por crises nervosas”, que está sendo medicada, que está “desequilibrada” e que perdeu o “controle emocional para conduzir o país”.

A capa da revista mostra uma presidente com a boca aberta em um berro, as sobrancelhas arqueadas, o rosto sulcado por marcas da idade. O título da capa é “As Explosões Nervosas da Presidente” e o bigode diz que, “com a iminência de seu afastamento e completamente fora de si”, Dilma tem quebrado móveis do Planalto, gritado com subordinados e xingado “autoridades constituídas”.

A narrativa é coroada por uma comparação com Dona Maria I de Portugal, cognominada “a Louca”, que foi afastada do trono para dar lugar ao filho, o regente Dom João.

Discordo politicamente de Dilma em absolutamente tudo que há para discordar, especialmente desde que ela assumiu o segundo mandato adotando políticas que, no decorrer de sua campanha, foram justamente atacadas e descontruídas. Mas não posso deixar de apontar a vileza do argumento que pretende qualificar de louca a presidente, apequenando o debate e reduzindo a discussão política a uma série de argumentos pessoais, rasos como um pires e, ainda, eivados de indisfarçáveis traços de misoginia.

Sim, misoginia.  Provas de destempero, nervosismo e descontrole por parte de personalidades políticas têm sido especialmente comuns nos últimos tempos, embora tenham, desde sempre, se postado ao alcance de qualquer observador mais atento. Se você acha que eu estou mentindo, ligue a TV Câmara, assista às sessões da comissão do impeachment ou aos discursos no plenário e constate que, entre aqueles senhores de terno e gravata, muitas vezes de idades provectas, grassa o destempero, a intolerância, a incapacidade crônica de ouvir opiniões dissidentes. Escutem um Carlos Sampaio, um Jair Bolsonaro, um Onyx Lorenzoni, toda a bancada da bala, quase toda a bancada do boi, observem suas feições coléricas, o brilho assustador de seus olhos. Não se diz por aí que estão histéricos, que perderam o controle, que não têm mais condição de legislar. Para não ficar apenas na oposição, observem o comportamento de Ciro Gomes, suas brigas épicas com jornalistas, seus palavrões diante de manifestantes. Não vemos reportagens comparando o cearense ao Rei George III da Inglaterra, que também teria sido acometido por sofrimento mental.

Existem críticas ao que essas figuras dizem ou representam, mas não se diz que estão “desequilibradas”, loucas, que não têm condições de permaneceram na vida pública. O ataque se dá no nível político.  Por vezes, o que se chama de destempero no comportamento feminino torna-se até qualidades quando trazido para a esfera da masculinidade. O homem que perde a cabeça, xinga, se encoleriza e que, eventualmente, quebra alguma coisa, é apenas um homem “macho”.

A reportagem da IstoÉ desfila o clássico repertório de desqualificações voltadas para o feminino, desqualificações que anulam as mulheres como seres humanos e como seres políticos.

Nem as esquerdas estão livres do uso indiscriminado desse repertório, no entanto. Desde que Luciana Genro veio a público com a proposta de eleições gerais como possível saída para a crise política, as vozes correntes no governismo foram sempre quase unânimes em apontar nela “destempero”, “infantilidade”, “delírio”, não se vendo, nem de longe, reação semelhante quando Vladimir Safatle, Paulo Nogueira e Paulo Henrique Amorim vieram a público para defender algo semelhante. Quando os homens entraram na conversa, as críticas, de súbito, ganharam um tom mais respeitoso, fraterno até.

Há que se tomar cuidado para não adotar o discurso correto apenas quando ele beneficia quem se deseja defender. Quem age dessa forma com Luciana Genro ou, digamos, com Marta Suplicy não pode sair em defesa de Dilma acusando na revista IstoÉ sua gritante retórica machista. Ou pode, sob pena de deixar claro, no entanto, a própria gritante hipocrisia e o próprio galopante oportunismo.

2 – Os médicos e os monstros.

Ganhou notoriedade, também, o caso da médica pediatra que recusou atendimento a uma criança por ela ser filha de uma militante do Partido dos Trabalhadores, sendo apoiada, inclusive, por um dirigente sindical da classe médica e pelo diretor de uma conhecida empresa de planos de saúde. Fato abominável, a notícia é uma demonstração de que o discurso que apregoa como virtude um ódio irracional ao dissenso político está ganhando corpo e encontra reforço social crescente.

Há que se perguntar se esses mesmos médicos que recusam atendimento ao bebê de uma mulher branca por ela ser petista atendem com boa vontade pessoas em situação de rua, pobres, negros, transexuais. Há anos, tenho lido, aqui e ali, majoritariamente em veículos militantes, histórias de pessoas que deixaram de ser atendidas por médicos, não por levantarem essa ou aquela bandeira partidária, mas simplesmente por serem quem elas são. Fico a me perguntar se esse ódio que, agora, se insurge contra o petismo, já não estava ali, guardado em algum lugar distante das nossas vistas, passando a ser, apenas, alardeado com orgulho por aqueles que dele são detentores.

Sejamos agora mais atentos, também, a esses desvios cotidianos.

Há que se distinguir, ainda, entre os médicos que seguem à risca o Juramento de Hipócrates e salvam vidas todos os dias e esses melancólicos monstros vestidos de branco, que se escudam na ideologia da moda para ocultar a própria torpeza, emprestando-lhe as cores de uma luta “contra a corrupção”, tomando cuidado com as generalizações, sempre tentadoras nesses tempos de extremos.

3 – A picareta de Altman e a condução coercitiva.

Entre os fatos lamentáveis da semana, esteve a abjeta piada do jornalista Breno Altman que sugeria que Luciana Genro deveria ter o mesmo destino do líder revolucionário Leon Trotsky, morto no México, em 1940, com uma picareta enfiada em seu crânio em um assassinato político encomendado por Joseph Stalin. Luciana, para quem não sabe, é trotskista, assim como muitos quadros relevantes da política nacional.

Enquanto alguns deram razão a Breno, sugerindo que o destino de todos os trotskistas deveria ser exatamente esse, fazendo com que a piada ganhasse uma dimensão ainda mais assustadora, outros, ignorando a sugestão do jornalista, empenharam-se em tecer as mesmas críticas feitas contra Luciana Genro na primeira parte deste texto.

Há que se notar que muitas pessoas que discordam de Luciana repudiaram a atitude de Altman, coerentemente, da mesma forma que expressariam repúdio a uma piada hipotética de teor semelhante feita, por exemplo, por Jair Bolsonaro contra Dilma Rousseff ou de Danilo Gentilli contra Jandira Feghali.  A quantidade de pessoas, porém, que preferiu repudiar a vítima da piada ao seu formulador permanece alarmante.

Pouco depois, Altman, sem que tivesse sido previamente intimado, foi conduzido coercitivamente pela polícia de Moro.

Eu, que sou simultaneamente militante político de orientação trotskista e advogado, sei que não cabe a mim comemorar o ato do juiz como um desagravo contra Luciana, com quem me solidarizo sem ressalvas. Foi um ato ilegal no meu entender e, como tal, merece repúdio, ainda que eu não saiba se existe de fato alguma acusação contra o jornalista ou se ela, de fato, procede.

Os procedimentos legais, que defendemos que devam ser aplicados a todos, sem distinção, e que são cotidianamente pisoteados pela polícia e pelo judiciário de nosso país, devem, por simples decorrência lógica, ser aplicados também até para Breno Altman, por menos apreço que ele demonstre pela democracia. Se eu entendo que a condução coercitiva é instituto extremo utilizado em caso de recusa de comparecimento espontâneo por parte de testemunha devidamente intimada e, se Altman não foi devidamente intimado anteriormente, é decorrência lógica a conclusão de que, na minha leitura, sua condução coercitiva foi indevida.

Hoje foi o estalinista, amanhã pode ser você, ontem foram muitos outros que tiveram seus direitos atropelados. Não comemorem.

Sigamos buscando e esperando apenas que a crise política não acabe por revelar o pior de todos nós. Pode não ter volta.